Beatriz acordou com a sensação de estar sendo observada.
Não foi um barulho, nem um toque. Foi aquele arrepio estranho na espinha, a intuição gritando antes mesmo da mente entender. Ela abriu os olhos devagar, o quarto do hotel ainda mergulhado na penumbra da madrugada.
Eduardo estava sentado na poltrona, a poucos metros da cama.
Não dormia. Não mexia no celular. Não lia. Apenas a observava.
O coração de Beatriz quase saiu pela boca.
— Você enlouqueceu? — a voz dela saiu rouca, carregada de susto e indignação. — O que você está fazendo aqui?
Eduardo se levantou lentamente, como um predador que sabe que a presa não tem para onde fugir. Vestia uma camisa escura, mangas dobradas até o antebraço, o rosto sério demais para alguém que deveria estar constrangido por invadir um quarto alheio.
— Eu precisava ter certeza de que você ainda estava aqui — respondeu, calmo demais.
Ela se sentou na cama, puxando o lençol até o peito, mais por instinto do que por pudor.
— Isso é doença — Beatriz cuspiu as palavras. — Você não pode simplesmente aparecer assim.
— Posso — ele disse, simples. — E apareci.
Ela respirou fundo, tentando controlar o tremor nas mãos.
— Vai embora, Eduardo.
Ele não se mexeu.
— Você treme quando diz isso — observou. — Não é raiva. É medo.
— Medo de você — ela rebateu, mas a frase perdeu força no ar.
Eduardo inclinou levemente a cabeça, analisando-a como se fosse um enigma que finalmente começava a se revelar.
— Não. — Ele se aproximou mais um passo. — Você tem medo de si mesma.
Beatriz sentiu o estômago revirar.
— Você não sabe nada sobre mim.
— Sei o suficiente — ele respondeu. — Sei que você assinou um pedido de divórcio achando que isso te libertaria. Sei que você rezou naquela noite, pediu um sinal, uma resposta divina. E sei que não recebeu nada.
O rosto dela empalideceu.
— Como você sabe disso?
Eduardo parou diante da cama.
— Porque eu senti — disse, baixo. — No exato momento em que você pediu para ir embora, algo mudou. Não em você. Em mim.
Beatriz engoliu em seco.
— Não me venha com esse papo de destino agora.
— Não é destino — ele corrigiu. — É revelação.
Ela riu, nervosa.
— Revelação divina? Você enlouqueceu de vez?
Eduardo estendeu a mão, os dedos pairando no ar antes de tocar o rosto dela. Beatriz deveria afastá-lo. Deveria gritar. Mas o toque foi quente, firme, absurdamente íntimo.
— Aquela noite — ele murmurou —, quando você implorou em silêncio para que Deus te dissesse se deveria ficar ou partir… eu acordei com seu nome na boca.
Ela sentiu um choque percorrer o corpo inteiro.
— Isso não significa nada.
— Significa tudo — ele retrucou. — Eu passei meses ignorando você. Cumpri aquele contrato como se fosse uma formalidade. Te deixei sozinha dentro do próprio casamento. E, ainda assim, você ficou.
Os olhos dele escureceram.
— Até o momento em que decidiu ir embora.
A mão dele desceu lentamente do rosto dela até o pescoço, o polegar pressionando de leve o ponto onde o pulso batia acelerado.
— Foi aí que eu entendi.
— Entendeu o quê? — Beatriz sussurrou, odiando o quanto o corpo reagia.
— Que eu não estava perdendo uma esposa — ele disse. — Estava perdendo aquilo que me foi dado.
Ela empurrou a mão dele, finalmente encontrando forças.
— Você não é dono de mim.
Eduardo não resistiu ao empurrão. Apenas sorriu. Um sorriso perigoso.
— Ainda não — admitiu. — Mas você sabe que não consegue ir embora.
Beatriz se levantou da cama num pulo.
— Eu vou embora agora.
— Vai? — ele perguntou, tranquilo.
Ela caminhou até a porta, o coração disparado. Girou a maçaneta.
Trancada.
Ela virou para ele, furiosa.
— Abre essa porta agora.
Eduardo não parecia satisfeito. Parecia… paciente.
— Senta — disse.
— Não.
Ele deu um passo à frente.
— Beatriz, não me testa.
O tom não foi alto. Não foi agressivo. Foi pior: foi absoluto.
Ela sentiu as pernas falharem, o corpo obedecendo antes da mente. Sentou-se na beirada da cama, respirando rápido.
Eduardo se aproximou novamente, agachando-se à frente dela, ficando na mesma altura.
— Eu não vou te machucar — disse. — Mas também não vou te deixar fugir achando que isso termina com uma assinatura.
— Isso é obsessão — ela murmurou.
— É devoção — ele corrigiu, sem hesitar.
Ele segurou as mãos dela, entrelaçando os dedos.
— Você pediu um sinal. Eu fui acordado com ele.
Beatriz fechou os olhos, lágrimas queimando.
— E se eu não quiser isso?
Eduardo aproximou o rosto do dela, a testa encostando levemente na dela.
— Então você vai lutar contra algo que já escolheu você.
O beijo não veio. Não dessa vez.
Ele se levantou, caminhou até a porta e destrancou-a.
— Você pode ir embora hoje — disse. — Pode tentar o divórcio. Pode fingir que isso não existe.
Ele voltou o olhar para ela, intenso, decidido.
— Mas saiba de uma coisa, Beatriz: depois que eu vi o que você é pra mim… não existe contrato, Deus ou tribunal que me faça te soltar.
A porta se abriu.
Ele saiu.
Beatriz ficou ali, sozinha, com o coração em ruínas e a certeza mais assustadora de todas se formando no fundo do peito:
Ela não tinha certeza se queria ser solta.