Comandante Clóvis Dalton - 1991
A chuva caía pesada sobre a floresta tropical. Daquelas que só acontecem no meio do cu do mundo, como eu mesmo costumava pensar. Para mim, aquele lugar era um inferno de estufa molhada um calor dos infernos, uma umidade que penetrava os ossos e uma praga de mosquitos assassinos que poderiam matar um desavisado que não tomasse suas vacinas. E, no meu caso, eu não tinha tomado nenhuma. Cada gota de chuva parecia golpear as folhas largas das árvores com uma fúria quase pessoal, transformando o chão lamacento num verdadeiro pântano. E o pior: no meio daquela tempestade, os mosquitos ainda insistiam em morder, e o calor continuava insuportável. Coisas que só quem conhece a floresta amazônica pode explicar.
O mundo explodia no Iraque. Uma guerra sem sentido, movida a uma briga i****a por poder — como sempre, dois homens poderosos de birra, brincando de W.A.R com vidas reais. Uma guerra que ceifava vidas, famílias, cidades, tudo por causa de um pouco de poder, petróleo ou democracia. Fica ao seu critério, leitor — não me culpe, sou apenas um narrador.
Naquele posto avançado perdido na imensidão verde, eu não ouvia os canhões distantes. Ouvia apenas o ronco do motor do jipe e a canção sobre uma mulher de quadris largos que Hendrick cantava enquanto matava outro mosquito na própria nuca.
Ri de mim mesmo. Eu comandava mais de cinquenta homens. Cinquenta almas sob minha responsabilidade, minhas ordens, meu comando. Mas, como todo bom soldado — e eu me orgulhava de sê-lo — tarefa dada, tarefa cumprida. Não importava o quão absurda, m*l explicada ou perigosa fosse a missão. O Pentágono me mandara para aquele lugar perdido por Deus, e já fazia mais de duas horas que eu imaginava o porquê de estar ali.
Quando desci do jipe, senti o impacto imediato. O ar era viscoso, úmido — como se a própria atmosfera se recusasse a deixar qualquer ser vivo respirar com dignidade. Apertei o passo, pulando poças d'água até chegar a um abrigo. Olhei ao redor. O lugar era grande e bem equipado, definitivamente fora do comum para um local perdido no meio do nada além de árvores.
Hendrick falou sério:
— É agora que a anaconda aparece e devora a gente?
— Acho que sim — respondi. — Mas assim que ela aparecer, eu atiro na sua bund,a e deixo você para trás.
Ele resmungou indignado, e eu ri. A porta atrás de nós se abriu. Três soldados e dois homens de roupa branca, com o símbolo do Projeto Quimera.
— Bom dia, Comandante Dalton. Seja bem-vindo à nossa base secreta.
Hendrick riu:
— Base secreta? Vocês são o quê? A Liga da Justiça?
O homem de jaleco respondeu sem ânimo:
— Quase isso. Vamos, Comandante Dalton. — Ele apontou para Hendrick. — Você não é autorizado.
Hendrick fez um bico. Olhei para ele como quem diz: "Fica aí e cuidado para não virar comida de cobra."
Aquele lugar não era uma base qualquer. Assim que transpassei os primeiros portões de acesso, percebi: era mais vigiado que o próprio Pentágono. Câmeras em cada ângulo. Sensores térmicos embutidos nas paredes de concreto armado. Guardas nos postos que empunhavam fuzis como se esperassem um ataque a qualquer segundo. Até os cães farejadores pareciam mais nervosos que o normal.
Corredores brancos. Iluminação artificial e fria. O som dos meus próprios passos ecoava nas paredes de aço enquanto eu seguia os homens. No interior, o cenário mudava: homens e mulheres de jalecos brancos andavam de um lado para o outro, carregando pranchetas, tablets, pastas com classificações tão altas que eu nem conseguira ler os selos. Cientistas. Pesquisadores. Gente que vivia embaixo da terra, em laboratórios climatizados.
Nenhum deles olhou para mim. Estavam ocupados demais com suas próprias obsessões.
Foi então que o Tenente-Coronel Jack Donovan apareceu. O tipo de homem que parecia ter saído de um cartaz de recrutamento dos anos quarenta: queixo quadrado, olhos azuis-gelo, cabelo grisalho aparado rente à nuca. Aperto de mão firme demais, sorriso comercial demais.
— Seja bem-vindo, velho amigo.
— Donovan, seu desgraçado — disse eu, apertando sua mão. — Precisava me trazer aqui se queria me ver? Era só bater na minha porta com meia dúzia de cervejas que eu lhe daria atenção.
— Você só quer motivos para beber de graça.
— Exatamente. O problema é que você nunca me paga.
Nós rimos como velhos amigos que éramos.
— Tenho uma surpresa para você — disse ele. — Um presente melhor que cerveja. Venha comigo.
Caminhamos lado a lado pelos corredores labirínticos. Ele explicou, em tom baixo e controlado, que aquele projeto era extremamente secreto. Tão secreto que nem a cúpula do Pentágono sabia de todos os detalhes. Uma decisão de um pequeno comitê, pessoas cujos nomes eu jamais ouviria, cujos rostos jamais veria.
— Mexi alguns pauzinhos, velho amigo — disse Donovan, parando em frente a uma porta de aço maciço com três fechaduras eletrônicas. — Para que você conhecesse a mais nova arma do mundo.
Ele apertou um botão. A porta se abriu.
A cela era pequena. Dois metros por dois metros, no máximo. Paredes de vidro blindado — grosso o suficiente para parar um tiro de fuzil — que permitiam visão total do interior. Dentro, uma privada de aço inoxidável. Um chuveiro igualmente funcional. Nada mais.
E no fundo, encostado à parede oposta, havia um homem.
Ou melhor: uma figura humana.
Era um rapaz — eu percebi pela juventude da pele exposta. Não aparentava mais que quinze anos. Mas seu corpo era colossal. Dois metros e vinte, no mínimo. Braços longos, pernas longas, ombros largos como uma porta dupla. Tudo coberto por um macacão cinza de tecido grosso com o símbolo do Projeto Quimera no peito. Correntes grossas prendiam seus pulsos às paredes, cada elo com a espessura de um dedo mindinho.
Senti um arrepio percorrer minha espinha. Medo. Horror. E até pena.
— Isso é... — comecei, sem terminar.
Donovan sorriu.
— Comandante, este é o Q539. — Sua voz era fria, quase entediada, como se apresentasse um novo tanque. — Apelidado carinhosamente pelos cientistas de "Hidra". Ele é seu.
Arregalei os olhos e me virei bruscamente.
— Como assim? — minha voz saiu mais áspera do que eu queria. — Ele é um ser humano. Uma pessoa. Não posso ganhar uma pessoa.
— Não. — Donovan me interrompeu com um gesto. — Isso é uma máquina, Comandante. Uma máquina de matar, especificamente. Seu DNA foi modificado pelo Projeto Quimera. Ele surgiu como um super-homem. Não metaforicamente. Literalmente. É maior, melhor, não fica doente, sua pele regenera mais rápido. Uma obra de arte feita para matar.
Ele começou a andar ao redor da cela, as mãos nos bolsos.
— O senhor está vendo aqui o próprio Capitão América. Só que real. Vivo. Funcionando. Não tem pais. Não tem família. Não foi gerado de maneira convencional. Essas criaturas foram feitas para serem o que são. Máquinas de matar. Pelo país. Pela nação. Pelo mundo.
Minha língua colou no céu da boca. Olhei de volta para o rapaz. Ele continuava imóvel. As algemas brilhavam sob a luz fria.
Dentro do meu peito, algo se revirava como um animal acuado.
Antes que eu pudesse falar, uma campainha estridente tocou — três bipes agudos, secos. O sinal para os testes.
Dentro da cela, o rapaz se levantou. O movimento foi fluido, econômico, silencioso. Como uma pantera. Os vidros baixaram, e a cela se transformou numa sala de treinamento gigantesca.
Vários guardas armados entraram. Contei: cinco, seis, sete. Todos com fuzis, coletes, capacetes. Posicionaram-se em formação.
As algemas caíram com um clique seco.
A porta de vidro deslizou.
E o Q539 se moveu.
Menos de um minuto depois, todos os guardas estavam no chão.
Eu nem consegui acompanhar os movimentos com os olhos. Foi um passe de mágica brutal. O gigante se deslocou com uma velocidade que desafiava a fisiologia humana. Girou canos, atingiu plexos solares, varreu pernas. O último homem tentou recuar, mas o Q539 já estava atrás dele. Um golpe seco na nuca. Precisão cirúrgica.
Os corpos caíram em segundos. Gemidos. Capacetes rolando. Mas nenhum morto. Todos respiravam. Feridos para incapacitar, não para matar.
Meu coração batia acelerado.
Outros obstáculos apareceram. Alvos móveis. O Q539 correu, desviou de balas de festim, moveu-se em ângulos impossíveis. As balas passavam a centímetros de sua pele. Ele nem piscava.
Depois, montou armas. Peças desmontadas, espalhadas numa superfície. Em menos de dez segundos, juntou tudo. Disparou. Cada tiro no centro de cada alvo. Olhos, testa, coração. Padrão perfeito. Seis alvos. Seis tiros. Menos de dois segundos.
Então parou. Ficou em posição de sentido. Pés unidos, costas retas, mãos ao lado do corpo, queixo erguido. Olhar fixo no vazio.
Prendi a respiração.
Donovan sorriu amplamente — o sorriso de um pai orgulhoso.
— Perfeito — disse ele, batendo palmas. — Uma arma perfeita, Comandante.
Demorei alguns segundos para processar.
— Ele não é perigoso demais? — perguntei, a voz grave. — Você tem certeza de que não vai se voltar contra mim? Contra meus homens? Esse tipo de arma tem o hábito de se voltar contra o criador.
Donovan riu.
— A noção de patriotismo do Q539 é maior que a minha e a sua juntas. Cada fibra dele acredita que servir a este país é seu único propósito. Porque foi assim que o construímos. Não há traição. Não há dúvida. Não há questionamento.
Suei frio sob o uniforme. Forcei-me a não limpar a testa. Mas, por dentro, tremia.
— Aceito a missão — disse, finalmente.
Uma hora depois, eu saía da base.
Hendrick olhou para meu novo companheiro e tomou um susto.
— Amigo... O que colocaram na sua comida? Você é enorme!
Falei sério:
— Cala a boca, Hendrick.
Ele riu:
— Esse cara coloca o Hulk no chinelo. Só não é verde. Fala aí, cara: HULK ESMAGA!
Dei um tapa nas costas dele.
— Já disse pra calar a boca.
A chuva ainda caía. Menos violenta, mas ainda persistente. O carro cortava o ar pesado da floresta. Sentei-me no banco de metal, apertando os cintos com dedos trêmulos — de frio, de nervoso, de algo que me recusava a nomear.
Atrás de mim, sentado em absoluto silêncio, estava o Q539. Hendrick olhava para ele sem desviar o olhar.
O rapaz não dissera uma palavra desde que saímos. Não perguntou para onde íamos. Não pediu instruções. Apenas ficou ali, imóvel. Eu não sabia como falar com ele. Não sabia como lidar com aquela coisa que podia esmagar um crânio com a mesma facilidade com que se abre uma lata de ração.
O único que parecia ter algo a dizer era Hendrick, que não fechava a boca. Piadas sem graça num momento nada conveniente. Uma coisa eu tinha que admirar no Q539: ele tinha muita paciência. Porque se fosse eu, já teria colocado meu subordinado para dormir sem permissão. Hendrick era mais chato que o burro do Shrek.
Hendrick perguntou:
— Qual seu nome?
Silêncio.
— Vamos, converse comigo. Seremos amigos de pelotão.
Silêncio.
— Acho que vou te dar um nome. Vou te chamar de Thor... não, Thor não, você não é loiro. Já sei: Wolverine. Você é bom com facas, aposto que sim... mas não. Batman. Aí quando perguntarem seu nome, você diz: "Eu sou o Batman." Vai ser épico.
Q539 olhou para mim.
— Comandante, permissão para apagar meu companheiro de trabalho?
— Permissão concedida.
Hendrick deu um pulo.
— Ok, me calo!
Pela primeira vez, vi Q539 esboçar um sorriso.
Nos dias seguintes, testemunhei o que a palavra "magnífico" realmente significa.
O primeiro embate veio mais cedo que o esperado. Emboscada. Fogo cerrado. Homens meus caindo na lama, gritando, sangrando. E então o Q539 se moveu. Não correu — deslizou como uma lâmina. Salvou dezenas de soldados naquela noite. Pegou três feridos e os arrastou para trás das linhas enquanto balas assobiavam ao redor de sua cabeça. Derrotou o pelotão inimigo sozinho. Com as próprias mãos, depois com as armas tomadas, depois com uma coronhada tão violenta que o crânio do último combatente se partiu como casca de ovo.
Meus homens, que no início olhavam para o gigante silencioso com medo e desconfiança, passaram a olhar com algo próximo à reverência.
Foi naquela noite, enquanto o fogo da fogueira crepitava e os soldados dormiam exaustos, que me aproximei do Q539. Ele estava sentado numa pedra, os olhos fixos nas chamas.
— Preciso te chamar de alguma coisa — disse, a voz rouca. — Q539 é número de chapa fria. Não combina com um homem que salvou meus rapazes hoje.
Ele não respondeu, mas seus olhos se moveram. Encontraram os meus. Eram escuros, fundos, antigos demais para um rosto de quinze anos.
Pensei. Lembrei-me de histórias que ouvira quando criança, antes de a guerra tirar as histórias boas de minha vida. Lembrei-me de um nome forte. Um nome guerreiro.
— Kian — disse, firmando o queixo. — Vou te chamar de Kian. Nome forte para um ser forte.
O rapaz — Kian, agora — piscou uma única vez. As chamas dançaram em suas pupilas escuras. E então, algo passou por aquele rosto. Não um sorriso. Não uma palavra. Um pequeno movimento de cabeça, quase imperceptível.
Uma concordância.
Suspirei fundo, exausto, e me afastei. Não sabia se tinha feito a coisa certa ao dar um nome àquela arma. À arma que eu amaria como a um filho.