*Ichiban: Literalmente significa "número um".
---
Acordando de uma noite m*l dormida após o que deve ter sido o pior dia de sua vida, Izuku passou na cafeteria em que sua amiga trabalha antes de se dirigir ao escritório às pressas, virando o cappuccino escaldante em três goles desesperados na esperança de surtir efeito mais rápido.
Ao descer do elevador pro andar de seu cubículo com cara abatida e uma caixa de papelão em mãos, ainda mais depois de ter sido chamado ao escritório do chefe no dia anterior, seus colegas de trabalho só puderam lançar-lhe olhares piedosos no que o esverdeado se dirigia ao seu antigo cubículo e começava a encaixotar os pertences; Hagakure foi a única a se aproximar.
- Bom dia, Midoriya. - Cumprimentou ela com cautela.
- Ah, Hagakure! Bom dia! - Izuku pôs seu melhor sorriso forçado ao respondê-la.
A jovem mulher de cabelos cor de lima abaixou os olhos entristecidos, medindo suas palavras antes de tocar no assunto.
- Então... como foi com o Bakugou, ontem?
- Ah, bom... parece que vou ser seu secretário.
- O quê? Ele te promoveu?! - Hagakure exclamou alto o suficiente para chamar a atenção de todos no recinto, Midoriya só pôde sinalizar para que falasse mais baixo.
- É... Começo hoje, ao que parece. - Disse ele devagar.
- E aqui eu tinha certeza de que seria demitido... que susto! Essa é uma notícia muito boa, fico aliviada em saber!
Izuku abaixou os olhos com um sorriso tristonho.
- "Aliviada", hã...?
A jovem fitou-o confusa.
- Você não parece muito contente por ter conseguido essa promoção...
- Bom, pode-se dizer que eu não estou tão ansioso para trabalhar ao lado do... Bakugou.
- Midoriya...? - Hagakure chamou, mas seu parceiro de trabalho já estava levando os pertences consigo para o elevador. Não queria descontar nela, mas aquela era uma conversa que definitivamente não queria ter.
Atravessando o longo corredor para a mesa de secretário, encontrou Kirishima lançando-lhe um sorriso radiante.
- Bom dia, Midoriya! - Cumprimentou o ruivo.
- Oi, Kirishima. - Respondeu-o monotonamente ao pousar a caixa de pertences sobre a mesa.
Seu colega lançou-lhe um sorriso constrangido.
- Dormiu bem?
- Hã...? Ah, bom... mais ou menos. - Izuku disse acanhado ao começar a organizar seu espaço de trabalho na mesa compartilhada; ao menos tiveram a decência de lhe providenciar uma cadeira extra.
- Entendo... - Respondeu devagar. - Então... hoje começamos seu treinamento! Vou passar por alguns básicos com você e tirar qualquer dúvida ao longo do-
- Deku.
Ambos fitaram as orbes escarlate metralhando o jovem esverdeado de cima, em frente à mesa; Izuku apontou para si mesmo para garantir de que se referia a si.
Bakugou revirou os olhos para ele.
- Você mesmo, quem mais seria? - Falou impaciente.
- Bom... na verdade-
- Quero que me traga um café. - Interrompeu-o ao se dirigir para sua sala.
- O quê-?
- Agora! - Foi tudo o que vociferou em sua direção antes de fechar a porta do escritório atrás de si; Izuku só pôde suspirar impaciente e buscar os olhos do colega ao seu lado.
- O-o Bakugou tem um caráter meio difícil, eu sei! Mas não é de todo ruim... - Explicou o ruivo.
- Claro... - Izuku resmungou sarcástico.
Kirishima sorriu encorajador.
- Espresso duplo com espuma.
O esverdeado fitou-o curioso antes de assentir com um leve sorriso.
- Obrigado, Kirishima. - Foi tudo o que disse antes de se levantar.
Se dirigiu à cafeteira mais próxima e programou o espresso duplo com espuma para então levar a xícara de volta pro seu chefe o mais rápido que pôde, encontrando-o em uma conversa casual e descontraída com Kirishima ao chegar à mesa de secretário, porém sua cara fechou ao avistar o esverdeado.
Izuku engoliu um seco e se aproximou com cautela do chefe que o aguardava impaciente e de braços cruzados.
- Er... trouxe seu café... Espresso duplo com espuma. - Anunciou educadamente.
Bakugou ergueu uma sobrancelha para o ruivo, cujo sorriu em retorno, então se voltou para o sardento à sua frente, assentindo à xícara em suas mãos.
- Deixe na minha mesa.
Izuku suspirou inaudível ao cinismo do chefe e fez como lhe foi instruído, abriu a porta do escritório com cuidado e depositou a xícara num canto livre da mesa de trabalho impecável.
Ao se virar para sair, gelou à visão de Bakugou adentrando o escritório logo em seguida; este franziu o cenho e bufou impaciente ao se aproximar com passos firmes, deixando seu secretário no mínimo nervoso, antecipando o pior, mas este deixou seu corpo relaxar e se virou confuso para Bakugou cujo ignorou-o ao se dirigir diretamente à mesa, reposicionando a xícara em outro canto impacientemente.
- Precisa deixar o café mais afastado dos documentos, eles não podem manchar. - Disse firmemente ao se virar para Izuku. - Tenha mais cuidado, da próxima vez.
- S-sim senhor. - Gaguejou em retorno. - Há algo mais que eu possa fazer, por enquanto?
- Não, está dispensado por hora. - O loiro disse plenamente ao contornar a mesa e se sentar na cadeira presidencial.
- Sim, senhor... - Sequer tentou disfarçar o tom de mágoa ao se retirar da sala.
De volta à mesa de secretário compartilhada, Izuku desabou na cadeira de escritório sob o olhar preocupado de seu parceiro de trabalho.
- Cansado, Midoriya?
- Bom, quer dizer... ainda posso trabalhar. - Respondeu ele ao esfregar os olhos.
- Bom, espero que ainda consiga prestar atenção ao treinamento... - Kirishima sorriu acanhado.
- A-ah! Caramba, tinha quase me esquecido! - Izuku exclamou, agora mais desperto.
Kirishima fitou-o preocupado.
- Seria melhor tirar o dia de folga? Se não está se sentindo bem, eu posso arrumar uma desculp-
- Não, não... - Interrompeu o esverdeado. - Não posso faltar no meu primeiro dia de promoção, quanto mais na minha primeira semana de trabalho.
Kirishima sorriu em compreensão.
- Você é mesmo esforçado, não é, Midoriya? - Comentou para ganhar um sorriso acanhado do colega. - Acho isso muito másculo da sua parte, mas não deixe de buscar ajuda quando precisar, tá...? Inclusive é para isso que estou aqui.
Izuku sorriu genuinamente em sua direção; a seu ver, trabalhar diretamente para Bakugou seria mais tolerável enquanto ao lado do seu novo colega.
- Obrigado, Kirishima.
- Não tem porquê, Midoriya! - O ruivo sorriu radiante levantando um polegar positivo. - Agora vamos passar pelas tarefas que vai exercer daqui em diante; se aparecer qualquer dúvida, seja agora ou depois, não hesite em me perguntar!
A experiência em seu novo espaço de trabalho foi uma mistura de sentimentos para Izuku; suas tarefas incluíam atender ligações, organizar agendas e cronogramas, receber clientes e visitantes e sempre consultar seu chefe sobre mudanças bruscas, como entrevistas ou reuniões.
Não fosse por isso, trabalho é trabalho, mas Bakugou parecia estar querendo dificultar pro seu lado, teve também de se acostumar com o novo apelido.
- Deku. - Izuku olhou pro chefe ao seu chamar. - Quero que você me acompanhe, na próxima reunião.
- Hã...? - Resmungou o esverdeado estupefato.
- Eu gaguejei? Vamos, levante. - Bakugou moveu para se retirar, impaciente.
- Espera... pensei que o Kirishima fosse te acompanhar. - Comentou com cautela.
- Alguém tem que ficar no atendimento, mas também preciso de um de vocês na reunião comigo. - O loiro explicou plenamente ao se virar de volta pro esverdeado.
- Hã... sou mesmo adequado pro serviço? - Izuku perguntou para garantir, afinal ainda estava em sua primeira semana de treinamento.
Bakugou revirou os olhos e exalou exasperado.
- Olha, se está me dizendo que simplesmente não quer fazer, eu posso-
- Não, não! Eu vou. - Exclamou o esverdeado ao levantar abruptamente e buscar o olhar encorajador do colega ao seu lado.
- Acho bom. Venha, vamos nos atrasar. - Bakugou se virou e seguiu com seu caminho, tendo o esverdeado indo ao seu encontro rapidamente e seguindo-o como um cachorrinho, acompanhando os passos largos do chefe.
Seguiam rapidamente para a sala de reuniões e Izuku estava perdendo tempo, mas tinha de perguntar antes de se atrapalhar e estragar tudo.
- Hã... se-senhor Bakugou? - Murmurou timidamente para receber apenas um resmungo impaciente do chefe. - Hã- fico contente de confiar em mim para este serviço, mas... ainda estou em treinamento-
- Aonde quer chegar? - Bakugou encarou-o de relance, impaciente.
- Bom... só preciso saber o quê, exatamente, espera de mim nessa reunião... não quero decepcioná-lo.
Bakugou pausou momentaneamente com uma sobrancelha erguida em sua direção, intimidando Izuku ao fazê-lo imaginar se tivesse dito alguma besteira. O loiro apenas sorriu de lado com um riso zombeteiro e seguiu com seu caminho, tendo Izuku indo atrás dele de prontidão.
- Você é do tipo obediente, não é? Eu gosto disso. - Suas palavras embrulharam o estômago do esverdeado.
- B-bom... só quero fazer um bom trabalho. - Respondeu baixinho.
- Não se preocupe, Deku... tudo o que precisa fazer é me ajudar com esse acordo de forma rápida e efetiva, e lembre-se de que não gosto de desperdiçar o meu tempo. - Completou com rispidez e um olhar severo ao seu secretário.
Izuku assentiu.
- Sim, senhor.
Logo adentraram a sala de reuniões para encontrar uma dupla conversando lá dentro, ambos se viraram ao ouvir a porta abrir e sorriram ao avistar Bakugou e seu secretário.
- Obrigada por comparecerem! - A mulher de lábios carnudos reverenciou. - Meu nome é Camie Utsushimi, represento a Cosméticos Glamour. Este é meu secretário, Inasa Yoarashi.
- É um prazer! - Disse Inasa com um entusiasmo levemente exagerado e uma reverência estranha; Izuku não pôde deixar de notar, mas seu jeito robótico pareceu ter incomodado Bakugou, cujo somente ajustou a gravata e guardou comentários maldosos para si.
- Eu sou Katsuki Bakugou, e este-
- Ah! Meu nome é Izuku Midoriya, é um prazer! - Interrompeu de prontidão para ganhar um olhar de relance do seu chefe que ameaçava-o silenciosamente.
Não queria ser rude nem brusco, principalmente com seu superior, mas tinha de fazê-lo para não causar confusão com o apelido "carinhoso" que recebeu de Bakugou, afinal o que este faria seus colaboradores pensarem ao chamá-lo de “inútil” na frente de todos?
- Certo... bom, vamos nos sentar? - Camie sugeriu ao unir as mãos animada, todos seguiram a deixa. - Vou direto ao assunto: todos sabemos como a grife Ichiban é famosa e prestigiada.
- Sim, isso não é novidade para ninguém. - Bakugou se pronunciou com um sorriso de lado antes que esta pudesse terminar. - Aonde quer chegar com essa paparicagem?
Camie sorriu admirada pela sua confiança antes de continuar.
- Queremos fechar uma parceria.
Bakugou riu debochado ao cruzar os braços sobre a mesa à frente, Izuku apenas observou cada gesto seu com uma queimação no âmago de seu estômago.
- E que vantagem nós teríamos nisso? - Indagou o loiro
- Sabemos como a Ichiban é literalmente a número um*, não traríamos esta proposta se não estivéssemos à altura. - Camie apoiou o queixo sobre o dorso da mão, falando com toda a confiança.
Bakugou arqueou uma sobrancelha com um sorriso admirado.
- Isso eu quero ver por mim mesmo.
- Mas é claro! - Inasa se intrometeu ao entregar duas cópias de documentos que trazia consigo para Bakugou e seu secretário. - Vão ver que a Glamour está subindo rápido no ranking, estamos bem perto do primeiro lugar em vendas!
Bakugou analisou os gráficos rapidamente com Izuku; o esverdeado fitava os números admirado enquanto que seu chefe apenas analisava tudo em um silêncio desconcertante, mas que não abalou Utsushimi, de todo modo.
Ao passar por todos os documentos, Bakugou ergueu uma sobrancelha, o que tirou um sorriso vitorioso dos lábios carnudos de Camie, este então se virou para seu secretário que entendeu a mensagem subliminar com o olhar do chefe.
- São números impressionantes. - Izuku se dirigiu à dupla do outro lado da mesa.
- Não é? - Camie se gabou no que os dois rapazes passavam os documentos de volta para Inasa.
- Eu não sei... - Bakugou se pronunciou para a confusão de todos, seu sorriso finalmente se desfez. - Realmente, são gráficos interessantes que vocês têm aí, mas o que me interessa se não estão em primeiro?
- Ainda. - Camie sorriu confiante.
Bakugou soltou um riso debochado.
- Tem tanta certeza assim de que vai alcançar esse patamar?
- É só uma questão de tempo. - Respondeu ela. - Não estou apenas sonhando alto, senhor Bakugou, tenho visão de futuro e confiança de que minha empresa ainda vai ser a melhor.
O loiro ergueu uma sobrancelha, admirado; parece que a confiança de Camie ganhou sua simpatia.
Fecharam o acordo rapidamente e se despediram antes de partir caminhos, em meio a isso, Izuku não pôde deixar de notar o modo como Bakugou encarava as pernas de Camie por debaixo da saia midi.
Seguiram em silêncio até a mesa de secretário onde se encontrava Kirishima e este trocou um sorriso com o loiro ao avistá-lo, gesto esse que fez Midoriya sentir-se m*l.
Por mais que Kirishima estivesse facilitando seu trabalho, não podia deixar de sentir ciúmes pela diferença de tratamento, mas não tinha mais o que fazer; Bakugou sequer se lembrava dele e agora era seu chefe, já não era mais da sua conta.
- Vamos almoçar, Ei? Acho que podemos fazer um intervalo. - Bakugou convidou o ruivo que se levantou ao seu chamar.
- Claro! Você vem também, Midoriya? - Kirishima se virou pro esverdeado.
Izuku estava esperançoso por um curto momento, até Bakugou estragar seu ânimo.
- Alguém ainda precisa ficar na recepção, ele pode ir almoçar quando voltarmos. Vamos, Ei. - Chamou ele ao se dirigir pro elevador, Kirishima lançou um olhar envergonhado em direção a Midoriya, como que lhe pedindo desculpas silenciosamente enquanto seguia o chefe.
Izuku só pôde suspirar e voltar ao trabalho por hora.
Os íncubos então se encontraram num restaurante de alta classe próximo do seu local de trabalho para poderem almoçar; assim que fizeram seus pedidos, o garçom recolheu os cardápios e se retirou, dando a deixa para Eijirou conversar com seu amigo sobre o assunto que vinha remoendo na última semana.
- Escuta, Katsuki... não acha que devia tratar o Midoriya um pouco melhor-?
- Podemos evitar assuntos desagradáveis? - O cupido interrompeu-o impaciente.
- Katsuki. - Eijirou suspirou. - Ele é a sua alma gêmea, sabe o que acontece ao rejeitá-lo, todos nós vimos, por quê não pode se entregar ao seu destino?
Katsuki pausou para tomar um longo gole de água.
- Você sabe muito bem, Ei. - Disse plenamente.
- Eu sei! Mas você sabe também como as almas gêmeas funcionam, afinal você estudou sobre isso...! Katsuki... não acha que deveria dá-lo ao menos uma chance? Talvez seja até mais fácil de cumprir com a sua função quando não tem os efeitos da maldição para te atormentar.
Katsuki pausou em cogitação; de fato, aceitar sua alma gêmea era o único modo de cortar os efeitos da maldição que carregava, assim como qualquer outro cupido como ele, mas não era um humano qualquer que iria desfazer a visão que tinha sobre aquela espécie.
- Pode falar o que quiser, Ei... não vou me entregar tão fácil.
- Katsu-!
- Sabe muito bem porque eu não tenho esperança nos humanos, afinal eu vi com meus próprios olhos e senti com meu próprio coração do que essa raça é capaz... e não é uma "alma gêmea" que vai mudar isso tão fácil.
Eijirou não insistiu mais, apenas abaixou os olhos em derrota e mudou de assunto quando seus pedidos chegaram; realmente, seu amigo era muito cabeça dura, só esperava ele que aquele rapaz, o Midoriya, conseguisse o milagre de mudar suas opiniões encruadas, mas precisaria de muita perseverança, e talvez um pouco de ajuda...
De volta ao escritório, Midoriya avistou Kirishima voltando com seu chefe, cada qual com um sorriso caloroso em sua direção e uma cara amarrada, evitando olhar para ele; assim que Kirishima sentou-se ao seu lado, Midoriya tentou chamar a atenção de Bakugou.
- Ei... senhor Bakugou! Eu- - Não teve tempo de terminar a frase antes da porta do escritório bater atrás do chefe.
O sardento abaixou os olhos e suspirou frustrado.
- Tudo bem, Midoriya...? Se quiser, pode ir almoçar, eu assumo daqui. O que queria com o Bakugou? - Kirishima se pronunciou.
- Obrigado, Kirishima... era sobre isso mesmo que eu queria saber. - Sorriu acanhado.
O ruivo devolveu-lhe o sorriso.
- Neste caso, pode ir! Eu assumo daqui.
- Já estou indo. - Izuku anunciou ao se levantar em direção à cantina. Kirishima não tinha ideia do quão grato ele era por si.
Izuku se serviu do buffet do refeitório, já havia se acostumado com todos encarando a quantidade saudável de alimento no seu prato comparada à quantidade escassa dos seus companheiros de trabalho, mas não ia passar fome para impressionar ninguém.
Sentou-se na única mesa vazia que encontrou e se serviu, não tardou para que alguém se juntasse a ele.
- Oi, Midoriya! Há quanto tempo. - Este olhou para a familiar voz feminina lhe chamando.
- Ah! Oi, Hagakure. - Izuku cumprimentou de volta no que a jovem moça ocupava um lugar à sua frente.
- E então...? Como a nova promoção vem te tratando? - Perguntou animada.
Izuku esboçou um sorriso melancólico.
- Quer dizer, como o Bakugou vem me tratando...?
Hagakure fitou-o preocupada.
- Vejo que não se deu muito bem com ele...
- É... - Izuku concordou, apesar de que "não se dar muito bem" não chegava perto do nível de estresse pelo qual seu chefe o fazia passar.
- Quer me contar o que aconteceu?
- A-ah! Não quero incomodá-la.
- Eu sou toda ouvidos.
Izuku hesitou; realmente nem queria falar sobre aquilo, mas não conseguia negar a insistência da moça.
- Tudo bem... na verdade, meu parceiro de trabalho, o Kirishima, é o único motivo me mantendo de pé... mesmo assim, não é o suficiente perto do que eu tenho que aturar com o Bakugou.
- Midoriya... por acaso está pensando em se demitir?
- Não... por mais que a ideia seja tentadora. - Pausou para suspirar. - A verdade é que este é o meu emprego dos sonhos, não sei aonde mais posso ir daqui, mas estou começando a me questionar se vale mesmo a pena...
- Hum... - Hagakure cantarolou com pesar. - Se for fazer isso, espero que esteja certo da sua decisão, mas... o que o Bakugou te fez de tão ruim...?
Izuku soltou um riso zombeteiro; não podia falar daquilo e nem queria, iria botar seu emprego em risco! Logo, Hagakure se corrigiu.
- A-ai, me desculpa! Isso não é da minha conta, não é...? Não devemos ficar fofocando sobre o chefe.
- Tudo bem... Mas é, é melhor não ficarmos fofocando sobre isso.
Ambos sorriram um pro outro em compreensão até a mulher prosseguir com seu discurso.
- Mas enfim... pode ser o seu trabalho, mas não deixe os outros se aproveitarem de você, viu, Midoriya?
Izuku hesitou surpreso; era tarde demais para lhe dizer aquilo.
- Vou tentar...
Hagakure suspirou impaciente.
- Ah, Midoriya... você não pode ser tão inocente, sei que é uma qualidade que você tem, mas isso só vai lhe trazer desgraça... e eu quero que você fique bem. - Suas palavras surpreenderam o esverdeado. - Sabe... você captou meu olho desde que começamos a trabalhar juntos... você é uma ótima pessoa!
- Deve estar exagerando, eu não sou tão incrível assim. - Izuku riu acanhado.
- É sim! Você é mesmo muito gentil e generoso, até me surpreende ter um emprego tão fútil quanto numa empresa de moda.
- Bom, você é uma para falar, não é? - Brincou ele.
- Eu sei, mas sempre me interessei por moda desde que era garotinha.
- Então somos dois. - Izuku disse baixinho.
- Acho que sim, né? - Hagakure riu. - Mas enfim... eu estava pensando se talvez você não quisesse-
- Ei, Midoriya! - Ambos olharam para cima surpresos ao chamar do rapaz ruivo.
- O que foi, Kirishima? O Bakugou precisa de alguma coisa? - Indagou Izuku preocupado.
- N-não é isso! Eu só precisava falar com você rapidinho; tem um minuto? - Kirishima chamou acanhado.
Izuku olhou de Hagakure para o ruivo, então se pronunciou.
- Está bem... já vou. - Disse ao se levantar. - Nós conversamos depois, Hagakure.
- Tudo bem. - Foi tudo o que a jovem disse ao observar o esverdeado partir dali.
Ambos os rapazes seguiram pelos corredores em silêncio desconfortável por um momento até Izuku perceber que estavam caminhando em direção a uma área externa do prédio.
- Kirishima... desculpe, mas não devia estar no trabalho? Não sei se temos tempo para-
- Está tudo bem Midoriya, o trabalho pode esperar um pouco, só preciso conversar com você em particular.
Izuku não pôde responder, seu estômago embrulhou no que imaginava o pior.
Quando finalmente se viram a sós, Kirishima se virou pro esverdeado e hesitou.
- Olha, Midoriya... desculpe a pergunta, mas... quem era aquela garota?
O esverdeado fitou-o confuso.
- Minha antiga colega de trabalho, Tooru Hagakure... por quê?
- Bom, é que... - O ruivo respirou fundo. - Olha, não quero me meter, mas não acho que deva se aproximar dela...
Izuku estava mais confuso ao momento.
- Como assim? Você não conhece ela, não é?
- Eu sei! Mas... escuta. - Este surpreendeu Midoriya pousando ambas as mãos em seus ombros. - Eu não confio nela... e me parecia que ela tinha segundas intenções.
Midoriya parecia ofendido.
- É assim que trata seus parceiros de trabalho, Kirishima? Esperava mais de você.
- Midoriya, espera! - O ruivo agarrou-o pelo braço antes que pudesse se virar para sair. - Eu só estou fazendo isso pelo seu bem.
- O que você quer, Kirishima?! A Hagakure não merece ser tratada assim! - Exclamou o esverdeado ao se soltar do aperto do mais alto.
- Bom... eu não conheço ela, eu sei! Mas-
- "Mas" o quê?! - Izuku interrompeu-o.
O ruivo hesitou e procurou as palavras certas em sua mente, chegando a um impasse; respirou fundo e decidiu partir para outra abordagem.
- Me desculpa... eu só... - Kirishima encolheu perante o olhar severo do seu colega de trabalho. - Eu não queria ofender ninguém... é só que me pareceu que vocês dois estavam flertando e-
- Hã? - Izuku resmungou confuso.
Desta vez, Eijirou teve de morder a língua; havia falado demais.
- Kirishima... está tentando me dizer que você gosta da Hagakure?
O mais alto gelou, não esperava ter soado daquele jeito...
- Bom... não é sobre a Hagakure-
- Sou eu?! - Izuku apontou para si mesmo em choque.
- N-não é bem assim, Midoriya! Quer dizer, é por aí mas não sou eu quem gosta-! - Pausou para buscar as palavras certas. - É um amigo meu...
Izuku ergueu uma sobrancelha.
- Quem? - Perguntou curioso.
Eijirou engoliu um seco.
- N-não posso dizer... ao menos não agora; só peço que seja paciente, está bem?
O esverdeado pausou em cogitação; quem seria aquele amigo misterioso? Só tinha certeza de que não poderia ser a primeira pessoa que lhe veio à mente, mas ouvir aquele discurso de Kirishima de novo lhe soou estranho.
- Bom, comece com isso, da próxima vez. - Izuku comentou aliviado.
- Eu sei! Me desculpe. - O ruivo riu acanhado.
- Tudo bem... vou tentar, mas vai ter que me apresentar esse "amigo" qualquer dia, hein?
- Bom... - Eijirou se segurou para não soltar o que não devia, ainda mais dado o relacionamento conturbado entre ele e Katsuki. - Pode deixar! Te apresento assim que possível.
O esverdeado assentiu.
- Obrigado, Kirishima.
- É para isso que servem os amigos, não é? - O mais alto riu ao guiar o pequeno para dentro do prédio; agora teria que continuar equilibrando aquela meia verdade até aqueles dois se resolverem.