Beatriz passou dois dias sem sair do apartamento.
Não porque Eduardo a tivesse impedido — ele não aparecera mais.
Não mandara mensagens.
Não ligara.
E isso, estranhamente, foi o que mais a desestabilizou.
Ela esperava a presença dele como se espera uma tempestade depois de um céu carregado. O silêncio parecia uma provocação calculada, como se ele soubesse que a ausência agora pesava mais do que qualquer insistência.
Na terceira noite, Beatriz abriu o notebook.
O e-mail do advogado ainda estava ali, não lido.
Comissão familiar agendou a audiência preliminar.
Ela fechou o computador com força.
— Isso é loucura — murmurou para si mesma.
Mas tudo em sua vida havia se tornado louco desde aquele casamento.
Desde o contrato.
Desde o desprezo educado.
Desde o momento em que Eduardo a olhara como se finalmente estivesse… acordado.
Ela foi até a cozinha, pegou um copo d’água, mas a mão tremia tanto que acabou derramando metade no balcão.
Respirou fundo.
Era só desejo.
Só tensão acumulada.
Só o impacto de um homem acostumado a controlar tudo descobrindo que podia perder algo.
Não era amor.
Ela repetiu isso como um mantra.
O interfone tocou.
Uma única vez.
Beatriz fechou os olhos.
— Não — sussurrou. — Não agora.
O interfone tocou de novo.
Ela caminhou devagar até a porta, cada passo pesado, como se o corpo soubesse que algo definitivo estava prestes a acontecer.
— Quem é? — perguntou, mesmo sabendo a resposta.
— Eduardo.
A voz veio baixa, contida. Sem provocação.
— Eu pedi para você me dar espaço — ela disse.
— Eu dei — ele respondeu. — Dois dias.
Ela mordeu o lábio.
— E agora?
— Agora eu preciso falar com você — disse ele. — Não como seu marido. Não como herdeiro de p***a nenhuma. Mas como homem.
Ela hesitou por longos segundos antes de destravar a porta.
Eduardo estava diferente.
Sem terno.
Sem postura ensaiada.
Sem o controle absoluto que sempre o acompanhara.
Usava jeans escuro, camisa simples, o cabelo levemente bagunçado. Parecia… humano.
— Cinco minutos — Beatriz avisou.
— Tudo bem.
Ela se afastou para dar passagem.
Assim que ele entrou, o ar mudou.
Não havia toque. Não havia proximidade excessiva. Ainda assim, o espaço parecia pequeno demais para os dois.
— Você não respondeu minhas mensagens — ela disse, cruzando os braços.
— Eu sei.
— Então por que veio?
Eduardo respirou fundo.
— Porque eu percebi algo.
Ela arqueou a sobrancelha.
— Você anda percebendo muita coisa ultimamente.
— Eu percebi que, se eu continuar te cercando, você vai ficar — ele disse. — Mas vai me odiar por isso.
O coração de Beatriz deu um salto desconfortável.
— E isso não te incomoda?
— Incomoda — ele respondeu, sem hesitar. — Porque eu não quero que você fique por medo. Nem por pressão. Nem por contrato.
Ela riu, amarga.
— Agora você se importa com isso?
Eduardo deu um passo à frente, mas parou antes de invadir o espaço dela.
— Eu me importo com você — disse. — E isso é o que está me aterrorizando.
O silêncio caiu pesado.
Beatriz sentiu o nó na garganta se formar.
— Você me ignorou por meses — ela disse, a voz mais baixa. — Me fez sentir invisível. Pequena. Como se eu fosse uma obrigação incômoda.
— Eu sei — ele respondeu, o olhar escuro, sincero. — E eu não vou justificar isso.
Ela o encarou.
— Então por quê?
Eduardo fechou os olhos por um segundo.
— Porque eu tinha medo — confessou.
Beatriz piscou, surpresa.
— Medo de quê?
— De precisar — ele disse. — De perder o controle. De depender de alguém que não foi escolhida por estratégia, mas por algo que eu não conseguia entender.
Ela sentiu o peito apertar.
— E agora entende?
Eduardo abriu os olhos.
— Agora eu sei que não entender não me salvou — disse. — Só adiou.
Beatriz desviou o olhar, sentindo o corpo inteiro reagir à presença dele.
— Isso não muda o que aconteceu.
— Eu sei.
— Não apaga o abandono.
— Eu sei.
— Não cancela o divórcio.
Eduardo se aproximou mais um pouco.
— Não — concordou. — Mas explica por que eu não consigo assinar aquilo sem sentir que estou arrancando algo de mim.
Ela sentiu o calor do corpo dele, a respiração próxima.
— Você quer que eu fique — Beatriz disse.
— Quero — ele respondeu. — Mais do que qualquer coisa.
— Mesmo sabendo que eu posso ir embora depois?
— Especialmente por isso.
Ela o encarou, confusa.
— Por quê?
— Porque, se você ficar sabendo que pode ir — ele disse —, então não será prisão. Será escolha.
O coração dela bateu forte.
— E se eu escolher ir?
Eduardo aproximou o rosto, a voz quase um sussurro.
— Então eu vou sofrer — admitiu. — Mas vou sobreviver.
Ela fechou os olhos, sentindo as lágrimas ameaçarem cair.
— Você está me pedindo muito.
— Eu sei.
— Você não tem garantia nenhuma.
— Nunca tive — ele respondeu. — Só controle. E isso não funcionou.
Beatriz abriu os olhos.
— E agora?
Eduardo levantou a mão lentamente, dando tempo para que ela recuasse.
Ela não recuou.
Ele tocou o rosto dela com cuidado, como se estivesse lidando com algo frágil demais para suportar força.
— Agora eu estou pedindo — disse. — Não exigindo.
O toque foi suficiente para quebrar a muralha que ela vinha sustentando há dias.
Beatriz o puxou pela camisa.
O beijo foi diferente dos anteriores.
Não foi urgente.
Não foi raivoso.
Foi profundo.
Carregado de tudo que não havia sido dito.
Ela sentiu as mãos dele segurarem seu rosto, firmes, mas respeitosas. O beijo se aprofundou lentamente, como se ambos estivessem testando um terreno perigoso demais.
Beatriz se afastou primeiro, ofegante.
— Isso não significa que eu fique.
Eduardo encostou a testa na dela.
— Eu sei.
— Não significa que eu confie.
— Eu sei.
— Não significa que eu te perdoe.
Ele fechou os olhos.
— Eu sei.
Ela respirou fundo.
— Mas significa que… — a voz falhou — eu não consigo fingir que não sinto nada.
Eduardo abriu os olhos, o olhar queimando.
— Então fica esta noite — pediu. — Não como esposa. Não como obrigação. Só… fica.
O silêncio entre eles era quase insuportável.
Beatriz pensou em tudo o que perdera.
Em tudo o que temia.
Em tudo o que sentia.
E então, pela primeira vez desde o casamento, tomou uma decisão que não estava escrita em contrato algum.
— Só esta noite — disse.
Eduardo não sorriu. Não comemorou.
Apenas a puxou para um abraço forte, como se tivesse acabado de ser salvo de um naufrágio.
E Beatriz percebeu, com o coração disparado, que o nome que ela não conseguia dizer em voz alta…
Era o dele.