Oito

1023 Words
Mestre narrando O despertador tocou e já levantei no pique, Nem pensei duas vezes, fui direto pro banheiro. Joguei água fria no rosto pra despertar, depois mandei aquele banho gelado, que é pra acordar de vez. Já saí enrolando a toalha na cintura, me vesti e fui pro quarto da minha princesa. Mestre: Acorda, minha preta, já tá na hora – falei baixinho, dando um beijo na bochecha dela. Melissa abriu o olho devagar, ainda toda preguiçosa. Peguei ela no colo e levei pro banheiro, Dei banho nela com todo cuidado, igual sempre faço. Na hora de pentear o cabelo, já sabe, é luta. Eu passo o pente, deixo certinho, mas amarrar igual Keila faz ou minha mãe? Esquece. Não sai nada que preste. Mestre: Tá linda, minha filha - falei, ajeitando a blusa dela. Descemos e fui direto pra padaria com ela. Peguei a mochila, a lancheira, ajeitei tudo. Sentamos pra tomar café ali mesmo. Pão na chapa pra mim, leite com achocolatado e pãozinho doce pra ela. Depois que comemos, comprei um salgado, uma caixinha de suco, coloquei na lancheira dela e seguimos pra escola. Quando cheguei no portão, já vi a cena vindo. Tatiana, Toda montada, com aquele vestidinho justo que parece que foi costurado no corpo. Veio com aquele sorrisinho de quem quer alguma coisa. Tatiana: Bom dia, meu amor – disse, beijando a cabeça da Melissa e olhando direto pra mim. Essa piranh@ não se toca, Já falei que eu pego sem apego, mas parece que a vagabundal@ não entende o que é isso. Fico na minha por causa da minha filha, mas vontade de cortar as asas dela eu tenho. Deixei Melissa com a professora e saí. Assim que dobrei a esquina, acendi meu cigarro. Dei aquela tragada fundo e fiquei olhando o movimento. O morro tava calmo, só os moleque nas funções. Subi direto pra boca, tava curioso pra saber se a prima do TH topou o trampo. A mina é formada, aceita ser babá é porque a necessidade tá batendo forte. Quando entrei no beco, já vi uma gordinha sentada numa cadeira perto da entrada. Só podia ser ela. Gordinha, mas é bonita. Rosto suave, cabelo cacheado, vestida simples, mas ajeitadinha. Fiz o toque com os moleque e chamei ela. Mestre: Pode vir comigo. Ela levantou na hora, meio sem jeito, mas com postura. Fomos entrando e já falei. Mestre: Seguinte, vou ser direto. Aqui é trampo, a rotina é doida. Se tu for firmeza, vai ser bem tratada. Mas não gosto de reclamação nem de corpo mole. Júlia: Pode deixar. Eu tô aqui pra trabalhar. Gostei da resposta. Voz firme, sem tremedeira. Bora ver se a gordinha é rocheda mesmo. Se for, Melissa vai tá em boas mãos. E eu também. Quando eu perguntei o nome dela, confesso que foi no automático. Só por educação mesmo, tá ligado? Mas quando ela respondeu. Júlia: Ana Júlia. Meu coração deu um pulo tão forte que parecia que ia sair pela boca. Martelou, Na moral, eu nem sou desses de ficar sentimental, mas ouvir esse nome, Mano, era o nome da única mina que eu amei na vida. Minha Júlia. Aquela que me deixou com 17 anos, foi embora e nunca mais deu as cara. Nunca mais esqueci. Mas disfarcei, Segui firme no olhar. Não deixei transparecer nada. Porque comigo é assim, se tem uma coisa que eu aprendi na vida é que sentimento demais enfraquece, E eu não posso ser fraco. Nunca fui. Fiquei encarando ela, e os olhos grandes daquela mulher na minha frente, Porr@, me lembravam demais da minha Júlinha, Era uma coincidência insana, dessas que a vida gosta de jogar na cara da gente pra ver se a gente se perde. Ela falava de um jeito firme, sem fazer média, direta. Trocamos ideia por uns bons minutos, eu falando e ela só absorvendo tudo com atenção. Eu gosto disso, quando a pessoa escuta de verdade, sem ficar interrompendo. No final da conversa, já fui logo dizendo. Mestre: Então faz assim, Vai pra casa. Às onze passo lá pra te buscar, sei onde fica a casa do irmão do Th, a gente vai junto na escola pegar ela, já pra começar esse período de adaptação. Ela assentiu, tranquila. Mas antes dela sair, eu deixei meu aviso. Sempre deixo. Mestre: Tu vai cuidar da pessoa mais importante da minha vida, Então não vacila que eu não sou de brincadeira. Ela não falou nada e não esboçou nenhuma reação, de medo e nem de nervosismo. Gostei de ver. Quando ela passou pela porta, eu soltei a respiração que tava presa desde que ela disse o nome dela. Que loucura. Parecia que eu tinha voltado 20 anos no tempo. Eu, com 17, apaixonado, best@, escrevendo carta de amor e fazendo planos de ficar com a Júlia pra viver de amor. Quanta ilusão. Mas aquela mulher ali, Sei lá. Me chamou atenção de um jeito diferente. Gostei da forma que ela fala, do jeito seguro, da calma. A mina é gente boa, o TH já tinha falado isso, que ela era firmeza, mas eu não boto fé em qualquer um não, Preciso sentir. E nela eu senti algo. Será que eu tô ficando maluco? Só pode. Mas ela me lembrou demais a minha Julinha. E não era só o nome, era o olhar, o jeito de ficar séria, e até o sorriso sem graça quando eu jogava alguma indireta. Não sei explicar. Parecia que eu tava olhando pra uma versão mais velha da minha Júlia, mais madura, mais vivida. Mestre: Era só o que me faltava agora - murmurei pra mim mesmo Mestre: Ter fetiche por esse nome. Fui até a janela, acendi um cigarro e fiquei olhando pro alto do morro, O céu tava nublado, daquele jeito que parece que vai chover mas não chove. Talvez seja só o nome mexendo comigo, Talvez. Mas se for mais do que isso, aí o bagulho complica. Porque eu não tenho espaço pra sentimento aqui dentro mais não. Já dei tudo que tinha naquela época. Hoje em dia, quem ama, perde. E eu não tô disposto a perder mais nada.
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