Sete

1270 Words
Júlia narrando Acordei ansiosa, O coração acelerado, a mente a mil. Me levantei junto com as meninas, que estudam pela manhã. Como sempre, deixei que elas fizessem a rotina delas primeiro. Tem um banheiro só pra todo mundo e, se eu me meto no meio, é briga na certa. Enquanto Camila arrumava as duas, aproveitei o momento e fui pro banho. A água quente caiu sobre meu corpo como um abraço que eu mesma me dei. Passei aquele hidratante de ameixa que eu adoro, docinho na medida certa, do tipo que dá vontade de morder. Me vesti ainda no banheiro, gosto de sair de lá pronta, evitando tumulto. Calcei meu tênis branco, penteei os cabelos com calma. Estão mais curtos agora, na altura dos ombros, e deixei solto mesmo, natural. Um pouco de perfume nos pulsos e no pescoço, e eu estava pronta. Por fora, pelo menos. Por dentro, era outra história. Camila me olhou enquanto terminava de colocar a lancheira na mochila de uma das meninas. Camila: Vai tomar café? - perguntou. Júlia: Não - respondi sem pensar duas vezes. Ela percebeu, dava pra ver o nervoso estampado na minha cara. Camila: Calma, Júlia - disse, se aproximando. Camila: No fundo, é só mais uma entrevista, Finge que ele é o dono de uma escola, ou um patrão qualquer. Talvez até algo que você já tenha enfrentado, não fica pensando que vai encontrar o Chefe do tráfico, isso pode te deixar mais nervosa. Dei um sorriso sem graça. Era bonitinho o esforço dela pra me tranquilizar, Falou com um tom tão compreensivo, com uma leveza que quase me fez acreditar. Mas o que ela nem sonha é que o meu maior nervosismo não é porque vou estar na frente do Dono do Morro. É porque vou estar cara a cara com o dono do meu coração. Ele, O homem que eu tentei esquecer e falhei. Que se tornou um nome proibido dentro de mim, mas ainda pulsa toda vez que o ouço. Não sei como vai ser ver ele de novo depois de tanto tempo. Depois de tudo. Camila: Respira fundo, Vai dar tudo certo. Júlia: Tomara - respondi baixo, mais pra mim do que pra ela. Thiago Chegou, já gritando, se o João estivesse aqui ia brigar com ele, é engraçado é o jeito dele. Tava com o boné para trás, com a arma na cintura, e sem camisa e olha que isso era apenas sete horas da manhã. Thiago: Bora, que o tio vai levar vocês de carro hoje - Ele falou e as meninas pularam de alegria. Thiago: Bora, Júlia, a gente deixa elas na escola e depois sobe pra boca, o chefe já deve tá chegando por lá. Ajudei as meninas a descer do carro, dei beijo nas duas e desejei uma boa aula. Quando a porta fechou atrás delas, respirei fundo, tentando manter o controle. Subimos o morro de carro até onde foi possível, A rua ia ficando cada vez mais estreita e inclinada, cheia de buracos e ladeiras m@l calçadas. Quando chegou num ponto que não dava mais, Thiago desligou o motor e olhou pra mim. Thiago: Agora a gente vai ter que ir a pé, Mas é só subir aí nessa rampa, no final do beco é o barraco que funciona a boca. Assenti com a cabeça, tentando controlar a ansiedade. Thiago foi andando na frente, e eu atrás. Ele olhava o tempo todo pra trás e pros lados, com aquele olhar desconfiado que só quem é dali conhece. O beco era estreito, com paredes de reboco descascado e restos de lixo acumulado nos cantos. Quando chegamos no final, vimos o barraco. Um lugar velho, acabado, com tijolos expostos e telhado de zinco torto. Na frente, três homens fumavam jogados em cadeiras de plástico, como se o tempo ali corresse diferente. Thiago: O chefe tá aí? - meu primo perguntou. Homem: Ainda não chegou - respondeu um deles, sem nem tirar o cigarro da boca. Homem: Acho que ele foi deixar a filha na escola - disse o outro, com um sorriso torto. Thiago soltou um suspiro pesado. Tinha esquecido desse detalhe. A menina estudava, e não era em qualquer escola, era numa particular, diferente das filhas do João. O tempo passou devagar. Uns trinta minutos, mais ou menos. Meu corpo estava tenso, as pernas não paravam de tremer, as mãos suando o tempo todo. Sentei numa cadeira de plástico, bem no canto, com os olhos fechados, tentando manter a calma. A cabeça baixa, as pernas balançando. Eu sabia que demonstrar nervosismo ali era perigoso. Ansiedade podia ser confundida com fraqueza. A fome começou a bater, mas eu ignorei, Foquei em controlar a respiração. Foi quando ouvi o barulho da moto. Levantei a cabeça e vi um homem forte se aproximando. A moto alta, imponente, Thiago falou baixo. Thiago: O chefe tá chegando. Meu Deus, era o Leonardo. Ele estava diferente, claro. Mais velho, mais forte, Mas o rosto era o mesmo. E eu reconheceria aquele olhar em qualquer lugar. Ele passou por mim, mas desviou o olhar. Não me reconheceu, Cumprimentou os meninos de um jeito frio e respeitado. Thiago se aproximou dele. Thiago: Mestre, essa é a minha prima que eu falei pro senhor, Ela veio aí pra vocês conversarem. Leonardo virou o rosto devagar. Me encarou por um instante, os olhos frios, não tem mais aquela vida e nem a emoção do garoto que conheci. Mestre: Pode vir comigo. Me levantei da cadeira, dei dois passos. Foi quando ele olhou pro Thiago e disse. Mestre: É só eu e ela. Thiago não questionou, Eu também não. Apenas segui aquele homem que, um dia, foi tudo pra mim, e agora, nem me reconhecia. Assim que entramos na sala, ele fechou a porta com firmeza e apontou pra uma cadeira. Mestre: Senta aí. Me sentei, Ele deu a volta na mesa e se acomodou na cadeira dele. Me encarou nos olhos por um instante. Por um segundo, achei que tinha reconhecido algo em mim. Tive esperanças. Mas ele não deu nenhum sinal. Mestre: Como é teu nome? Júlia: Ana Júlia. Ele me olhou de um jeito diferente, como se lembrasse de alguma coisa. Meu coração acelerou, mas continuei firme. Mestre: Já trabalhou com criança antes? Júlia: Sim, não como babá, mas como professora de alfabetização infantil. Mestre: Sabe cozinhar o básico? Júlia: Sim. Sei fazer comida leve pra criança. Mestre: Tem paciência? Porque minha filha é elétrica. Júlia: Tenho Bastante. Mestre: Tem problema em acordar cedo ou virar um plantão se precisar? Júlia: Nenhum, Tô disponível pro que for. Mestre: Algum envolvimento com homem de algum movimento? Júlia: Não. Falei segura, olhando direto nos olhos dele, Leonardo me analisava como se tentasse ver além das minhas palavras. E pareceu gostar do que ouviu, porque assentiu devagar com a cabeça. Mestre: Tá, vai fazer um teste,Pode começar hoje? Júlia: Posso sim. Mestre: Então faz assim, Vai pra casa. Às onze passo lá pra te buscar, sei onde fica a casa do irmão do Th, a gente vai junto na escola pegar ela, já pra começar esse período de adaptação. Júlia: Combinado. Ele se levantou e estendeu a mão. Apertei a dele. Na hora, meu corpo inteiro se arrepiou, O toque quente, firme como eu lembrava. Mestre: Tu vai cuidar da pessoa mais importante da minha vida, Então não vacila que eu não sou de brincadeira. Apenas assenti, Saímos da Sala, qaud o entrei no Carro respirei fundo, por dentro eu estava m@l, destruída, foi mais difícil do que eu pensei, eu queria chorar, queria comer, comer sem parar. Eu não vou conseguir.
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