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O caixão de Vincenzo Corvino descia à terra e Matteo não sentiu nada.
Nem quando o padre aspergiu água benta sobre o carvalho escuro. Nem quando a primeira pá de terra bateu na tampa com aquele som oco e definitivo. Nem quando sua mãe, do outro lado do túmulo, levou o lenço aos olhos secos com um gesto teatral que ele conhecia bem demais para levar a sério.
Ele observou. Só isso. Observou os homens de terno preto enfileirados sob o céu cinzento da Sicília, as mãos cruzadas à frente do corpo, os rostos fechados em máscaras de luto que não sentiam. Observou as viúvas de preto que nunca tinham conhecido o velho, mas que choravam por ele porque chorar era o que se esperava. Observou os olhos dos que calculavam. Dos que já estavam medindo o terreno, pesando alianças, decidindo de que lado ficariam quando a poeira baixasse.
Matteo conhecia aquele tipo de olhar. Era o mesmo que via no espelho todos os dias.
O pai estava morto. Um infarto o levara no meio da noite, sozinho em seu escritório, sobre uma mesa coberta de papéis e contas que ninguém além dele entendia. Morrera como viveu: em silêncio, sem testemunhas, sem despedidas. Matteo recebera a notícia às três da manhã por uma ligação de um dos capangas do velho, e lembrava-se exatamente do que sentira naquele momento.
Nada.
Nem choque. Nem raiva. Nem alívio. Apenas um vazio frio, limpo, como uma sala esvaziada de móveis. Ele agradecera ao homem, desligara o telefone, virara-se para o outro lado da cama e dormira mais quatro horas.
Vincenzo Corvino nunca lhe dera nada além do sobrenome. Nem afeto, nem proteção, nem sequer uma palavra de aprovação. Criara o filho como se cria um cão de guarda: com disciplina, privação e a expectativa silenciosa de que, um dia, ele morderia na direção certa. Matteo aprendera a lição cedo. Aprendera a não esperar nada dos outros, a não precisar de ninguém, a não sentir.
E agora o velho estava morto, e o filho não derramaria uma única lágrima por ele. Não porque se continha. Simplesmente porque não havia lágrimas dentro dele para derramar.
O cortejo começou a se dispersar. Homens se aproximaram para apertar sua mão, murmurar condolências que não significavam nada, estudar seu rosto em busca de fraqueza. Matteo os recebeu um por um, com a mesma expressão imóvel, a mesma voz baixa e seca. Não agradeceu. Não sorriu. Não curvou a cabeça.
Quando o último deles se afastou, ele já havia esquecido todos os nomes.
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A casa dos Corvino ficava no alto de uma colina a leste de Palermo, cercada por muros altos e ciprestes que se erguiam como sentinelas negras contra o céu. Era uma construção antiga, de pedra clara, com janelas estreitas e um pátio interno onde o sol quase nunca chegava. Matteo crescera naquele lugar. E odiava cada pedra dele.
Assim que entrou, atravessou o salão sem olhar para os criados que se apressaram em abrir caminho, subiu a escadaria de mármore e foi direto para o escritório do pai.
O cômodo ainda cheirava a charuto e a papel velho. A poltrona atrás da mesa estava vazia, e Matteo a encarou por um longo instante antes de contorná-la e sentar-se nela. O couro rangeu sob seu peso. A mesa à frente era uma bagunça de documentos, contratos, extratos bancários, cartas com selos de cera quebrados.
Ele puxou a gaveta central. Destrancada. Dentro, entre canetas e um rosário esquecido, encontrou um envelope pardo com seu nome escrito à mão, na caligrafia apertada do pai.
Matteo o abriu sem pressa. Havia uma única folha dentro.
"Matteo. Se você está lendo isto, eu já não estou aí. Não espero que chore. Você nunca foi bom nisso. Deixo-lhe o que sempre lhe prometi: tudo. A família, os negócios, o nome. Cuide deles melhor do que eu cuidei. E escolha bem a mulher que vai sentar ao seu lado. Um homem sozinho não sustenta um trono. Um homem m*l acompanhado o perde. — V.C."
Matteo leu duas vezes. Depois dobrou a folha ao meio, riscou um fósforo e a queimou sobre o cinzeiro de bronze, observando as letras do pai se contorcerem em preto e laranja até virarem cinza.
Escolha bem a mulher.
Ele quase riu. Quase.
Os conselheiros chegaram ao anoitecer.
Eram cinco. Todos velhos, todos de preto, todos com aquelas mãos manchadas e pesadas que carregavam anéis de ouro e histórias de sangue. Sentaram-se ao redor da longa mesa de mogno da sala de reuniões, e Matteo sentou-se na cabeceira — no lugar que fora do pai. Nenhum deles questionou. Ainda. Ele sabia que questionariam. Era só uma questão de tempo.
O mais velho, Don Salvatore Rizzuto, um homem de barba branca e olhos de falcão, foi quem falou primeiro.
— Sentimos muito, Matteo. Seu pai foi um grande homem.
— Foi — respondeu Matteo, sem inflexão.
— Um grande Don. Um grande pai. — Rizzuto fez o sinal da cruz. Os outros o imitaram, lentos, sincronizados. Matteo não moveu a mão.
— Temos muito a tratar — continuou o velho. — Mas antes, uma questão de forma. A tradição exige que o novo Don seja... estabelecido. Reconhecido por todos. E para isso, como você sabe, é preciso que ele tenha uma esposa.
Matteo recostou-se na cadeira.
— Sei.
— A família precisa de uma continuidade. De uma base. Uma mulher ao lado do Don não é um luxo, é uma necessidade. E não qualquer mulher. — Rizzuto inclinou-se para frente, os olhos duros. — Ela deve ser de boa linhagem, ter saúde, ser capaz de gerar herdeiros. E acima de tudo — a voz baixou, como se pronunciasse uma lei sagrada — deve ser pura. Intocada. Virgem.
Um murmúrio de concordância percorreu a mesa. Matteo os observou em silêncio, um por um, e sentiu o tédio se instalar em seus ossos como um peso.
— Sei disso — repetiu. — E?
Rizzuto ergueu uma sobrancelha.
— E, como herdeiro, a escolha é sua. Seu pai deixou isso em suas mãos. Vocês podem escolher qualquer mulher que atenda aos requisitos. Nós... — ele abriu as mãos, num gesto de falsa generosidade — temos algumas sugestões, naturalmente. Filhas de aliados, sobrinhas de homens leais. Seria mais... conveniente.
Conveniente.
Matteo deixou o silêncio esticar-se até que se tornasse desconfortável. Viu um dos conselheiros se remexer na cadeira. Viu outro puxar o colarinho. Eram homens acostumados a mandar, mas ali, naquele instante, com o filho do velho Don sentado na cabeceira da mesa, todos eles pareciam pequenos.
— Você tem uma lista? — perguntou Matteo, por fim.
— Temos. — Rizzuto fez um gesto, e o homem à sua direita — um sujeito magro, de óculos redondos, que Matteo reconheceu como o arquivista da família — deslizou uma pasta de couro pela mesa. — Nomes, idades, origens. Todas verificadas. Todas... adequadas.
Matteo não abriu a pasta. Apenas pousou a mão sobre ela, os dedos longos e pálidos contra o couro escuro.
— Quero isso resolvido até o fim do mês.
Silêncio.
— Perdão? — disse Rizzuto.
— Você me ouviu. — Matteo ergueu os olhos, e o olhar que lançou sobre o velho fez o outro recuar meio centímetro na cadeira. — Não tenho tempo para negociações intermináveis, para jantares de apresentação, para essas pantomimas que vocês adoram. Escolherei uma esposa. Ela será pura, será de boa família, será tudo o que a tradição exige. E estará casada comigo antes que o mês termine. Assim que isso acontecer, os chefes das famílias se reunirão e me reconhecerão como Don. E então — ele inclinou-se lentamente para frente — todos vocês, que tanto amam a tradição, terão o que querem. Está claro?
Ninguém respondeu. Ninguém ousou.
Matteo pegou a pasta e levantou-se.
— Podem ir.
Eles se entreolharam, hesitantes, como se esperassem que alguém dissesse algo mais. Mas ninguém disse. Os cinco velhos se ergueram, murmuraram palavras de despedida que ninguém ouviu, e deixaram a sala um após o outro, cabisbaixos, derrotados.
Quando a porta se fechou, Matteo ficou parado no meio do salão vazio, segurando a pasta contra o peito. Do lado de fora, a noite siciliana caía sobre a casa como um lençol de veludo. Não havia lua. Não havia estrelas. Apenas escuridão.
Ele pensou no pai. Na morte do pai. No trono que herdara. Nas centenas de homens que agora o olhavam esperando que falhasse, que fraquejasse, que perdesse o controle para que pudessem arrancar o poder de suas mãos.
E pensou na mulher que escolheria.
Uma virgem. Uma intocada. Uma peça em seu tabuleiro, uma chave para abrir a porta do poder que lhe pertencia por direito.
Matteo não acreditava em amor. Nunca acreditara. Achava o conceito ridículo, uma invenção de poetas e de tolos, uma fraqueza que os homens usavam para justificar suas piores decisões. E não desejava nenhuma companhia — nem calor, nem conversa, nem afeto. Tudo o que ele queria era o que já era seu. A família. O nome. O comando absoluto sobre tudo e todos.
Se precisava de uma esposa para isso, teria uma.
Se precisava que ela fosse pura, a encontraria pura.
E se, um dia, ela se tornasse um estorvo, uma fraqueza, um problema — bem. Ele lidaria com isso quando chegasse a hora. Do jeito que sempre lidava com tudo.
Matteo atravessou o corredor até seu quarto, fechou a porta atrás de si e abriu a pasta sobre a cama.
Nomes. Idades. Cidades. Rostos em fotografias pequenas, recortadas com precisão, colocadas ali para que ele escolhesse como se escolhe um vinho. Ele passou os dedos pelas páginas, os olhos frios, o rosto imóvel.
Familiares. Aliadas. Conhecidas.
E então — uma fotografia diferente das outras.
Uma jovem de cabelos escuros, olhos grandes e claros, o rosto pálido e doce. Vestida com simplicidade quase espartana, num jardim murado. A expressão dela não era de pose. Era de aprisionamento. Como se, no momento em que a foto fora tirada, ela estivesse olhando para uma porta que não conseguia atravessar.
Matteo parou. Não porque ela fosse a mais bonita. Havia rostos mais bonitos na pasta. Não porque fosse a mais rica. Havia herdeiras de nomes muito maiores.
Parou porque, naquele olhar, reconheceu algo.
Não era a mesma coisa que ele sentia. Era o oposto. Onde havia frieza nele, havia fome nela. Onde havia nada nele, havia tudo nela. Uma fome silenciosa de viver, um desejo contido, uma prisão que ela nunca questionara em voz alta, mas que transbordava dos olhos como uma promessa não dita.
Ele virou a página e leu o nome.
Aurora Bellini.
Filha única de um pequeno industrial de Catania, aliado menor da família, endividado e ambicioso. Vinte e um anos. Sem escândalos, sem amantes, sem história. Criada em casa, sob vigilância constante, para ser um dia entregue ao homem que a escolhesse.
Intocada. Pura.
Matteo fechou a pasta e apagou a luz.
No escuro, deitado de costas, com os olhos fixos no teto, ele pensou naquele rosto por exatamente sete segundos. Depois, virou-se para o lado e fechou os olhos.
Era só uma mulher. Uma peça. Um meio para um fim.
E ele não sentia nada por ela.
Não sentiria nada por ela.