Hannah
Meu coração disparou quando vi aquele homem gigante à minha frente. Eu estava tão nervosa, tão nervosa, que jurei que ia desmaiar a qualquer segundo. Ele me olhava como um predador observa a presa, pronto para atacar. O senhor Dalton conversava com ele em um tom baixo, e o homem gigante respondia com uma voz grave e rouca. Ele era bonito, isso eu não podia negar, mas era grande e assustador demais.
Eles conversaram por alguns instantes, e então o homem assustador andou à frente, com um cão enorme ao seu lado. O bebê resmungou no meu colo, e o homem grande imediatamente olhou para trás, como se aquilo o preocupasse. Eu segurei meu filho com mais força e caminhei em silêncio atrás deles.
Em pouco tempo, chegamos a uma cabana. Era grande, bem rústica, feita à mão com toras e musgo. Mas o lugar em volta... ah, o lugar era de tirar o fôlego. Montanhas majestosas e um lago tão cristalino que refletia o céu. Por um instante, a beleza daquele cenário amenizou meu medo.
Entramos na cabana. Era um só cômodo, com quarto e cozinha integrados em um grande salão, sem nenhuma separação. Os móveis também eram feitos à mão, rústicos e simples, e aquilo fez meu coração doer, lembrando da minha família, da minha irmã Anne, da vida que deixei para trás. Uma lágrima escapou do meu rosto e escorreu quente pela minha bochecha.
Foi então que o cão enorme veio até mim. Ele esfregou o focinho na minha perna, fazendo carinho, como se soubesse que eu precisava de conforto. Eu correspondi ao carinho, acariciando sua cabeça peluda, grata por aquela pequena gentileza.
Levantei a cabeça e, com a voz ainda trêmula, perguntei:
— Qual o nome dele?
O homem rústico respondeu, seco:
— Cão.
Eu fiquei confusa. Como um cão se chama "Cão"? Ele deve ter notado minha expressão, porque apontou para o animal e perguntou:
— O que é isso?
— Um cão — respondi, sem entender.
Ele então deu de ombros, com uma lógica tão simples que me deixou boquiaberta:
— Então o nome dele é Cão. Assim como a mesa se chama mesa, e o armário se chama armário.
Hendrick riu baixinho ao fundo. Dalton me olhou, sério, e disse:
— Hanna, esse é Kian. Ele é muito literal nas coisas que fala e faz. E muito m*l humorado.
Kian. Então aquele era o nome dele. Antes que eu pudesse processar qualquer outra coisa, ele veio até mim. Com as mãos estendidas e o olhar fixo, falou sério:
— Posso segurar meu filho?
Eu me assustei. Aquele homem grande e rústico, que me olhava com tanta intensidade, queria pegar o meu bebê. O meu corpo inteiro travou. Mas Dalton interveio:
— Hannah, Foi com o material de Kian que você gerou o seu bebé, ele e o pai.
Eu segurei meu filho no meupeito com mais força. Kian me encarou e disse, em um tom que não admitia discussão:
— Não vou machucar o bebê.
Com as mãos trêmulas, entreguei a criança a ele. Era meio estranho ver mãos tão grandes segurando uma criança pequena. Assim que o pequeno foi para seu colo, abriu os olhos e encarou o pai. Kian inclinou a cabeça, e pela primeira vez vi algo suave naquela face dura. Ele se apresentou ao bebê:
— Olá. Eu sou o Kian. Eu sou seu pai. Eu não sei como é ser pai, eu nunca tive um, mas vou fazer de tudo para te proteger.
Aquelas palavras me tocaram fundo.
Dalton então falou novamente.
— Kian também foi desenvolvido pelo projeto Quimera.
Eu o olhei surpresa e feliz ao mesmo tempo.
— Você também é um milagre vindo dos céus? Porque eu não me deitei com um homem para conceber meu filho.
Kian parou. Virou-se para mim e me olhou como se eu fosse completamente maluca. Seus olhos estreitaram, confusos. Eu tentei explicar, gaguejando: — Eu... eu... eu sei que fiz parte de um experimento... a doutora Trisha me disse isso. Mas mesmo assim, mesmo sabendo que existem pessoas ruins envolvidas, eu ainda acho que a concepção da minha criança é um milagre.
Kian me olhou assustado e perguntou a Dalton
— Que mer.da e essa? Ela nunca ouviu falar de ciência?
Hendrick ri alto e Kian rosna para ele.
Kian olhou para Dalton, que soltou um suspiro e disse que era melhor irem lá fora conversar. Kian se virou para mim, e com aquela voz grave e séria, disse:
— Você pode se deitar na cama e descansar. Tem comida no fogão. Se precisar usar o banheiro, é aquela porta.
Ele apontou para o canto da cabana, virou-se e saiu, seguido por Dalton. E eu fiquei ali, parada no meio daquele cômodo rústico, com o coração acelerado e a mente em frangalhos.
Eu não sabia se sentia medo ou felicidade por ter encontrado o pai do meu filho. Mas, no fundo, no meio de todo aquele caos e confusão, eu não conseguia negar uma coisa: eu achava aquele homem muito, muito bonito.