Capítulo 1
Maité
Sair de São Paulo nunca esteve nos meus planos, mas depois de tantos acontecimentos, eu precisei fazer isso. Minha vida é um inferno desde os meus 9 anos. Eu tô viva hoje porque tenho fé e acho que Deus deve ter algum plano pra minha vida.
Hoje tenho 22 anos. Infelizmente tenho uma vida infernal, não sei o que é sair, não sei o que é trabalhar, não tenho vida.
Meus 13 anos até os meus 20 anos foram quase sem vida. Fiz uma coisa que pensei ser certa, mas acabou ainda mais com minha vida. Eu passei 7 anos trancada em uma casa. Não podia sair, não podia nada. Esse é um assunto que tenho medo, ódio e vergonha de falar, e tudo muito doloroso pra mim, até de lembrar já dói.
Eu não tenho parente, só um irmão que eu m*l falo. Ele nunca mais foi o mesmo depois que nossos pais morreram. Ele já me falou várias vezes que tem ódio de mim. Ele já foi preso várias vezes, quase morreu inúmeras vezes, e hoje faz exatamente 1 ano que eu não vejo ele. Ele foi embora quando soube que a namorada tava grávida. Não sei o que aconteceu pra ele fazer isso, mas um certo dia, ele aparece e falou pra mim, "Cuida das duas". Ele amava ela demais, isso ninguém podia negar, mas ele foi embora sem mais nem menos.
Naquele dia ele tava alterado, tava na cara que ele tinha usado droga. Aquele dia foi um dos piores dias da minha vida, porque ele me falou tantas coisas, e a pior de todas foi, "Era pra tu ter morrido, não nossos pais". Ali eu chorei, chorei. Ele me olhou com nojo e foi embora.
Desde daquele dia eu entrei em uma depressão grande, tentei acabar com minha vida várias vezes e em todas eu não consegui. Por isso eu falo, Deus deve ter um propósito bem grande na minha vida.
E hoje sou refém de remédio pra ansiedade, depressão, tenho crise de pânico e tantas coisas.
Meus pais morreram quando eu tinha 9 anos. Eles tava me levando pra minha aula de reforço e, no meio do caminho, outro carro bateu no nosso e a gente caiu em uma ribanceira. Só eu consegui me salvar. Depois daquele dia tudo mudou. Minha vida mudou em tudo, fui eu e eu pra tudo. Meu irmão não falava mais comigo, não me dava comida... Passei tantas coisas na mão dele. Ele já me bateu tanto que tive que parar em um hospital com fratura na costela e no braço. A única coisa que ele ainda deixou eu fazer foi ir pra escola, mas fiz até o 9° ano. Sempre fui muito inteligente, mas não pude terminar a escola, ele não deixou. Ele tem um ódio mortal de mim, eu sempre quis saber o porquê de todo esse ódio. Mas depois de um tempo parei de tentar entender.
Agora tô na rodoviária esperando o ônibus por Rio de Janeiro. Lá não era o que eu queria, mas foi o que couber no meu orçamento. Consegui um kitnet em um morro. Vida engraçada, né? Tô querendo sumir de um morro e tô me enfiando em outro, mas lá é seguro e sei que ninguém vai atrás de mim. Consegui esse lugar por uma vizinha que morava ao lado da casa onde eu tava quase me escondendo.
Saí do meu pensamento com o alto-falante anunciando a saída do meu ônibus.
Maité: Vamos, meu amor — falei ajeitando a Jamile no meu colo, e pegando minha bolsa. A única coisa que eu tenho é a mala e a bolsa da bebê, já ela tem várias coisas, e graças a Deus.
Jamile é minha sobrinha, filha do meu irmão. Infelizmente a vida é tão filha da p**a comigo que tirou a Paola de nós. Paola passou a gravidez toda comigo depois que os pais dela expulsaram ela da casa deles. Ela foi uma irmã pra mim, me salvou tantas vezes... Mas a gravidez dela era de risco e, no dia do parto...
FLASHBACK
Acordei, fiz o café, arrumei a mesa com as poucas coisas que tinha pra merenda e me sentei esperando ela acordar.
Depois de um tempinho ela apareceu na sala com o rosto cheio de vida, ela tava tão feliz.
Paola: Ei, gatinha, vamos tomar café? — Olhei pra ela.
Maité: Amiga, não tô a fim — falei com a voz triste.
Paola: Maité, não faz isso, por favor — isso foi o suficiente pra me fazer chorar. Era o dia que meus pais faziam 13 anos de falecidos. Acordei m*l, não sabia o que fazer, tudo tava sem sentido. Era saudade dos meus pais, do meu irmão... Eu não tinha família, eu só queria sumir. Ela me abraçou — Não fica assim, meu amor. Vamos estar juntas pra sempre.
Ela evitava falar do meu irmão. Ela amou ele demais, eu vi o quanto ela sofreu por ele, e aos poucos ela foi esquecendo dele pelo bem dela e da Jamile. Eu queria ser igual a ela, queria esquecer ele, mas não conseguia. Ele era meu príncipe, o meu Gelinho, meu primeiro amor depois do meu pai.
Maité: Obrigada por tá comigo — eu sorri olhando pra ela. Ela sorriu, mas depois fez uma careta.
Paola: Ai — ela colocou a mão na barriga.
Maité: O que foi? Tá sentindo o quê? — Nisso olhei pro chão e tava todo molhado.
Paola: A bolsa estourou — ela sorriu. — Nossa Jamile tá chegando.
A gente começou a pegar as coisas. Ela tomou um banho, ela tava calma, já eu tava em pânico.
Chegamos na maternidade, foi tudo rápido. Ela tava bem, tirando as dores. Já eu tava doida pra ligar pro meu irmão, queria ele aqui... Sei lá, pra mim a filha ia mudar ele, mas ela não deixou. Ela não queria ele aqui com ela. Do nada ela começou a sentir falta de ar, o médico mandou ela pra sala de parto. Eu entrei com ela. Ela tava bem e do nada ficou r**m. Os médicos pareciam nervosos. O que era pra ser um parto normal foi pra uma cesárea de emergência. Eu só conseguir pedi a Deus que ela ficasse bem, mas do nada ela começou a me olhar com os olhos cheios de lágrimas e pegou na minha mão.
Paola: Se acontecer alguma coisa comigo, cuida dela, por favor.
Maité: Não fala isso, por favor. Você vai ficar bem — já comecei a chorar.
Paola: Me promete, Maité, por favor?
Maité: Tá, tá, mas nada vai acontecer com você, né? — Ela sorriu, com várias lágrimas caindo.
Paola: Não deixa ele chegar perto dela. Ela não tem pai, ela só tem você. Seja a mãe dela, cuida dela, não deixa ele ver a nossa Jamile — eu não consegui responder. Os aparelhos começaram a apitar e ela fechou os olhos.
Maité: Acorda, Paola, acorda — falei desesperada.
— A senhora precisa sair — o médico falou sério.
Maité: NÃO. EU NÃO VOU SAIR — Gritei.
— Tira ela agora — ele mandou, e dois enfermeiros me tiraram à força. Eu gritei, me debati e nada. Eles me deixaram na recepção.
Eu chorei, mas chorei... Chorei pedindo que Deus deixasse elas comigo, chorei de ódio do meu irmão. Ela ficou assim por culpa dele, ela entrou em uma gravidez de risco por culpa dele.
Depois de quase 2 horas, eu já não tinha mais forças pra nada. Chorei tanto que tava olhando pra um ponto fixo no chão há horas. A porta abriu e um médico parou na minha frente. Olhei pra ele e ele abaixou a cabeça.
Eu me desesperei, não acreditei. Eu tive que tomar um sedativo.
Quando acordei, nada mais fazia sentido pra mim. O médico me falou que a pressão dela aumentou e eles fizeram de tudo pra salvar ela, mas não conseguiram. A bebê nasceu e foi direto pra UTI. Eu demorei pra ir ver ela. Pra mim tudo tinha acabado, eu não tinha mais ninguém no mundo. Eu enterrei minha amiga, irmã, a pessoa que seria capaz de dar a vida por mim.
Eu só fui ver a Jamile 2 meses depois, porque a maternidade me ligou e falou que ela tava de alta. Eu não queria ver ela, não queria contato. Eu fui na maternidade decidida a colocar ela pra adoção, mas assim que eu vi ela, eu travei, ela tinha os olhos da Paola.
FLASHBACK OFF
E assim, hoje eu cuido da minha Jamile. Ela tem 6 meses e, sim, ela está no meu nome. Oficialmente eu sou a mãe dela, no papel. Jamile é o amor da minha vida, a minha princesa, a minha razão de viver. É por ela que não desisti de mim mesma.
Por ela, eu escolhi deixar São Paulo, porque estava atrás do meu irmão, e pra não colocar a vida dela em risco, escolhi deixar tudo pra trás, por mais que o passado nunca iria me deixar em paz.
Maité: Sempre vou cuidar de você, meu amor — olhei pra ela que estava dormindo.
O ônibus não demorou pra sair. Olhei pela última vez pro lugar onde tô deixando pra trás minha vida e vários traumas que só quero esquecer.
Que essa nova vida me traga paz, e que nós possamos ser felizes.