Júlia narrando
Cheguei em casa com o coração leve e uma pontinha de ansiedade boa queimando no peito. Encontrei Camila sentada no sofá, mexendo no celular, e fui logo contando como tinha sido.
Camila: E aí, como foi? - ela perguntou, curiosa.
Júlia: Eu começo hoje! - respondi, sem conseguir segurar o sorriso.
Ela levantou num pulo e me abraçou apertado.
Camila: Ai, que felicidade, parabéns Júlia, eu te falei que você ia conseguir.
Respirei fundo e fui pra cozinha, tentando manter a calma. A fome apertava, mas eu precisava me controlar. Não dava pra ficar naquela de comer tudo por ansiedade.
Preparei uma xícara de café com leite e dois pães com ovo mexido. Comi devagar, saboreando cada mordida. Depois, lavei a louça que sujei e aproveitei pra organizar um pouco a casa.
Comecei pelo quarto das meninas. Arrumei as camas, dobrei as roupas que estavam fora do lugar e varri o chão com cuidado. Depois passei pano, deixando tudo cheiroso. Segui pro banheiro, que estava precisando de uma atenção. Lavei bem, esfreguei o chão, as paredes, o vaso, tudo. Gosto de sentir o ambiente limpo, é como se a limpeza por fora ajudasse a colocar ordem por dentro.
Tomei um banho demorado, deixando a água quente cair nas costas como se lavasse também as inseguranças. Quando saí, me vesti com calma: uma calça de alfaiataria preta, um tênis branco limpinho e uma blusa leve azul clara. Prendi o cabelo para trás, num r@bo de cavalo simples, e finalizei com um perfume suave.
Estava calçando o outro pé do tênis quando ouvi uma buzina na frente de casa. Olhei para Camila, que já espiava pela janela.
Camila: É um carrão, hein - ela comentou, rindo.
Júlia: Deve ser ele - respondi, tentando disfarçar o nervosismo.
Me despedi com um beijo no rosto dela.
Camila: Se cuida, Jú. Qualquer coisa, me manda mensagem.
Júlia: Pode deixar.
Saí e logo vi o carro preto parado em frente ao portão. Grande, bonito, brilhando. Leonardo estava ao volante. Quando abri a porta de trás, ele abaixou o vidro e me chamou:
Mestre: Pode vir na frente.
Fiquei um pouco sem graça, mas dei a volta e entrei. Ele me olhou rápido, depois voltou os olhos pra frente.
De onde você veio?
Mestre: Rio Grande do Sul.
Ele assentiu, sem dizer nada. O silêncio entre nós parecia ter peso. Meu coração acelerou, Tentei me distrair olhando pela janela, mas sentia o olhar dele me analisando de canto de olho.
Mestre: Faz muito tempo que tá aqui? - ele perguntou, depois de alguns minutos.
Júlia: Não, cheguei faz dias só. Tô me adaptando ainda.
Ele apenas assentiu de novo. O silêncio voltou, mas não era desconfortável. Era tenso, cheio de alguma coisa que eu não sabia nomear. Eu queria entender o que ele pensava, mas ao mesmo tempo, tinha medo do que encontraria ali.
Respirei fundo e me mantive quieta. Não queria falar demais, Só queria fazer o meu, mais ao mesmo tempo eu queria que ele lembrasse de mim, do que vivemos.
Chegamos em frente à escola. Ele parou o carro, olhou pra frente e falou, com a voz firme, do jeito dele.
Mestre: Desce lá e fala que veio buscar a Melissa Brandão.
Assenti com a cabeça, sem dizer nada. Desci do carro e fui até o portão, O porteiro me olhou com desconfiança.
Júlia: Vim buscar a Melissa Brandão - falei, tentando manter o tom neutro.
Ele só fez um sinal com a cabeça e entrou. Poucos minutos depois, uma menininha linda surgiu correndo pelo corredor, os cachinhos balançando e um sorrisinho tímido no rosto. Atrás dela, vinha a professora, com a mochila rosa nas costas e a lancheira na mão.
Leonardo desceu do carro e veio até o meu lado. Parou ali, do meu lado esquerdo, e ficou observando a filha com aquele olhar que a gente só vê em pai que ama de verdade.
Mestre: Filha, essa é a Ana. Ela vai ajudar o papai e a vovó a cuidar de você.
Ele não me chamou de Júlia, ou Ana Júlia. A menina sorriu pra mim, sem nenhuma desconfiança, só pureza.
Júlia: Oi, linda. Como é seu nome? - perguntei, me abaixando pra ficar da altura dela.
Melissa: Melissa - respondeu, com a voz doce.
Júlia: Que nome bonito, Melissa. A gente vai se dar muito bem, viu?
Ela assentiu, ainda sorrindo. Estiquei a mão pra pegar a mochila e a lancheira que a professora carregava, mas percebi o olhar dela em cima de mim. Aquela cara de deboche, de julgamento, como se estivesse me medindo da cabeça aos pés.
Peguei as coisas da menina sem dar moral. Já estou acostumada com esses olhares tortos, com ar de riso, como se a minha forma física falasse mais sobre mim, do que meu caráter.
Júlia: Obrigada - falei, olhando diretamente nos olhos dela, só pra mostrar que não sou do tipo que abaixa a cabeça.
A professora respondeu com um aceno forçado, Leonardo pegou a mão da filha e a conduziu até o carro.
Mestre: Vamos, princesa, papai vai te deixar na casa da vovó com a Ana - ele disse, e Melissa deu pulinhos de alegria.
Fui atrás deles, observando os dois. Era bonito de ver, mesmo com todo o peso que ele carrega nas costas, ele muda quando está com a filha. Se torna mais leve, parece até mais humano.
No carro, ela se sentou na cadeirinha, toda animada, me contando que hoje teve aula de pintura e que ganhou um adesivo por bom comportamento. Fiquei ali, ouvindo, entrando aos poucos naquele universo dela. E quando olhei pelo retrovisor, vi Leonardo me observando de canto, sem dizer nada. Mas o olhar dele dizia tudo: ele estava me testando. E eu estava pronta pra mostrar que não ia decepcionar.
Melissa segurou minha mão no caminho de volta. Apertou de leve, como se dissesse que confiava em mim. Eu sorri. E pensei como será que estaria o nosso filho, se tivesse nascido, Será que ele parecia com o pai. No meu coração eu falei para mim mesma, vou cuidar dessa pequena como se fosse a minha filha.