Júlia narrando
Desde pequena, aprendi que a vida era feita de escolhas, e que algumas delas custavam mais caro do que eu poderia imaginar. Meu nome é Ana Júlia, tenho 29 anos, nasci em Pelotas, no Rio Grande do Sul, mas foi no Morro do Vidigal, no Rio de Janeiro, que vivi os momentos mais intensos da minha vida lá.
Meus pais decidiram se mudar para o Rio em busca de uma vida melhor, mas tudo o que encontrei foi um mundo de proibições e medo dentro da minha própria casa. Desde cedo, senti na pele o peso da rigidez do meu pai, um homem de poucas palavras e mãos firmes. Qualquer deslize era punido com gritos ou, na pi0r das vezes, com cintadas. Mas nenhuma surra foi tão dolorosa quanto a que levei por me apaixonar por Leonardo.
Me lembro do primeiro dia em que o vi. Eu estava no colégio, sentada no pátio, tentando me concentrar em um livro. Leonardo chegou com sua risada alta, cercado pelos amigos. Ele não levava nada a sério. Ia para a escola mais para arrumar briga e bagunçar do que para aprender. Mas eu enxergava algo a mais nele. Algo que fazia meu coração disparar e minhas mãos suarem.
Nosso envolvimento foi inevitável. Ele me olhava de um jeito que fazia minhas pernas tremerem, e quando me chamou para conversar pela primeira vez, senti que minha vida mudaria para sempre. Nos encontrávamos escondidos, pois eu sabia que meu pai jamais aceitaria. Leonardo era filho do dono do morro, um homem temido e respeitado por todos. Para minha família, ele era apenas um marginal, um perigo ambulante. Para mim, ele era tudo o que eu queria.
A primeira vez que meu pai soube do nosso romance, senti o gosto do sangue na boca antes mesmo de entender o que estava acontecendo. Ele me bateu com tanta força que pensei que ia desmaiar. Disse que eu não tinha mais permissão para sair sozinha, e meus irmãos ficaram encarregados de me vigiar. Cada passo meu era relatado, cada olhar, cada suspiro. Eu era prisioneira dentro da minha própria casa.
Mas o amor tem um jeito estranho de nos fazer resistir, Mesmo apanhando, mesmo sendo vigiada, eu encontrava maneiras de ver Leonardo. Eu nunca contei para ele o que acontecia dentro da minha casa. Nunca disse que as marcas no meu corpo não vinham de tombos ou descuidos, mas sim das mãos pesadas do meu pai. Eu não queria que ele sentisse pena de mim, Não queria que ele tentasse me salvar, eu só queria amá-lo, mesmo que isso me custasse caro.
E custou, em uma noite qualquer, meu irmão mais velho entrou no meu quarto com um sorriso estranho no rosto. "Amanhã voltamos para Pelotas", ele disse. Meu coração gelou, Eu sabia que não tinha escolha. Minha família já havia decidido. Eu não teria tempo para me despedir.
Mas eu não podia ir embora sem ver Leonardo uma última vez. Esperei todos dormirem e, no silêncio da madrugada, fugi de casa. Subi o morro, corri até a casa dele e bati na porta com a urgência de quem sabe que o tempo está acabando, quando ele abriu, eu me joguei em seus braços. Naquela noite, entreguei a ele o que eu tinha de mais precioso. Não contei que ia embora, Não queria ver a dor nos olhos dele. Queria que ele me lembrasse daquele momento como algo bonito.
Na manhã seguinte, parti sem olhar para trás, O Rio de Janeiro ficou para trás, assim como meu primeiro amor.
Os meses seguintes foram de tristeza profunda. Eu me sentia incompleta, um pedaço meu havia ficado no Vidigal. Mas então, a vida me deu um golpe ainda maior, descobri que estava grávida.
Eu era apenas uma menina, 14 anos e um futuro incerto crescendo dentro de mim. Contei para minha mãe esperando apoio, mas recebi apenas dor. Ela me bateu até que meu corpo não aguentasse mais, e foi assim que perdi meu bebê, sozinha e sangrando, jurando que nunca mais deixaria um homem me tocar.
O amor, para mim, morreu naquele dia. Eu enterrei junto com o filho que nunca pude segurar nos braços, que não teve tempo de crescer, nem se quer ouvi seu coraçãozinho bater pelo menos uma vez, desde então, construí muralhas ao meu redor. Nenhum homem jamais me faria sofrer de novo.
E assim, segui minha vida. Carregando cicatrizes que ninguém podia ver, mas que nunca me deixavam esquecer.
A vida nunca foi gentil comigo. Desde a infância, fui condicionada a ser forte, a aguentar os golpes da vida sem reclamar. Mas a verdade é que, por dentro, eu sempre fui frágil. Com tanta tristeza, comecei a comer compulsivamente, e recebia eram críticas e olhares de desprezo. Com o tempo, busquei refúgio nos estudos e, sem perceber, também na comida. Cada pedaço que levava à boca parecia preencher, por um instante, o vazio dentro de mim. Até que esse hábito se tornou um vício, e meu corpo começou a mudar. Eu engordei. E com isso, os olhares tortos, os risos disfarçados e os comentários cruéis se tornaram constantes.
Mesmo assim, segui em frente. Terminei meus estudos e entrei na faculdade de pedagogia. Me dediquei ao máximo, queria fazer a diferença, ensinar, mudar a vida de alguém. Mas de que adiantava? Para muitos, minha aparência falava mais alto do que minha inteligência. Sofri bullying dos colegas, dos professores, até mesmo dentro de casa. Meus irmãos seguiram suas vidas, se casaram, tiveram filhos, e eu fui deixada para trás, como se não tivesse valor algum.
Meu pai faleceu, Minha mãe adoeceu logo depois. E quem ficou responsável por cuidar dela? Eu, Claro que fui eu. Nenhum dos meus irmãos quis assumir essa responsabilidade. Para eles, cuidar da nossa mãe era um fardo pesado demais. Sobrou para mim, larguei meu trabalho, minha pouca independência, para estar ao lado dela. Passei noites em claro, cuidei de cada detalhe, vi sua saúde se deteriorar diante dos meus olhos. No leito de morte, ela me pediu perdão. Disse que se arrependeu de tudo o que me fez passar. E eu a perdoei, mas dentro de mim, ainda carrego as cicatrizes do passado. Ainda dói. Ainda sangra.
Se minha vida tivesse sido diferente, meu filho estaria aqui comigo, Mas não estava. E essa era a maior dor que eu carregava no peito.
Fiquei sozinha, tão sozinha. Até que, um dia, em uma conversa com meus primos, João mencionou que havia se mudado para o Rio de Janeiro. Ele morava no Vidigal. E, sem pensar muito, me convidou para passar uns dias com ele, quando ouvi aquele nome, senti meu coração disparar. Vidigal, O morro de Leonardo, Meu eterno amor.
Os anos tinham se passado, e eu não sabia o que esperar. Será que ele ainda se lembrava de mim? Será que continuava o mesmo? Ou o tempo o havia transformado tanto quanto transformou a mim?
Decidi aceitar o convite. Talvez fosse um recomeço, Talvez fosse uma armadilha do destino. Mas eu precisava descobrir.