Capitulo 1

3565 Words
Hannah - Dias atuais A chuva era torrencial. Caía em lâminas grossas e ininterruptas sobre a floresta densa, transformando o chão em um lamaçal escorregadio onde cada passo era o ensaio para o desespero. O vento forte balançava as árvores com uma violência que parecia querer arrancá-las pela raiz — os troncos gemiam, os galhos estalavam, e as copas se curvavam como se fossem vergar a qualquer momento. Os ventos cortavam os céus em uivos longos, agudos, que se misturavam ao barulho ensurdecedor da tempestade. Eu corria. Meus pés descalços afundavam na lama fria, escorregavam nas folhas molhadas, tropeçavam em raízes que teimavam em brotar do chão a cada dez passos. Mas eu não parava. Não podia parar. Meus braços estavam apertados contra o peito, protegendo o embrulho quente e úmido que eu carregava — meu bebê, minha cria, a única razão pela qual meus pulmões ainda inflavam e meu coração ainda batia. Eu o segurava com todo o amor e todo o desespero de uma mãe que corre para resgatar sua cria. Havia um segredo sobre as mães, um segredo que nenhum livro, nenhum sermão, nenhuma voz de líder jamais havia contado: nós nos transformamos em verdadeiros demônios por nossas crias. Não há medo que nos paralise. Não há dor que nos faça parar. Não há distância grande demais, nem perigo assustador demais. Uma mãe enfrenta o frio e a fome por seu filho e até mesmo o desconhecido. Meu corpo doía. A lama grudava em minha pele. O frio penetrava até meus ossos. Mas eu corria. À minha frente, o homem que até duas noites atrás eu achava um simples enfermeiro do lugar onde estava — um senhor chamado Enrico, que tinha a idade de meu pai e era bondoso comigo como minha mãe — o homem que me trazia comida e a quem eu contava sobre o lugar onde morava antes de estar naquela situação, corria também. Ele guiava o caminho entre as árvores, desviando de galhos baixos, pulando sobre troncos caídos. Eu caí de novo. O chão escorregadio me derrubou com um baque surdo, a lama respingando em meu rosto, em meus cabelos, no cobertor que envolvia o bebê. O pequeno corpo contra meu peito se mexeu, um choramingo fraco escapou. Mas eu não demorei muito para me levantar. Minhas mãos se cravaram na terra, meus braços tremeram, e eu me pus de pé como se tivesse sido arremessada por uma mola. Continuei correndo. Atrás de mim, os trovões rugiam. Mas havia outro som, mais aterrorizante, que se sobrepunha ao estrondo do céu: os cachorros. O latido feroz, próximo demais, ecoava pela floresta como um presságio. Eles estavam atrás de nós. Estavam chegando. O homem à frente olhou para trás, os olhos arregalados, o rosto banhado pela chuva e pelo suor. — Você tem que começar a correr! — gritou ele, a voz rouca e trêmula. — Mais rápido! Eles estão quase pegando a gente! Mas eu já estava correndo com tudo o que tinha. Cada fibra do meu corpo queimava. Cada respiração era um fogo no peito. O bebê começou a chorar. Um choro desesperado, agudo, que cortou a noite como uma faca. O som era frágil e poderoso ao mesmo tempo — um chamado que pedia proteção, que implorava por abrigo. Apertei-o ainda mais contra mim, tentando abafá-lo com o cobertor, mas o choro insistia, teimoso, incontrolável. E então vieram os tiros. Eu ouvi o estouro seco das armas — primeiro um, depois dois, depois uma rajada rápida que estilhaçou galhos acima de nossas cabeças. A madeira voou em lascas, a chuva entrou pelos buracos abertos nas copas. Gritei, instintivamente, e me abaixei enquanto corria. Um grito cortou o ar atrás de nós — uma voz rouca, autoritária, que parecia vir de algum lugar entre as árvores: — Parem de atirar, seus imbecis! Parem! Vocês podem atingir o bebê! Os tiros cessaram por um instante. Mas os latidos continuaram. Corremos até uma clareira. A floresta se abriu de repente, como se o mundo tivesse rasgado uma cortina verde para revelar o céu cinza e violento da tempestade. A chuva caía ainda mais forte ali, sem a proteção das copas. O vento chicoteava nossos rostos com uma fúria cega. E então — um som novo. Um som que eu nunca havia ouvido na vida. Um batido profundo, rítmico, que vibrava no ar e na terra, que parecia vir do próprio céu. Para mim, aquilo deveria ser um dragão ou algo que o Divino havia enviado para me salvar. Ele desceu da cortina de nuvens como um pássaro de metal, as hélices girando tão rápido que criavam um redemoinho de vento e água ao redor. A luz de seus faróis varreu a clareira, iluminando a mim e ao enfermeiro, iluminando a lama, iluminando o embrulho choroso em meus braços. Uma escada de corda foi lançada. Enrico me agarrou pelo braço e me puxou para a escada. Subi com o bebê contra o peito, minhas mãos escorregadias de lama e chuva, meus pés descalços se enroscando nos nós da corda. Alguém lá em cima me puxou pelos ombros — mãos fortes, masculinas — e me içou para dentro da cabine. O barulho das hélices era ensurdecedor. O vento dentro do helicóptero era frio e violento. Caí de joelhos no chão de metal, ofegante, os braços ainda protegendo o bebê. A porta se fechou com um baque seco, e o mundo exterior — os latidos, os tiros, a chuva, os homens de branco — ficou para trás, engolido pelo rugido do motor. Eu estava molhada. Encharcada da cabeça aos pés. Minhas roupas — um vestido longo simples, rasgado, sujo — grudavam em meu corpo magro como uma segunda pele fria. A lama escorria de meus cabelos e pingava no chão. Meus braços tremiam de exaustão. Meus olhos ardiam de cansaço e lágrimas que ainda não haviam secado. Enrico estava ao meu lado, também ofegante, também molhado, mas havia um alívio profundo em seu rosto. Ele murmurou algo que eu não ouvi por causa do barulho. Um homem — de uniforme escuro, rosto marcado pelo tempo e pela guerra — se aproximou. Ele se ajoelhou ao meu lado, seus olhos percorrendo meu corpo trêmulo e, por fim, pousando no embrulho em meus braços. Sem dizer uma palavra, ele pegou um cobertor macio e o colocou sobre mim e sobre o bebê. O tecido era quente, seco, envolvendo-nos como um casulo. Senti o calor penetrar minha pele gelada. Meus dentes pararam de bater. Por debaixo do cobertor, com a discrição de quem já aprendeu a se esconder em espaços pequenos, coloquei o seio na boca do bebê. Ele se agarrou instintivamente, faminto, e o choro cessou. Seus olhinhos se fecharam, seus lábios se moveram ritmicamente, e o sono o levou. Olhei para meu filho. Vi-o dormir. Vi os cílios úmidos, a pele rosada, os dedinhos minúsculos cerrados em punhos. E então, lentamente, exausta além de qualquer palavra, fechei os olhos também. E sonhei. Sonhei com um ano atrás. Eu era uma menina de vinte anos. Não sabia que existia um mundo fora daquele — o mundo do Dawn of Freedom Ranch Divine. A comunidade religiosa e esotérica erguia-se em uma clareira imensa, cercada por uma floresta que eu pensava ser infinita. Ali, o tempo havia parado. As pessoas viviam como seus bisavós haviam vivido, sem eletricidade, sem máquinas, sem qualquer contato com o que chamavam de "o mundo exterior". O líder era o Mestre Zohar, um homem de olhos penetrantes e voz que parecia vir de dentro de uma caverna. Ele governava com palavras doces e punições severas, e todos obedeciam. Eu era a segunda filha de Caleb Church, um dos líderes da seita. Meu pai era um homem severo, de mãos calejadas e olhar que não admitia questionamentos. Minha mãe, Miza, era uma sombra que se movia pela casa em silêncio, cumprindo ordens. Meus irmãos menores corriam pelo quintal, ajudavam nas tarefas, aprendiam a rezar. Minha irmã mais velha era Anne. Anne era minha melhor amiga. Anne era tudo para mim. Desde que eu me lembrava, Anne estivera ao meu lado — ensinando-me a ordenhar vacas, a costurar, a rezar. Consolando-me quando meu pai gritava. Rindo comigo quando ninguém estava olhando. Anne era o sol em um céu sempre nublado. Anne estava prestes a se casar com David Campbell, filho de Robert Campbell, um dos homens mais próximos do Mestre. Anne amava David — eu via isso em cada olhar, em cada sorriso que escapava quando o nome dele era mencionado. Anne não via a hora de se casar, de ter seu lar, seus filhos, sua própria vida dentro da comunidade. Enquanto eu queria voar como um pássaro e viver feliz sem grandes feitos. Eu era devotada à comunidade. Não conhecia outra vida. Acordava às quatro da manhã. Ia tirar leite das vacas, cuidar das galinhas, recolher os ovos. Quando meu pai acordava para ir trabalhar com os irmãos e os outros homens, o café já estava servido — quente, forte, preparado por mãos femininas que não conheciam descanso. Depois, eu, Anne e minha mãe lavávamos roupas no riacho, batíamos manteiga, fazíamos queijos, ou qualquer outra coisa que a vida no campo precisasse para sobrevivência. Nossas mãos estavam sempre vermelhas, rachadas, doloridas. Mas era a vida que conhecíamos. À noite, todas as noites, íamos para as reuniões. A grande cabana de madeira onde o Mestre Zohar pregava estava sempre lotada. Velas dançavam, lançando sombras nas paredes. As vozes cantavam hinos em uníssono, e depois o silêncio caía, e o Mestre falava. Numa dessas noites, ele disse que a mulher tem que ser submissa e respeitar o marido, o pai e os líderes da comunidade. Que esse é o desígnio divino. Que sem submissão, não há salvação. Eu ouvia, cabisbaixa, como sempre. Mas naquela noite, o Mestre Zohar falou de algo novo. Algo que fez meu coração acelerar — não de esperança, mas de um pressentimento escuro. Ele disse que em breve, uma das meninas com idade de casar iria ter um chamado do divino. Que carregaria um bem precioso. Que seria noiva pelo bem maior, pelo bem da comunidade, e viveria em graça até o fim da vida. Os olhos do Mestre percorreram a plateia. As mulheres mais velhas sussurravam. As moças solteiras seguravam a respiração. O Mestre se debateu no púlpito, os braços abertos, a voz subindo em fervor. Ele gritou que o ser divino já tinha sua escolhida. Que o momento havia chegado. Que o sinal havia sido dado. Então ele desceu do púlpito. Caminhou entre os fiéis, que se afastavam com reverência para abrir caminho. Passou por Anne. Passou por outras moças. E parou diante de mim. Estendeu a mão. Colocou-a sobre minha cabeça. — Você — disse ele, a voz ecoando na cabana silenciosa. — Hannah, filha de Caleb. Você será a noiva do divino. Você trará o escolhido para o mundo. Bendita és tu entre todas as mulheres. Senti o chão sumir. Lágrimas quentes escorreram pelo meu rosto. Eu não queria aquilo. Não queria deixar minha mãe. Não queria deixar Anne. Não queria deixar meus irmãos menores. Mas não havia desobediência no Dawn of Freedom Ranch Divine. Não havia "não". Não havia escolha. Passei a noite chorando, rodeada por minha mãe e minha irmã, por meus irmãos menores que não entendiam o que estava acontecendo. Meu pai, Caleb, ficou de pé na porta do quarto, o rosto duro, os olhos fixos na parede. Ele não me consolou. Não disse uma palavra. Mas, por um instante, vi algo em seus olhos — uma fagulha de dor que ele rapidamente apagou. Na manhã seguinte, o Mestre Zohar foi me buscar de carroça. A carroça parou em frente à casa de madeira de minha família. Saí com minha trouxa de roupas — poucas peças, todas simples — e meus irmãos menores se aproximaram. Eles entregaram flores colhidas no campo. Pequenas flores silvestres, azuis e amarelas, que eles mesmos haviam colhido para mim. Aceitei as flores, mas não consegui sorrir. Meus pais se despediram de mim. Minha mãe me abraçou com força, soluçando em meu ouvido. Meu pai apertou minha mão e desviou o olhar. Anne estava ao lado, os olhos vermelhos de chorar, mas não disse nada — apenas segurou minha mão por um longo momento, e eu senti a promessa silenciosa de que, de alguma forma, nos veríamos novamente. Subi na carroça. O Mestre Zohar estalou as rédeas, e os cavalos começaram a andar. Horas se passaram. A estrada era longa, empoeirada, ladeada por uma floresta que parecia não ter fim. Eu não falava nada. Não perguntava nada. Apenas chorava. As lágrimas escorriam silenciosamente pelo meu rosto, pingando em meu vestido, em minhas mãos. O Mestre não olhava para mim. Não dizia uma palavra de consolo. Apenas conduzia os cavalos com mãos firmes. Depois de algumas horas, ele parou a carroça. Do lado de uma construção gigante — algo que eu nunca vira na vida. Uma estrutura de metal e vidro, imensa, que se erguia no meio da floresta como um monólito de outro mundo. O Mestre desceu e ficou de pé ao lado da carroça. — Fique quieta, se não eu estalo o chicote em suas costas. Fiquei calada, de cabeça baixa, abraçando minha trouxa. E então apareceu algo que eu nunca havia visto. Um veículo que não era puxado por cavalos. Ele se movia sozinho, com um ronco baixo, sobre rodas de borracha. A carroça de metal — porque era isso, uma carroça de metal — parou ao lado da nossa. Uma porta se abriu, e um homem desceu. Vestido de maneira estranha, com roupas que não eram de lã nem de linho. Ele conversou com o Mestre Zohar em voz baixa. O homem entregou ao Mestre uma espécie de maleta. Abriu. Dentro, havia pilhas de papel verde cortadas do mesmo tamanho, com o rosto de um homem desenhado. O Mestre sorriu. Foi um sorriso largo, ganancioso, que transformou seu rosto em uma máscara estranha. Ele foi até mim, pegou-me pelo cotovelo — com força — e me levou até o homem. O homem me examinou. Abriu minha boca para ver meus dentes. Olhou minhas mãos, meus pés, meus olhos. Sorriu. — Não há nada podre — disse ele, em uma língua que eu m*l entendia. O homem balançou a cabeça em aprovação. Alguém veio por trás de mim. Uma mão colocou algo com cheiro forte sobre meu nariz e minha boca. Tentei gritar, mas o cheiro invadiu meus pulmões, e o mundo escureceu. Horas depois, acordei. Estava em um quarto extremamente branco. As paredes eram brancas. O teto era branco. A cama onde estava deitada era branca. Em um canto, uma estante com muitos livros. Levantei-me e fui até a porta, que estava trancada. Não havia janelas. Em outro canto, uma mesa branca e uma cadeira, um lavabo com um cano que saía do teto ao lado. Eu estava com medo. Não sabia onde estava. Não sabia o que tinha acontecido. A única coisa que tinha ali era a mesa. Sentei-me na cama, os braços enrolados em torno do próprio corpo, e comecei a chorar de novo. Não queria comer. Quando uma bandeja de comida apareceu através de uma a******a na porta, ignorei. Pedia para voltar para casa. Gritava. Batia na porta. Mas ninguém respondia. Então uma voz saiu do teto. Fria, metálica, mas com uma entonação que tentava soar suave. — Hannah. Assustei-me. Pulei para trás, os olhos arregalados. — Quem está aí? — perguntei, a voz trêmula. — É... é a divindade? A voz riu. Uma risada grave, estranha, que ecoou no quarto branco. — Sim — disse a voz. — Sou eu. Eu não acreditei. Mas estava com tanto medo, tão confusa, que não questionei. A voz disse: — Você tem que ficar calma, comer a comida e tudo o que os enfermeiros entregarem a você. Coloquei minha semente em sua barriga, então você pode estar carregando o filho do Divino. Enxuguei as lágrimas. Se era pela vontade do divino, então eu iria comer. Peguei a bandeja e comi, mesmo sem sentir gosto. Os dias passaram. Eram sempre iguais. Sempre brancos. Sempre silenciosos. Sempre solitários. A voz falava comigo de vez em quando, dando ordens. Coma. Descanse. Beba. Leia. Ande, se movimente. Um mês depois, a voz falou: — Hannah, você terá a minha criança. Senti uma alegria imensa. Uma alegria que não esperava. Uma alegria que tomou conta do meu peito e espalhou um calor estranho pelo meu corpo. Eu estava carregando o filho do divino. Eu era escolhida. Bendita. Imediatamente, pedi tecido e linha. Queria costurar roupas para o bebê. Queria me preparar. Queria fazer tudo o que uma mãe deveria fazer. Ganhei privilégios. Um quarto maior, com uma cama mais confortável. Podia caminhar em um jardim lindo, com flores que eu nunca havia visto, cores que nem sabia que existiam. Podia costurar e tricotar. Os dias se tornaram mais suportáveis. No quinto mês, quase perdi o bebê. Tive um sangramento forte. A dor foi terrível, uma contração violenta que me fez gritar. Médicos entraram correndo no quarto. Um deles era uma mulher — a doutora Trisha. Trisha salvou o bebê. Com mãos firmes e olhos concentrados, ela fez o que era necessário. Parou o sangramento. Estabilizou-me. E, quando tudo terminou, ficou ao lado da cama, segurando minha mão. As duas nos tornamos amigas. Trisha era a única pessoa que eu via. Ela cuidava de mim, trazia comida, conversava. Eu contava sobre a comunidade, sobre Anne, sobre as vacas e as galinhas. Trisha ouvia. Sorria. Não julgava. Eu amava aquele bebê divino acima de tudo. Sentia cada chute, cada movimento, cada virada dentro do meu ventre. Falava com ele todas as noites. Cantava para ele as canções que Anne cantava quando éramos pequenas. Meses depois, o bebê nasceu. Foi uma cesariana — o bebê era grande demais para o parto normal. Senti a dor, ouvi os instrumentos, mas, quando ouvi o primeiro choro, tudo se apagou. O mundo inteiro se reduziu àquele som frágil e poderoso. Nunca vi uma criança tão bonita, tão perfeita. Pele rosada. Olhos azuis — tão azuis que pareciam céu. Mãozinhas minúsculas. Um cabelo tão claro que parecia prata. Segurei-o contra o peito e chorei de alegria. Era meu pequeno milagre do divino. Meu filho. Meu tudo. Mas um mês depois do nascimento, a doutora Trisha veio até mim com o rosto grave. — Hannah — disse ela, a voz baixa e urgente. — Você e o bebê correm perigo. Em dois dias, vão vir tirar você daqui. Não acreditei. — Não — disse eu, balançando a cabeça. — Não. Isso não é possível. O divino... — Escute — interrompeu Trisha, segurando meus ombros com força. — Não posso falar muito. Em breve vão notar que a câmera está desligada. Você precisa me ouvir. Você e o bebê correm perigo. Vão vir tirar o bebê de você. Você precisa fugir. Em dois dias, alguém vai deixar as portas abertas para você correr. Eu ainda não acreditava. Meus olhos estavam fixos em Trisha, mas minha mente recusava o que ouvia. Trisha então tirou um pequeno aparelho do bolso. Apertou um botão. Uma imagem apareceu — uma imagem em movimento. Vi outra mulher, em outro quarto branco, segurando outro bebê. Vi homens entrando. Vi a mulher tentar proteger a criança. Vi o bebê sendo arrancado de seus braços. Vi a mulher caindo no chão, um buraco vermelho em sua testa. Vi os homens saindo com o bebê. Não conseguia acreditar no pequeno aparelho nem no vídeo. Meu corpo tremia. Minha boca se abriu, mas nenhum som saiu. — Que bruxaria é essa? — sussurrei, finalmente. Trisha olhou para mim com uma expressão que misturava compaixão e desespero. — Isso, eu sou uma bruxa — disse ela, a voz seca. — E, se você não fizer o que eu digo, você e seu bebê vão morrer. Vá com a pessoa que eu mandar. Confie em mim. Eu não tinha mais escolha. Trisha era a única amiga que tinha. A única pessoa que parecia se importar. Fugi. E agora estava ali, na tempestade, com frio, com meu bebê nos braços, com o coração partido e o corpo exausto. O helicóptero vibrava ao redor de mim. O barulho das hélices era o único som, além da respiração ofegante do bebê contra meu seio. Abri os olhos por um instante, arrancada do sonho pela vibração do motor. Vi o militar — o homem que me dera o cobertor — sentado à minha frente, observando-me com olhos que já haviam visto muitas guerras. Ele não falou. Apenas me observou, e depois desviou o olhar, dando-me a privacidade que minha alma cansada precisava. Fechei os olhos de novo. Senti o calor do cobertor. Senti o peso do meu filho contra meu peito. Senti o movimento do helicóptero cortando a chuva, levando-me para algum lugar desconhecido. Acordei meia hora depois — o que pareceu horas foi apenas um cochilo de vinte minutos. Aterrissamos em um lugar que eu não conhecia, cercado de luzes. A doutora Trisha me esperava lá e sorriu ao me ver. — Venha — disse ela. — Você precisa tirar essa roupa molhada e trocar seu bebê. Em duas horas, você e seu bebê vão encontrar o destino. — E onde fica isso? — perguntei. — Ao lado do pai de seu filho.
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