Kian
Eu odiava pessoas.
Essa era a verdade mais simples e mais pura sobre mim. Depois de uma vida inteira sendo tratado como ferramenta, depois de décadas seguindo ordens e matando por quem não me via como gente, eu descobri que a única paz que existia no mundo era a solidão. Nesse fim de mundo que eu chamo de lar, eu finalmente tinha o que sempre me foi negado: silêncio. Ninguém me dava ordens. Ninguém me observava. Ninguém esperava nada de mim.
Eu amava morar sozinho.
Minha única companhia era o Cão. Um Terra Nova enorme, preto como a noite, com olhos que pareciam entender tudo sem que eu precisasse dizer uma palavra. Ele apareceu há dois anos, magro e assustado, e nunca mais foi embora. Eu o alimentava com carne de alce que eu mesmo caçava, e ele dormia aos meus pés todas as noites. O melhor amigo que já tive. Ele era leal. Silencioso. Perfeito.
Eu passava meus dias cuidando da lenha para o inverno, caçando, pescando, reparando a cabana. Não tinha relógio, não tinha calendário. O tempo era medido pelo sol, pela neve, pelas estações. Era uma vida simples, dura, mas minha. Ninguém me procurava. Ninguém sabia que eu existia.
Quer dizer quase ninguém. Mas esse era o segredo, se ninguém soubesse quem eu sou ou onde estou ninguém me encheria o saco
Quando ouvi o barulho do helicóptero cortando o céu, senti meu estômago se contrair. Aquele som significava problemas. Sempre significara problemas. Eu respirei fundo e praguejei baixinho, as palavras ásperas saindo entre os dentes. Kian era extremamente m*l-humorado, e aquela intrusão no meu santuário me deixou furioso antes mesmo de saber quem era.
Peguei minha pistola, guardei no coldre, e assobiei para o Cão. Ele se levantou imediatamente, as orelhas em alerta, o corpo enorme pronto para qualquer coisa. Seguimos pela trilha, eu e ele, lado a lado. A neve rangeu sob minhas botas, e o ar gelado queimava meu rosto. A trilha era estreita, cercada por pinheiros altos que pareciam tocar o céu cinza.
Poucas pessoas sabiam que eu morava ali. O dono do armazém, que me via uma vez por mês. O dono do bar, que nunca perguntava nada. Dois vizinhos à minha direita, tão reclusos quanto eu. E Clovis Dalton, claro. O único homem que sempre soube onde me encontrar.
O helicóptero pousou na clareira. As hélices ainda giravam quando eu cheguei, o vento batendo no meu rosto e balançando os galhos ao redor. Fiquei parado, os braços cruzados, o Cão sentado ao meu lado como uma estátua de pedra.
Dalton desceu primeiro. Ele me viu e sorriu. Eu não sabia o porque dele rir tanto, Atrás dele, desceu Hendrick. Hendrick sempre foi um homem chato, com piadas ruins que só ele achava engraçadas, mas ainda era um bom soldado. Eu resmunguei um cumprimento para os dois, sem muito entusiasmo.
— Kian — disse Dalton, o sorriso ainda no rosto. — Bom te ver.
Eu grunhi. Não era bom vê-los. Eles estavam aqui para alguma coisa. E nada de bom vinha com um helicóptero.
Aproximei-me para apertar as mãos. O barulho das hélices diminuía enquanto o piloto desligava o motor.
—O que você quer? — Perguntei a Dalton sem muita paciência.
— Tenho algo muito importante para te dizer…
Hendrick riu e falou:
— Amigo, você está muito ferrado.
Eu ia responder e foi então que eu a vi.
Uma mulher desceu do helicóptero. Pequena, morena, com cabelos negros que caíam sobre os ombros. Ela segurava uma criança nos braços um bebê que choramingava baixinho. A mulher parecia exausta, os olhos vermelhos, as roupas sujas. Mas mesmo assim... mesmo assim, ela era a mulher mais linda que eu já tinha visto.
Ela era pequena. Seus olhos eram azuis, tão azuis que pareciam pedaços de céu presos num rosto cansado. Seus cabelos escuros contrastavam com sua pele pálida. Havia algo nela que me fez parar de respirar por um instante. Não entendi o que era. Não queria entender. Eu estava confuso… Tenho certeza que meu coração errou algumas batidas. Ela tinha algo, algo no cheiro dela ou o sofrimento em seus olhos… Olhos que pareciam ver minha alma
Virei-me para Dalton.
— Quem é aquela mulher?
Dalton olhou para mim, depois para ela, depois de volta para mim. Seu sorriso sumiu. Seus olhos ficaram sérios.
— Kian — disse ele, baixando a voz. — Precisamos conversar.
Ele me levou para o lado, longe dos outros, perto das árvores. O Cão ficou ao meu lado, desconfiado. Dalton respirou fundo, como quem se prepara para um golpe.
— Aquela mulher se chama Hannah — começou ele. — O bebê que ela carrega é seu filho, Kian.
Senti o mundo desabar sob meus pés.
— O quê?
— O Projeto Quimera reativou os experimentos. Eles usaram seu material genético, o DNA que guardaram de você. Os óvulos de Hannah foram usados. A criança é sua, Kian. Seu filho.
Eu não conseguia processar. Minha mente, tão treinada para analisar ameaças e planejar movimentos, ficou em branco. Meu filho? Uma criança feita do meu material genético? Que merda é essa? Uma mulher que eu nunca vi na vida, com um bebê que era meu sangue?
Eu sei que isso pode acontecer, mas como assim do nada eu havia ganho mulher e filho… Uma mulher que eu nem toquei.
O nervosismo cresceu dentro de mim como uma tempestade. Minhas mãos começaram a tremer. Eu nunca pensei em ter filhos. Nunca imaginei que fosse possível. E agora, de repente, ali estava uma mulher e uma criança que dependiam de mim.
— Que Merda é essa?— sussurrei, mais para mim mesmo do que para Dalton. A raiva borbulhou por baixo da confusão. — Que diabos eu vou fazer com uma mulher e um filho?
Dalton colocou a mão no meu ombro. O gesto era firme, paternal.
— Você vai protegê-los, Kian. É o que você faz. Proteger. Eu os tirei das garras do Quimera, mas eles podem vir atrás deles, eles vão vir. Vamos para sua cabana, conversar... Eu explico tudo.
Eu olhei para ele, depois para Hannah, depois para o bebê que choramingava em seus braços. Eles estavam ali. Reais. Vulneráveis. Meus.
Mas o martelo continuava batendo na minha cabeça - O que dia.bos eu vou fazer com uma criança?