A Ordem da Luna

993 Words
~ Terceiro ~ A confirmação da visita do Príncipe Roran atravessou os corredores da Alcateia da Lâmina n***a como um raio, mas não trouxe luz; trouxe uma tensão sufocante. Para a Luna Samira, aquela não era apenas uma visita diplomática, era a oportunidade de ouro para selar o futuro da sua linhagem. Na sala comunal, Samira observava os ômegas ou escravos, como um bicho. Ela era uma mulher de beleza gélida, cujos cabelos negros estavam sempre presos de forma tão impecável que pareciam uma armadura. Embora não tivesse filhas para oferecer em casamento ao herdeiro do Cume de Gelo — algo que ela odiava — a sua ambição era incontrolavel. Se não podia ser a sogra do Rei, seria a arquiteta de uma amizade inquebrável. — O Rei é jovem, Lucius — murmurou ela para o marido, o Alfa da matilha. — Ele precisa de guerreiros de confiança ao seu lado, não apenas de uma esposa. Se o Gunnar e o Grimm se tornarem os seus aliados mais próximos, a Lâmina n***a governará estas montanhas com a mão da realeza. Lucius, um homem cuja barba grisalha escondia cicatrizes de combates brutais, assentiu com um rosnado de aprovação. Ele era a força, mas Samira era o veneno que guiava o golpe. — Tudo deve estar perfeito — continuou ela, a voz descendo para um tom perigoso. — E isso inclui as "aberrações". Como se tivessem combinado o alvo do seu ódio, o casal de Alfas dirigiu-se às entranhas da mansão. Não foram para o salão de festas decorado com ramos e velas, mas para a cozinha úmida e enfumaçada, onde Kallie e Aurora tentavam desesperadamente limpar panelas de ferro maciço com mãos que m*l conseguiam fechar de tanto frio. O som das botas de couro de Lucius contra o chão de pedra fez o coração de Kallie disparar. Ela e Aurora encolheram-se instantaneamente contra a mesa de carvalho, as cabeças baixas, os olhos fixos nas manchas de gordura dos suas roupas rasgadas. — O Rei vem a caminho — a voz de Samira chicoteou o ar, cortando o som da lenha a estalar. Ela parou diante das duas, o seu olhar de nojo percorrendo as pequenas meninas. Para Samira, a existência daquelas duas "sem cheiro" era uma ofensa pessoal. — Em poucas horas, o homem mais poderoso deste reino cruzará os nossos portões. E se ele sentir o cheiro de mofo de vocês ou vir um único fio de cabelo fora do lugar, eu mesma farei com que desejem nunca ter nascido. Lucius não usou palavras. Com um movimento rápido, ele avançou. As suas mãos grandes agarraram os cabelos de Kallie e de Aurora ao mesmo tempo, puxando as suas cabeças para trás com tanta força que ambas soltaram gritos de dor abafados. Ele obrigou-as a olhar para cima, para os rostos cruéis dos seus mestres. — Escutem bem, suas pragas — Lucius rosnou, o hálito a carne e álcool atingindo o rosto de Kallie. — Vão deixar tudo perfeito. Quero os salões a brilhar como espelhos. Quero a comida quente e impecável. E os aposentos do Príncipe... se houver uma dobra errada nos lençóis de seda, eu mesmo corto as mãos de vocês. Kallie sentia o couro cabeludo a arder, prestes a rasgar. Ao seu lado, Aurora tremia tanto que os dentes batiam, o terror a paralisar a menina de dezesseis anos. — E aqui fica o aviso final — Samira interveio, aproximando-se de Kallie, o rosto a poucos centímetros do dela. — Durante a festa, vocês serão sombras. Sombras mudas. Se ousarem olhar para um convidado, se ousarem abrir a boca para pedir uma migalha ou, pior, se tentarem falar com o Príncipe Roran... será o fim. Não falo de chicotadas. Falo de serem jogadas no pátio, ao frio com correntes de pratas. Lucius deu um puxão final, fazendo as cabeças delas baterem uma contra a outra, antes de as soltar como se fossem lixo. Kallie caiu de joelhos, amparando Aurora, que soluçava baixinho. — Sim, Luna... Sim, Alfa... — Kallie conseguiu sussurrar, a voz rouca de dor. — Ótimo — Lucius limpou as mãos na túnica, como se o toque nelas o tivesse sujado. — Voltem ao trabalho. O tempo corre, e a Lâmina n***a não aceita falhas. Saíram da cozinha com a arrogância de quem detém o poder de vida e morte. Kallie olhou para as suas mãos; estavam roxas e inchadas pela água gelada. Olhou para as costas de Aurora e viu que o sangue de ontem começava a vazar novamente pela túnica velha, resultado do esforço de carregar lenha. — Kallie... eu não vou conseguir — Aurora soluçou, escondendo o rosto entre as mãos. — Eu vou desmaiar... eu sei que vou. As minhas pernas não aguentam. — Vai conseguir, Aurora. A gente consegue — Kallie sussurrou, puxando a amiga para perto. — Vamos ser invisíveis. Só mais algumas horas e deixamos tudo pronto. Depois, podemos voltar para o nosso colchão e desaparecer. Kallie tentava ser a força de Aurora, mas por dentro sabia que estava próxima da morte também. A pressão era insuportável. Servir os seus torturadores, preparar um banquete para um Príncipe que provavelmente era tão c***l como Gunnar, enquanto o seu próprio corpo gritava por socorro, além da fome que gritava. Levantaram-se e começaram a carregar as bandejas de prata em direção ao salão principal. O castelo estava a ser decorado com velas aromáticas que tentavam disfarçar o cheiro de sangue e medo que impregnava as paredes. Kallie não sabia, enquanto polia as taças de cristal para o Rei, que as palavras de Samira sobre "ser uma sombra" eram inúteis. Não importava o quanto ela tentasse esconder-se ou o quanto Lucius a ameaçasse. O destino de Kallie já não estava nas mãos dos Alfas da Lâmina n***a. Estava a galope, a poucos quilómetros de distância, na forma de um Príncipe que não buscava perfeição nos salões, mas a alma que gritava por ele em silêncio.
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