Capítulo 13 — Quando o Céu Não Responde

916 Words
Beatriz acordou com a sensação de estar sendo observada. Não foi um barulho, nem um toque. Foi aquele arrepio estranho na espinha, a intuição gritando antes mesmo da mente entender. Ela abriu os olhos devagar, o quarto do hotel ainda mergulhado na penumbra da madrugada. Eduardo estava sentado na poltrona, a poucos metros da cama. Não dormia. Não mexia no celular. Não lia. Apenas a observava. O coração de Beatriz quase saiu pela boca. — Você enlouqueceu? — a voz dela saiu rouca, carregada de susto e indignação. — O que você está fazendo aqui? Eduardo se levantou lentamente, como um predador que sabe que a presa não tem para onde fugir. Vestia uma camisa escura, mangas dobradas até o antebraço, o rosto sério demais para alguém que deveria estar constrangido por invadir um quarto alheio. — Eu precisava ter certeza de que você ainda estava aqui — respondeu, calmo demais. Ela se sentou na cama, puxando o lençol até o peito, mais por instinto do que por pudor. — Isso é doença — Beatriz cuspiu as palavras. — Você não pode simplesmente aparecer assim. — Posso — ele disse, simples. — E apareci. Ela respirou fundo, tentando controlar o tremor nas mãos. — Vai embora, Eduardo. Ele não se mexeu. — Você treme quando diz isso — observou. — Não é raiva. É medo. — Medo de você — ela rebateu, mas a frase perdeu força no ar. Eduardo inclinou levemente a cabeça, analisando-a como se fosse um enigma que finalmente começava a se revelar. — Não. — Ele se aproximou mais um passo. — Você tem medo de si mesma. Beatriz sentiu o estômago revirar. — Você não sabe nada sobre mim. — Sei o suficiente — ele respondeu. — Sei que você assinou um pedido de divórcio achando que isso te libertaria. Sei que você rezou naquela noite, pediu um sinal, uma resposta divina. E sei que não recebeu nada. O rosto dela empalideceu. — Como você sabe disso? Eduardo parou diante da cama. — Porque eu senti — disse, baixo. — No exato momento em que você pediu para ir embora, algo mudou. Não em você. Em mim. Beatriz engoliu em seco. — Não me venha com esse papo de destino agora. — Não é destino — ele corrigiu. — É revelação. Ela riu, nervosa. — Revelação divina? Você enlouqueceu de vez? Eduardo estendeu a mão, os dedos pairando no ar antes de tocar o rosto dela. Beatriz deveria afastá-lo. Deveria gritar. Mas o toque foi quente, firme, absurdamente íntimo. — Aquela noite — ele murmurou —, quando você implorou em silêncio para que Deus te dissesse se deveria ficar ou partir… eu acordei com seu nome na boca. Ela sentiu um choque percorrer o corpo inteiro. — Isso não significa nada. — Significa tudo — ele retrucou. — Eu passei meses ignorando você. Cumpri aquele contrato como se fosse uma formalidade. Te deixei sozinha dentro do próprio casamento. E, ainda assim, você ficou. Os olhos dele escureceram. — Até o momento em que decidiu ir embora. A mão dele desceu lentamente do rosto dela até o pescoço, o polegar pressionando de leve o ponto onde o pulso batia acelerado. — Foi aí que eu entendi. — Entendeu o quê? — Beatriz sussurrou, odiando o quanto o corpo reagia. — Que eu não estava perdendo uma esposa — ele disse. — Estava perdendo aquilo que me foi dado. Ela empurrou a mão dele, finalmente encontrando forças. — Você não é dono de mim. Eduardo não resistiu ao empurrão. Apenas sorriu. Um sorriso perigoso. — Ainda não — admitiu. — Mas você sabe que não consegue ir embora. Beatriz se levantou da cama num pulo. — Eu vou embora agora. — Vai? — ele perguntou, tranquilo. Ela caminhou até a porta, o coração disparado. Girou a maçaneta. Trancada. Ela virou para ele, furiosa. — Abre essa porta agora. Eduardo não parecia satisfeito. Parecia… paciente. — Senta — disse. — Não. Ele deu um passo à frente. — Beatriz, não me testa. O tom não foi alto. Não foi agressivo. Foi pior: foi absoluto. Ela sentiu as pernas falharem, o corpo obedecendo antes da mente. Sentou-se na beirada da cama, respirando rápido. Eduardo se aproximou novamente, agachando-se à frente dela, ficando na mesma altura. — Eu não vou te machucar — disse. — Mas também não vou te deixar fugir achando que isso termina com uma assinatura. — Isso é obsessão — ela murmurou. — É devoção — ele corrigiu, sem hesitar. Ele segurou as mãos dela, entrelaçando os dedos. — Você pediu um sinal. Eu fui acordado com ele. Beatriz fechou os olhos, lágrimas queimando. — E se eu não quiser isso? Eduardo aproximou o rosto do dela, a testa encostando levemente na dela. — Então você vai lutar contra algo que já escolheu você. O beijo não veio. Não dessa vez. Ele se levantou, caminhou até a porta e destrancou-a. — Você pode ir embora hoje — disse. — Pode tentar o divórcio. Pode fingir que isso não existe. Ele voltou o olhar para ela, intenso, decidido. — Mas saiba de uma coisa, Beatriz: depois que eu vi o que você é pra mim… não existe contrato, Deus ou tribunal que me faça te soltar. A porta se abriu. Ele saiu. Beatriz ficou ali, sozinha, com o coração em ruínas e a certeza mais assustadora de todas se formando no fundo do peito: Ela não tinha certeza se queria ser solta.
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