O Rugido do Vento

795 Words
~ Terceiro ~ O motor do SUV blindado preto fosco produzia um barulho baixo e constante, o único som que ousava desafiar o silêncio pesado dentro da cabine. Estávamos a poucas horas de cruzar a fronteira da Alcateia da Lâmina n***a. O caminho era por passagens estreitas, onde a rocha cinzenta parecia querer esmagar a estrada de terra e cascalho. Eu estava no banco do passageiro, observando a paisagem mudar. Atrás de nós, os picos nevados do Cume de Gelo ficavam para trás; à nossa frente, a floresta do sul tornava-se densa, sombria e estranhamente silenciosa. Kael dirigia com as mãos firmes no volante de couro, mas eu notava a tensão em seus nós dos dedos, que estavam brancos. — Você também está sentindo isso? — Kael perguntou, sua voz saindo mais rouca que o normal. Eu não precisei perguntar o que era "isso". Meu lobo, que geralmente era uma fera silenciosa e disciplinada, estava andando de um lado para o outro dentro da minha mente. Ele arranhava as paredes da minha consciência, as orelhas em pé, os olhos dourados fixos em algo que eu ainda não conseguia ver. — Ele está inquieto — confessei, ajustando o colarinho da minha camisa de linho n***o. — Desde que passamos pelo último posto de controle, ele não para de rosnar. — O meu também — Kael admitiu, mudando a marcha enquanto o carro subia uma ladeira íngreme. — É uma sensação estranha. Como se o ar estivesse denso. Meus instintos estão gritando que estamos entrando em território inimigo, mas não é apenas alerta de combate... é algo mais... periogoso. Eu olhei pela janela, observando os pinheiros que passavam como vultos. — Deve ser o clima. O desfiladeiro da Lâmina n***a é conhecido por ser um funil de ventos polares. O ar aqui embaixo é mais úmido, o frio é diferente do nosso. Ele entra nos ossos. Tentei me convencer de que era apenas a pressão atmosférica ou a altitude. Mas meu lobo soltou um ganido baixo, um som de angústia que nunca o ouvira fazer antes. Eu senti uma pontada aguda no peito, no mesmo lugar onde a inquietação vinha me assombrando há alguns dias. — Lucius e Samira não são exatamente anfitriões calorosos — continuei, tentando focar na política. — Eles governam aquela matilha como se estivessem no século passado. São gananciosos e sem escrúpulos. Talvez a inquietação dos nossos lobos seja apenas o nojo de estarmos perto de gente assim. Kael assentiu, mas não parecia convencido. O interior do carro, equipado com a melhor tecnologia de isolamento acústico e aquecimento, deveria ser um refúgio, mas parecia uma jaula. — Roran, olhe o termômetro — Kael apontou para o painel digital. Os números caíam rapidamente. Estávamos no auge do outono, mas a temperatura externa marcava níveis de inverno rigoroso. A neblina começou a lamber o vidro blindado, transformando a estrada em um túnel cinzento. — É como se a própria terra estivesse morrendo por aqui — Kael murmurou. Eu fechei os olhos por um segundo, tentando acalmar a fera dentro de mim. Mas, ao fechar as pálpebras, uma imagem rápida e borrada cruzou minha mente: olhos castanhos cheios de lágrimas e o cheiro metálico de sangue misturado com mofo. Meus olhos se abriram abruptamente. Minhas pupilas dilataram, o azul sendo tomado pelo dourado do meu lobo. — Roran? — Kael me olhou de relance, preocupado. — Seus olhos... eles mudaram. — Acelera essa droga de carro, Kael — ordenei, minha voz saindo carregada de uma autoridade que fez o próprio carro vibrar. — O que foi? O que você sentiu? — Eu não sei — respondi, meu coração batendo tão forte que eu podia ouvi-lo nos meus ouvidos. — Mas sinto que, se não chegarmos logo, algo vai se quebrar. Algo que eu nem sabia que existia. Kael não questionou. Ele pisou no acelerador e o motor potente do SUV rugiu, jogando o veículo contra a neblina. As árvores tornaram-se borrões e o frio do desfiladeiro parecia rugir contra o vidro, tentando impedir nossa entrada. Eu não era um homem de pressentimentos, mas naquele momento, eu sabia de uma coisa: eu não estava indo para a Lâmina n***a para assinar um tratado. Eu estava indo porque algo lá dentro pertencia ao Rei do Cume de Gelo. E Deus ajudasse quem estivesse no meu caminho quando eu descobrisse quem estava machucando o que era meu. — Estamos quase lá — Kael disse, avistando as torres de pedra bruta da mansão da Lâmina n***a surgindo na bruma. — Prepare-se, Roran. O circo está armado. — Deixe que armem o circo — eu disse, minhas garras começando a arranhar o estofado de couro do banco. — Eu não vim para ver palhaços. Eu vim para o que é meu.
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