Prólogo..
O DESEJO QUE NÃO QUERO SENTIR
A música pulsa como um segundo coração, abafado, íntimo, e vibra por debaixo da minha pele. Sinto a batida nos ossos, nos nervos, no ventre. A cadeira onde estou sentada vibra também, como se fosse parte da música — ou de mim. Estou vendada. E essa venda, fina, macia, mas opressora, me prende mais do que deveria. Tudo ao meu redor é som, cheiro e calor.
Perfume amadeirado, álcool caro, suor. Há algo denso no ar. Um cheiro de gente viva. De corpo quente. De luxúria. Euforia feminina me cerca, gargalhadas, gritos, suspiros. Eu não queria estar aqui. Eu não deveria estar aqui.
— Confia em mim — foi o que Betânia disse antes de me vendar. — É teu aniversário. Você precisa viver.
Viver. Uma palavra que me escapa faz tempo.
A venda é retirada. A luz me atinge, borrando os contornos. Meus olhos demoram a focar. E então vejo. Quatro homens no palco. Corpos nus em óleo, músculos definidos, bronzeados. Se movimentam como predadores domesticados, dançando com a malícia de quem sabe que é desejado. Se aproximam de nós — de mim. Suas mãos me tocam com destreza, provocando arrepios que não quero sentir. Não quero. Mas meu corpo já não ouve a minha mente.
Eles se esfregam, se insinuam. É tudo bonito, sim. Mas nada me invade de verdade.
Até que ele entra.
O ambiente muda. Sutil, mas perceptível. Como quando uma tempestade se aproxima e o ar fica diferente. Ele caminha pelo palco com passos firmes, sem pressa. Como se soubesse que todos os olhos estariam nele. Pele vermelha como brasa, músculos tensos como cordas prestes a romper. Ele usa uma máscara preta que cobre parte do rosto, mas não esconde o magnetismo feroz que emana de seu corpo.
Ele não dança. Ele domina.
Meu coração vacila. Um pulo. Um susto. Um aviso.
Seus olhos encontram os meus. E algo acontece. Algo que não sei nomear, mas sinto nas entranhas. Como se já o tivesse visto antes. Como se algo dentro de mim gritasse reconhece, enquanto tudo fora de mim se recusa a ouvir.
Ele caminha até mim. As luzes o banham em vermelho, dourado, sombra. É um deus pagão descendo do altar. Para diante de mim e não diz nada. Apenas estende a mão. O gesto é simples, mas carrega um poder avassalador. Meu instinto quer fugir, mas minha mão já está na dele.
Ele me levanta. É firme, quente, sólido. O calor do seu corpo me envolve, seu cheiro — diferente dos outros — me atinge. Uma mistura de couro, canela e sal. Familiar e excitante. Ele passa por trás de mim. Seu peito roça minhas costas. Seu nariz desliza pelo meu pescoço.
Eu suspiro. Um som que me trai.
Miguel...
Me perdoa.
Fecho os olhos e vejo seu rosto. Seu sorriso torto, seus olhos escuros. A forma como ele me olhava quando fazíamos amor. A maneira como dizia que eu era o furacão que destruiu todas as muralhas dele.
Ele se foi.
E eu prometi que nunca deixaria ninguém entrar de novo.
Mas esse homem — esse desconhecido — não pede permissão. Ele invade. Silenciosamente. Irresistivelmente.
Ele toma minha mão e a leva até seu abdômen. Pele quente, úmida, músculo definido. Ele guia meus dedos por sua pele como se meu toque fosse necessário. Como se me quisesse. E algo em mim quer querer também.
Quero gritar. Me afastar. Mas fico. Paralisa. Dominada. Hipnotizada.
— Curte — Betânia sussurra em meu ouvido, como uma cúmplice sem saber o crime.
Como posso curtir, Betânia?
Como posso, se ainda sou metade mulher, metade viúva?
Um dos dançarinos me ergue, gira meu corpo, me deita no palco com delicadeza ensaiada. Outro se aproxima e simula prazer, seus quadris se movem sobre mim. Mas não sinto. Nada me toca de verdade. Nada, até que o mascarado volta.
Ele afasta os outros com um gesto. Autoritário. Como se não admitisse distrações. Seus olhos estão em mim. Só em mim. Ele se abaixa, me oferece a mão novamente. Eu aceito. Não sei por quê. Talvez porque o mundo parou de fazer sentido cinco anos atrás e agora... talvez... ele comece a pulsar de novo.
Sento-me na cadeira. O lugar onde tudo começou. Ele segura a cadeira com força, como se quisesse me prender ali, não com correntes, mas com o olhar. E então dança. Para mim. Só para mim.
É cru. É belo. É selvagem.
Seus movimentos são controlados, mas cada ondulação do quadril parece uma ameaça. Um pedido. Uma confissão. Ele não desvia os olhos. E eu não consigo escapar.
Minhas mãos são puxadas de novo. Colocadas em seu peito. Ele as guia por sua pele, pelo caminho entre os músculos, até o ventre. Minha garganta seca. Umidade se acumula em lugares que eu não permito pensar.
Ele se abaixa, coloca o rosto perto do meu. A respiração dele roça minha boca. Ele não me beija. Mas está quase lá. Tão perto que posso sentir a energia. A tensão. O desejo dele por mim.
E é nesse instante que eu sinto.
Não desejo.
Não só.
É como se ele quisesse me quebrar. Como se soubesse que há algo em mim esperando para ser reconstruído. Como se ele tivesse sido feito para isso.
E então... pela primeira vez em muito tempo... meu corpo responde.
Meu coração bate por algo que não é dor.
Minhas mãos tocam por vontade.
Meus olhos não choram por ausência — mas por medo da presença.
Quem é esse homem?
E por que sinto que... se ele me tocar de verdade, não vou conseguir voltar atrás?
Fico ali, parada, com o corpo ainda trêmulo e a pele em brasa, como se o toque dele tivesse deixado um rastro invisível. Olho ao redor, tentando racionalizar, tentando entender o que acabou de acontecer, mas nada faz sentido. O palco parece mais escuro agora, como se a presença dele tivesse levado a luz junto. As outras dançarinas gritam, se divertem, e Betânia me cutuca com o cotovelo, sorrindo feito uma adolescente.
— Eu te disse, mulher. Foi ou não foi o melhor presente da sua vida?
Eu não consigo responder. Não consigo sequer formar um pensamento coerente.
Como ele sabia meu nome?
Como ele sabia que era meu aniversário?
Como ele me leu daquele jeito?
Meus dedos ainda formigam. Meus lábios estão entreabertos, como se ainda esperassem um beijo que não veio. Meus olhos ardem, e não sei se é do calor, da confusão ou da dor que insiste em ficar. Tento me convencer de que foi só uma apresentação. Que ele faz isso toda noite. Que outras mulheres já passaram pelas mesmas mãos, já sentiram a mesma boca, o mesmo calor.
Mas a forma como ele me olhou… não.
Aquilo não se ensaia.
Aquilo se sente.
— Preciso de um pouco de ar — murmuro para Betânia, já me levantando.
Ela tenta me seguir, mas faço um gesto rápido com a mão. Preciso ficar sozinha. Caminho até uma porta lateral que dá para um corredor estreito, iluminado por lâmpadas âmbar. O som da música fica abafado atrás de mim, e o silêncio quase me ensurdece. Apoio as costas na parede fria, tentando conter o caos dentro de mim.
Cinco anos.
Foram cinco anos de silêncio emocional, de fidelidade ao luto, de me fechar inteira para o mundo. Eu enterrei o amor da minha vida. Enterrei meu homem, meu cúmplice, meu amante. Enterrei a versão de mim que existia só com ele. E agora…
Agora tem um homem mascarado que me faz estremecer com um sussurro.
Levo a mão ao peito, tentando conter as batidas apressadas. Fecho os olhos. Respiro fundo. Tento me ancorar na dor — minha dor segura, conhecida. Mas ela já não é mais a única coisa que pulsa dentro de mim.
Ele deixou algo em mim.
Algo que não consigo tirar.
E o pior?
Eu não quero tirar.
Escuto passos atrás de mim. Quando viro, espero ver Betânia, mas é outro homem — um segurança, talvez, ou apenas alguém cruzando o corredor. Ele não me nota. Passa direto. E eu fico ali, lutando contra mim mesma.
Não quero saber quem ele é.
Mas preciso.
Não quero vê-lo de novo.
Mas já estou esperando que ele apareça.
E então, percebo o mais c***l de tudo:
Eu não quero voltar a me sentir viva.
Porque viver significa aceitar que Miguel não volta mais.
E ainda assim, ele me deixou um desejo no corpo.
Um incêndio que não termina com lágrimas.
Um nome sussurrado na escuridão.
Um beijo na mão.
Uma ausência nova.
Quem é você, homem mascarado?
E por que, pela primeira vez em cinco anos, minha alma quer ser tocada de novo?