Capítulo 14 — O Ponto Sem Retorno

922 Words
Beatriz passou o dia inteiro tentando se convencer de que ainda tinha controle. Controle do corpo. Controle das decisões. Controle da própria vida. Mas cada vez que fechava os olhos, era o rosto de Eduardo que surgia — não o homem distante com quem se casara por contrato, e sim aquele olhar intenso, escuro, carregado de algo que ela ainda não tinha coragem de nomear. Quando chegou ao escritório do advogado, já estava exausta. — O pedido está protocolado — disse a mulher à sua frente, empurrando os papéis. — Mas houve… uma movimentação inesperada. Beatriz franziu o cenho. — Que tipo de movimentação? — O seu marido entrou com um pedido de suspensão temporária. O coração dela disparou. — Ele não pode fazer isso. — Pode — respondeu a advogada, com cautela. — Especialmente considerando a cláusula espiritual do contrato. Beatriz empalideceu. — Aquilo era simbólico. — Para você, talvez. Para a família dele, não. Ela sentiu o chão desaparecer sob seus pés. — Quanto tempo? — Trinta dias — disse a advogada. — Até que a comissão familiar avalie se houve… quebra de destino. Beatriz riu, nervosa. — Isso é um absurdo. Mas não parecia. Saiu do prédio com o estômago embrulhado, o celular vibrando na mão antes mesmo que pudesse chamar um carro. Eduardo: Eu avisei que não terminava com uma assinatura. Ela fechou os olhos. Beatriz: Você passou dos limites. A resposta veio quase imediata. Eduardo: Você cruzou primeiro. Ela bloqueou o celular. Não queria ouvir. Não queria pensar. Não queria sentir. Mas o corpo dela… o corpo traía cada pensamento racional. Naquela noite, tentou dormir cedo. Falhou miseravelmente. À meia-noite, levantou da cama e foi até a janela. A cidade brilhava indiferente, viva, como se o mundo não tivesse acabado dentro dela. O interfone tocou. Ela congelou. Tocou de novo. E de novo. Beatriz respirou fundo antes de atender. — O que você quer, Eduardo? — Dez minutos — ele respondeu. — Se depois disso você quiser que eu vá embora, eu vou. Ela hesitou. — Sem jogos. — Sem jogos. Desceu. Quando abriu a porta do prédio, ele estava ali — impecável como sempre, mas havia algo diferente. Menos controle. Mais urgência. — Você não tinha o direito — ela disparou, antes que ele dissesse qualquer coisa. — Eu sei — ele respondeu. — Mas fiz mesmo assim. — Você mexeu no divórcio. — Porque você não entende o que isso significa — ele retrucou. — Não é só um casamento. É uma promessa. — Promessa feita sem amor — ela rebateu. Eduardo deu um passo à frente. — Você tem certeza disso? Ela abriu a boca para responder… e não conseguiu. Ele viu. — Você sente — ele disse, baixo. — Mesmo tentando negar. — Sentir não é amar. — Não — ele concordou. — Mas é o começo. O silêncio entre eles ficou pesado, carregado. — Eu não confio em você — Beatriz disse, por fim. — Eu sei. — E mesmo assim você acha que isso pode funcionar? Eduardo se aproximou mais, parando a poucos centímetros dela. — Não. — Ele abaixou a voz. — Eu sei que já funciona. Ela sentiu o calor do corpo dele, o cheiro familiar, a presença esmagadora. — Não toca em mim — ela avisou, mas a voz saiu fraca demais. Eduardo ergueu as mãos, em rendição. — Então toca você — provocou, o olhar descendo lentamente pelo corpo dela. Beatriz sentiu o sangue ferver. — Você é insuportável. — E você está tremendo. Ela deu um passo para trás. — Sai daqui. — Não — ele respondeu. — Não hoje. Ela deveria ir embora. Bater a porta. Gritar. Mas fez o oposto. Deu meia-volta… e entrou. Eduardo a seguiu. Dentro do apartamento, o ar parecia mais denso. Cada passo ecoava como uma escolha irreversível. — Dez minutos — ela lembrou. — Eu sei. Eles ficaram frente a frente. — Diz que não sente nada — ele pediu. — Olhando pra mim. Beatriz engoliu em seco. — Eu… Eduardo se aproximou, devagar, dando tempo suficiente para que ela recuasse. Ela não recuou. — Diz — ele insistiu, a voz rouca. — Eu não sinto nada — mentiu. Eduardo sorriu. Um sorriso lento, perigoso. — Então por que seu corpo está dizendo o contrário? Ele não a tocou. Foi pior. Ficou próximo demais. O corpo dela reagiu sozinho, o calor subindo, a respiração falhando. — Para — ela sussurrou. — Diz pra eu parar — ele respondeu. Ela fechou os olhos. Não disse. O beijo veio como uma explosão contida por meses. Não foi doce. Não foi calmo. Foi intenso, urgente, carregado de tudo que eles tinham evitado. Beatriz o empurrou… mas não se afastou. — Isso não muda nada — ela murmurou entre os beijos. — Muda tudo — Eduardo respondeu, a voz tomada de desejo. Ele se afastou antes que fosse longe demais, os olhos queimando. — Eu não vou te prender — disse. — Não vou te obrigar. Mas também não vou fingir que posso viver sem você. Ela o encarou, o coração disparado. — E se eu for embora mesmo assim? Eduardo se inclinou, encostando a testa na dela. — Então eu vou te esperar. A frase foi pior do que qualquer ameaça. Porque soava… eterna. Quando ele foi embora, Beatriz deslizou até o chão, o corpo inteiro em chamas, a mente em caos. Ela percebeu, tarde demais, que o ponto sem retorno já tinha sido cruzado. E não tinha certeza se queria voltar.
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