Beatriz passou o dia inteiro tentando se convencer de que ainda tinha controle.
Controle do corpo.
Controle das decisões.
Controle da própria vida.
Mas cada vez que fechava os olhos, era o rosto de Eduardo que surgia — não o homem distante com quem se casara por contrato, e sim aquele olhar intenso, escuro, carregado de algo que ela ainda não tinha coragem de nomear.
Quando chegou ao escritório do advogado, já estava exausta.
— O pedido está protocolado — disse a mulher à sua frente, empurrando os papéis. — Mas houve… uma movimentação inesperada.
Beatriz franziu o cenho.
— Que tipo de movimentação?
— O seu marido entrou com um pedido de suspensão temporária.
O coração dela disparou.
— Ele não pode fazer isso.
— Pode — respondeu a advogada, com cautela. — Especialmente considerando a cláusula espiritual do contrato.
Beatriz empalideceu.
— Aquilo era simbólico.
— Para você, talvez. Para a família dele, não.
Ela sentiu o chão desaparecer sob seus pés.
— Quanto tempo?
— Trinta dias — disse a advogada. — Até que a comissão familiar avalie se houve… quebra de destino.
Beatriz riu, nervosa.
— Isso é um absurdo.
Mas não parecia.
Saiu do prédio com o estômago embrulhado, o celular vibrando na mão antes mesmo que pudesse chamar um carro.
Eduardo:
Eu avisei que não terminava com uma assinatura.
Ela fechou os olhos.
Beatriz:
Você passou dos limites.
A resposta veio quase imediata.
Eduardo:
Você cruzou primeiro.
Ela bloqueou o celular.
Não queria ouvir.
Não queria pensar.
Não queria sentir.
Mas o corpo dela… o corpo traía cada pensamento racional.
Naquela noite, tentou dormir cedo. Falhou miseravelmente.
À meia-noite, levantou da cama e foi até a janela. A cidade brilhava indiferente, viva, como se o mundo não tivesse acabado dentro dela.
O interfone tocou.
Ela congelou.
Tocou de novo.
E de novo.
Beatriz respirou fundo antes de atender.
— O que você quer, Eduardo?
— Dez minutos — ele respondeu. — Se depois disso você quiser que eu vá embora, eu vou.
Ela hesitou.
— Sem jogos.
— Sem jogos.
Desceu.
Quando abriu a porta do prédio, ele estava ali — impecável como sempre, mas havia algo diferente. Menos controle. Mais urgência.
— Você não tinha o direito — ela disparou, antes que ele dissesse qualquer coisa.
— Eu sei — ele respondeu. — Mas fiz mesmo assim.
— Você mexeu no divórcio.
— Porque você não entende o que isso significa — ele retrucou. — Não é só um casamento. É uma promessa.
— Promessa feita sem amor — ela rebateu.
Eduardo deu um passo à frente.
— Você tem certeza disso?
Ela abriu a boca para responder… e não conseguiu.
Ele viu.
— Você sente — ele disse, baixo. — Mesmo tentando negar.
— Sentir não é amar.
— Não — ele concordou. — Mas é o começo.
O silêncio entre eles ficou pesado, carregado.
— Eu não confio em você — Beatriz disse, por fim.
— Eu sei.
— E mesmo assim você acha que isso pode funcionar?
Eduardo se aproximou mais, parando a poucos centímetros dela.
— Não. — Ele abaixou a voz. — Eu sei que já funciona.
Ela sentiu o calor do corpo dele, o cheiro familiar, a presença esmagadora.
— Não toca em mim — ela avisou, mas a voz saiu fraca demais.
Eduardo ergueu as mãos, em rendição.
— Então toca você — provocou, o olhar descendo lentamente pelo corpo dela.
Beatriz sentiu o sangue ferver.
— Você é insuportável.
— E você está tremendo.
Ela deu um passo para trás.
— Sai daqui.
— Não — ele respondeu. — Não hoje.
Ela deveria ir embora. Bater a porta. Gritar.
Mas fez o oposto.
Deu meia-volta… e entrou.
Eduardo a seguiu.
Dentro do apartamento, o ar parecia mais denso. Cada passo ecoava como uma escolha irreversível.
— Dez minutos — ela lembrou.
— Eu sei.
Eles ficaram frente a frente.
— Diz que não sente nada — ele pediu. — Olhando pra mim.
Beatriz engoliu em seco.
— Eu…
Eduardo se aproximou, devagar, dando tempo suficiente para que ela recuasse.
Ela não recuou.
— Diz — ele insistiu, a voz rouca.
— Eu não sinto nada — mentiu.
Eduardo sorriu. Um sorriso lento, perigoso.
— Então por que seu corpo está dizendo o contrário?
Ele não a tocou.
Foi pior.
Ficou próximo demais.
O corpo dela reagiu sozinho, o calor subindo, a respiração falhando.
— Para — ela sussurrou.
— Diz pra eu parar — ele respondeu.
Ela fechou os olhos.
Não disse.
O beijo veio como uma explosão contida por meses. Não foi doce. Não foi calmo. Foi intenso, urgente, carregado de tudo que eles tinham evitado.
Beatriz o empurrou… mas não se afastou.
— Isso não muda nada — ela murmurou entre os beijos.
— Muda tudo — Eduardo respondeu, a voz tomada de desejo.
Ele se afastou antes que fosse longe demais, os olhos queimando.
— Eu não vou te prender — disse. — Não vou te obrigar. Mas também não vou fingir que posso viver sem você.
Ela o encarou, o coração disparado.
— E se eu for embora mesmo assim?
Eduardo se inclinou, encostando a testa na dela.
— Então eu vou te esperar.
A frase foi pior do que qualquer ameaça.
Porque soava… eterna.
Quando ele foi embora, Beatriz deslizou até o chão, o corpo inteiro em chamas, a mente em caos.
Ela percebeu, tarde demais, que o ponto sem retorno já tinha sido cruzado.
E não tinha certeza se queria voltar.