Midoriya desenvolveu uma tremenda aversão a boates; os corpos suados dançando embriagados ao som da música alta não era seu tipo de ambiente, ainda mais depois de tudo o que passou na última vez em que pôs os pés naquele clube em específico, mas se tudo corresse como o planejado, tinha de se submeter àquilo para pôr um fim aos seus tormentos.
O esverdeado arrastou os pés em direção à fila, nunca na vida teve tanta vontade de estar em casa dormindo. Assim que se plantou no último lugar, ouviu alguém chamando mais à frente.
- Midoriya! - Kirishima acenava animado em sua direção, acompanhado de todos os seus amigos. Izuku sorriu maliciosamente ao ver Bakugou junto deles, aparentemente contrariado.
O grupo foi em sua direção por iniciativa de Kirishima, que tentou convencer o loiro a se unir a eles, mas Bakugou se manteve bem onde estava; eles se aproximaram do esverdeado e trocaram algumas palavras consigo antes de esquecerem da sua presença, mas já não importava mais, pois naquela noite botaria um ponto final em tudo.
Assim que chegaram à entrada, o segurança liberou acesso a todos… menos Midoriya.
- Documentos, por favor. - O loiro alto pediu ríspido.
Izuku suspirou já retirando a carteira de seu bolso traseiro, mas Kirishima reapareceu na porta antes que pudesse entregar sua identidade.
- Está tudo bem, Jin, ele está com a gente.
- Mesmo…? - O segurança examinou Izuku da cabeça aos pés antes de se voltar pro ruivo. - Ainda tem chance de despistá-lo.
- Venha, Midoriya. - Kirishima estendeu a mão para Izuku, que pediu licença ao aceitar e segui-lo para dentro da boate.
Se uniram novamente ao grupo de amigos e sentaram numa mesa; Kirishima e Sero se prontificaram em trazer bebidas para todos, então memorizaram os pedidos antes de partirem pro bar.
O ruivo se ofereceu para pagar a Sprite de Midoriya como havia prometido, apesar de este não planejar ficar para beber, tinha planos mais importantes em mente.
Os remanescentes conversavam entre si, relevando completamente a presença do esverdeado, cujo esperava impaciente a volta dos outros dois; assim que voltaram, Kirishima parecia nervoso, mas ninguém comentou sobre enquanto ambos distribuíam as bebidas para todos na mesa.
- Ei, Midoriya… - Kirishima chamou apenas alto o suficiente para ser ouvido sobre a música da boate. - Fique perto de mim por enquanto, está bem?
- Certo. - Respondeu apático com um gole do refrigerante.
Não demorou muito para o grupo esquecer da sua presença novamente, foi quando Izuku se levantou sorrateiramente.
- Mi-Midoriya? - Kirishima chamou preocupado, um pouco tarde demais; este já estava de pé indo em direção ao bar onde Bakugou flertava com uma morena qualquer.
- Que surpresa te encontrar aqui. - Izuku chamou a atenção do loiro sobre a música alta; seu tom de voz e sorriso sarcástico entregavam que não estava nem um pouco surpreso.
Bakugou parecia uma criança pega no flagra, apesar de não demonstrar um pingo de remorso. Aproveitou o fato de ainda não estar sentindo os efeitos da maldição e abriu a boca para falar.
- Ninguém te convidou para esta conversa, Deku! - Sua acompanhante riu baixo do apelido “carinhoso”.
Izuku suspirou impaciente.
- Não preciso que me convidem… desta vez eu vou falar e você vai ouvir, Katsuki.
O loiro se mostrou ofendido, tanto pelo desafio quanto pela ousadia de ser chamado de forma tão íntima. Ele se levantou guiando sua acompanhante para fora dali.
- Vamos procurar um lugar mais agradável, querida.
- “Querida”? É assim mesmo que trata qualquer um que quer levar pra cama, não é? - Izuku riu, fazendo Bakugou se voltar para ele, contrariado.
- O que caralhos você quer?!
O esverdeado negou com a cabeça.
- Você realmente não vai lembrar, não é…? - Disse monótono. - Me ver aqui de novo com as mesmas roupas daquela noite infeliz não te diz nada?
- O que está insinuando?!
- Eu era virgem antes de te conhecer.
Aquele comentário conseguiu contrariar Bakugou por fim, cuja acompanhante se afastou, perdendo completamente o interesse; aquilo conseguiu enfurecê-lo de vez.
- Então é isso…? Essa birra toda é só porque eu não lembro de você ter dado para mim? - Riu sarcástico.
- Não só por isso. - Izuku desafiou.
- Olha, eu sugiro que segure melhor essa língua. Não se esqueça de que eu ainda sou seu superior e posso muito bem-!
- Se vai ameaçar me demitir, está um pouco atrasado. Eu me demito. - Disse com firmeza.
Aquelas palavras botavam um ponto final em qualquer tipo de relacionamento entre eles, logo os ouvidos de Bakugou zumbiam com as vozes em prantos e seu coração foi engolido por uma dor insuportável. Dobrou seu corpo com a mão no peito, tentando amenizar a dor em vão; Izuku apenas suspirou impaciente, fingindo não se importar enquanto saía dali com passos indecisos, dando uma última olhada para trás e finalmente partindo para não voltar mais.
- Katsuki! - Kirishima chegou um pouco tarde demais, seu amigo já estava agonizando no chão e a alma gêmea saindo pela porta da frente. Naquele momento, o ruivo só pensou em ir atrás dele. - Ei, Midoriya, espere! Midoriya-! - Chamou em vão, Izuku se foi e não ia se deixar ser persuadido.
Naquele momento, Kirishima percebeu que era só uma questão de tempo para Katsuki; voltou então para acudir o amigo enquanto ainda era tempo.
Uma vez de volta em seu apartamento, Bakugou teve de ser arrastado até seu quarto por Eijirou enquanto cambaleava com o ataque de pânico. O ruivo deitou-o na cama e o observou com dor, agora que fora abandonado pela alma gêmea, tinham de trazê-lo de volta antes de Katsuki sucumbir à maldição.
- V-você vai ficar bem, Katsubro? - Perguntou inocentemente.
- Que pergunta mais i****a. - Katsuki resmungou por entre a respiração pesada.
Eijirou suspirou inaudível.
- Só quero poder te ajudar.
Katsuki tentou controlar o choro em vão.
- Eu não sei, está bem?! Agora que ele se foi, eu… Eu devia ter te escutado desde o começo…
Eijirou quis concordar, mas sabia que aquele não era o momento para aquilo.
- Ei… - Katsuki chamou.
- O que foi?
- Ele me disse… que já me conhecia… Disse que eu tirei sua virgindade. Eu não me lembrava de nada, mas agora… eu me lembro…
- Você ainda tem seus motivos, Katsuki… - Eijirou repreendeu. - Devo concordar que o modo como sempre tratou Midoriya estava longe de ser aceitável e o que fez com ele pode ser imperdoável, mas devo dizer que até entendo seu ponto de vista… mas se tem um fio de esperança, eu prefiro me agarrar a ele.
Katsuki riu sarcástico.
- Isso não é hora para acreditar em contos de fadas.
- Se é um conto de fadas, então é hora de começarmos a acreditar. - Eijirou falou com calma ao se sentar na beirada da cama de casal king size. - Ainda me importo com você, Katsuki, afinal é o meu melhor amigo… para mim não importa as circunstâncias ou o que você e Midoriya passaram, prometo que vou fazer o possível para ajudar, ouviu? E não se esqueça também de que somos contos de fadas pros humanos nós mesmos.
Katsuki podia ouvir o sorriso em sua voz de onde se deitava virado para longe do amigo. Não queria acreditar nessas baboseiras, sabia que seu tempo havia se esgotado, mas talvez uma parte de si ainda quisesse acreditar naquele fio de esperança, fosse pelo seu próprio bem ou que fosse.
Não mais respondeu pois sabia que, mesmo se negasse, Eijirou faria o que bem entende, ainda mais no seu estado atual que o deixaria acamado até encontrarem uma solução ou até sucumbir ao sofrimento da maldição, o que viesse primeiro, mas também não ia negar que, agora que estava com seus dias contados, confiar em seu amigo era o que mais queria.
Entendendo a mensagem subliminar, Eijirou se levantou com uma coisa em mente: encontrar Midoriya.
- Depois eu venho ver como está. - Disse o ruivo afável. - Vou conversar com o pessoal amanhã; só tente descansar, está bem?
- Quando virou minha babá? - Katsuki reclamou, mas Eijirou não deu bola, apenas saiu do quarto em silêncio.
Agora indeciso sobre o que deveria fazer, o ruivo resultou em passar a noite no sofá de Katsuki; agora que o mesmo se encontrava em estado debilitado, só tinha em mente que devia cuidar dele. Acordou várias vezes durante a noite com os prantos do amigo, mas só sabia que tinha de estar lá por ele.
De manhã cedo, movido pela preocupação, Eijirou desistiu de ficar encarando o teto da sala e se levantou por fim. Se teve 3 horas de sono foi muito, mas tinha plena consciência de que, a partir dali, ele e seus amigos teriam de agir por Katsuki se quisessem mantê-lo por perto, pois estava numa situação na qual não poderia ajudar a si mesmo por mais que quisesse.
A primeira coisa que fez foi espiar para dentro do quarto onde o amigo choroso repousava na cama.
- Eu não pedi para cuidar de mim. - Katsuki reclamou com voz trêmula.
- Mas eu vou, quer você queira ou não. Conhece as consequências, e eu não vou ficar sentado esperando meu amigo definhar.
Katsuki pausou; seus prantos agora diminuíram para soluços, mas ainda era uma questão de tempo para que voltasse a entrar em crise novamente.
- Eu nunca te disse isso, não é…? Mas obrigado por fazer isso por mim, Ei.
Eijirou suspirou inaudível e se aproximou.
- Vou falar com o pessoal… precisamos encontrar o Midoriya. Alguém também precisa ficar de olho em você enquanto isso.
Katsuki quis retrucar, quis dizer que não precisava da sua alma gêmea, que aquilo era só perda de tempo, que Deku nunca o perdoaria, no entanto, agora que estava chegando ao seu limite, tudo o que pôde fazer foi concordar em silêncio.
Ainda não acreditava em qualquer ser humano, mas mais do que tudo, naquele momento só queria se salvar.
Compreendendo a mensagem subliminar, Eijirou puxou o celular para contatar seus amigos e viu as inúmeras mensagens e ligações perdidas dos mesmos. O ruivo suspirou, apenas enviando a mesma mensagem para todos eles.
[EK]: Estou com o Katsuki.
Minutos depois, ouviu um burburinho da sala de estar e foi até lá para encontrar o grupo já reunido, todos com os olhos cheios de perguntas.
- Como ele está? - Mina foi a primeira a se pronunciar.
- Vivo, mas não foi para isso que chamei vocês aqui. - Eijirou respondeu.
- Eu sei, não é…? Precisamos encontrar o Midoriya. - Disse Kyouka.
- Exatamente. - Concordou o ruivo.
- Por onde começamos? - Denki indagou preocupado.
- Vamos nos separar e procurar pela cidade, ele não deve ter ido muito longe. - Eijirou se pôs a explicar. - Alguém vai ter que ficar com o Katsuki enquanto os outros procuram, sugiro que tomemos turnos diferentes para isso.
- Mas Ei, o Katsuki só deixa você chegar perto dele quando está sob os efeitos da maldição. Não seria melhor você ficar com ele, então? - Comentou Mina.
- Isso não é hora de atender aos seus caprichos. Vocês querem fazer o que ele quer ou que ele precisa? Eu sei onde posso encontrar alguns dos amigos do Midoriya, minha participação vai ser importante nessa busca. - Disse Eijirou com toda a seriedade, seus amigos concordaram em silêncio. - Vou enviar os endereços dos lugares que eu sei que ele frequenta por mensagem; Denki, pode ficar aqui por hoje? Preciso checar a lanchonete onde a amiga do Midoriya trabalha.
- Claro… - Disse o loiro contrariado.
- Não vamos perder muito tempo. - Eijirou disse por fim e todos os seus amigos se teleportaram juntamente dele para fora dali, deixando um Denki bem apreensivo para trás.
Uma vez na cidade, os súcubos se separaram e começaram a procurar; Eijirou foi à lanchonete onde a amiga de Midoriya trabalha, a mesma onde o esverdeado tomava café da manhã todos os dias antes do trabalho.
Adentrou o estabelecimento, apreensivo ao escanear os arredores em busca daquele familiar ponto verde, mas nenhum sinal dele; tentou então uma outra abordagem.
- Com licença… onde posso encontrar Ochako Uraraka? - Perguntou a uma das garçonetes que apontou para o balcão onde uma jovem de corte Chanel castanho trabalhava. – Obrigado.
Se dirigiu prontamente ao local e sentou num dos banquinhos.
- Com licença… - Chamou a atenção da moça. - Bom dia! Ochako Uraraka, né?
- Em carne e osso. - Brincou ela.
- Olha… eu preciso conversar-
- Desculpe, não posso conversar com fregueses. - Interrompeu-o.
Kirishima suspirou contrariado.
- Nesse caso, vou querer um café e um sanduíche.
A castanha fitou-o curiosa e começou a preparar o pedido.
- Se tem algo para me falar, sugiro que o faça antes de eu terminar de atendê-lo. - Avisou.
- Ah- certo! - O ruivo fez uma breve pausa para selecionar as palavras antes de abrir a boca. - Escuta… você é bem próxima do Midoriya, não é?
Uraraka suspirou.
- Eu sabia… você é amigo do Bakugou, não é?
Kirishima se surpreendeu.
- Olha, eu sei que o Bakugou errou com o Midoriya, mas-
- “Errou” é pouco. - A jovem riu indignada. - Se foi só para isso que veio, devo dizer que está perdendo seu tempo; Izuku me pediu para não falar nada e eu também nem quero… Aproveite o café. - Disse por fim, empurrando a refeição para ele.
Eijirou suspirou em derrota enquanto Uraraka se afastava para atender uma mesa; pelo visto não conseguiriam nada dos amigos de Midoriya.
Não ia perder tempo, deixou na mesa a quantia do café da manhã com uma gorjeta generosa e levantou em direção à saída, contatou os amigos para constatar que nenhum deles teve a mesma sorte, no mesmo momento em que recebeu uma ligação de Denki.
- Fala, Den. - Kirishima atendeu monótono.
- Ei, você precisa voltar aqui. - O loiro soava agitado.
- O que aconteceu? - O ruivo perguntou preocupado pelo tom de voz do amigo.
- O Katsuki disse que lembrou de uma coisa… acho que pode ajudar a encontrar o Midoriya!
Eijirou não pestanejou, desligou prontamente o telefone e se dirigiu a uma área remota para se teleportar pro apartamento de Katsuki sem ser visto; correu para o quarto onde o amigo repousava e foi em direção a Denki, que esfregava as mãos ansioso ao lado da cama.
- Vim o mais rápido que pude, o que descobriu? - Perguntou Eijirou.
- O Katsuki pode ter lembrado do endereço do Midoriya. - Disse Denki para sua surpresa.
- Vocês falam como se eu não estivesse aqui. - Resmungou o cupido na cama.
- Qual o endereço, Katsuki? - Eijirou perguntou direto e reto.
- Rua Kiyomatsu… não devo ter visto o número. Era uma casa de esquina branca com um jardim bem cuidado.
- Já é alguma coisa. Vou ver o que encontro por lá e te aviso. - Eijirou não esperou uma resposta, se teleportou de prontidão para as redondezas da rua indicada e procurou pela dita casa, encontrando a mais parecida com a descrição dada por Katsuki. Tocou a campainha algumas vezes, mas não obteve resposta, então espiou para dentro pelas janelas para se deparar com uma casa escura e sem qualquer sinal de movimento.
- Por acaso está procurando o Midoriya, jovem? - Perguntou uma velha senhora que regava seus arbustos ao lado.
Kirishima assentiu.
- Preciso da ajuda dele. Sabe onde ele está? - Perguntou ansioso.
- Ah… acho que ele se mudou.
O ruivo fitou-a boquiaberto, aquilo não podia estar acontecendo.
- Como assim…? - Perguntou devagar.
- Eu vi um caminhão de mudanças há poucos dias atrás, mas é estranho como a casa não está à venda… Ele deve voltar depois de um tempo.
Eijirou abaixou os olhos pensando rápido; “depois de um tempo” vai ser quando Katsuki já estiver morto, precisava encontrar Midoriya muito antes disso.
- Obrigado. - Disse à velha senhora antes de partir. Agora estavam num beco sem saída.
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- Se mudou…? - Kyouka repetiu o que acaba de ouvir.
Eijirou assentiu devagar.
- Sua amiga também não vai contar nada… é como se Midoriya tivesse sumido do mapa.
- O jornaleiro também não tem notícias dele… disse que Midoriya não passou na banca hoje, acho que não vai voltar lá tão cedo. - Hanta lamentou.
- O que vamos fazer agora…? - Mina disse com dor.
- E se seguíssemos os amigos do Midoriya? - Sugeriu Denki.
O grupo fitou-o, surpresos.
- O que você disse, Den? - Eijirou indagou boquiaberto.
O loiro deu de ombros.
- Bom… somos súcubos afinal, podemos ficar invisíveis e seguir os amigos do Midoriya. Ele ainda deve se encontrar com eles, acho que… hã… - Denki divagou em seu discurso com todos os olhos sobre si. - É uma ideia i****a, não é…?
- Quer saber…? Na verdade é uma ideia genial! - Parabenizou Eijirou.
- Mesmo? - Denki comentou surpreso.
- Infelizmente eu só sei onde a Uraraka trabalha, mas já é alguma coisa. Vou passar o endereço da lanchonete para vocês, ela ainda deve estar em horário de expediente. Vocês podem se dividir, caso ela encontre mais pessoas e se dispersem, eu fico aqui com o Katsuki. - Todos os presentes concordaram com o plano e não perderam tempo, se levantaram enquanto Eijirou passava o endereço por mensagem e se teleportaram para o local indicado; o remanescente não pôde evitar um sorriso enquanto seus amigos desapareciam em pleno ar, agora estava mais confiante do plano dar certo.