Revelações

3120 Words
Não é fácil esquecer uma amizade, sem o bicolor entre eles, os amigos de Izuku já sentiam um vazio e, de certa forma, o esverdeado sentia-se responsável por sua partida. - Você não tem culpa de nada, Izuku! - Uraraka repreendeu ao terminar um gole do seu milkshake. - Na verdade, nem o Todoroki… não é uma coisa que podemos controlar. - Mas ainda sinto como se fosse…! Se eu não tivesse conhecido o Kacchan e seus amigos, talvez o Todoroki nunca reencontraria a Yaoyorozu… - Izuku lamentou cerrando os punhos sobre o colo. Uraraka negou com a cabeça e se debruçou sobre a mesa de lanchonete. - Você se culpa demais por coisas que não estão no seu controle. - É verdade, Midoriya. - Iida golpeou o ar em sua direção. - Conhecer o Bakugou pode não ter sido de todo bom, mas olha onde está agora por conta disso; o Todoroki reencontrar uma paixão não superada foi só um infortúnio. Izuku ficou em silêncio e cerrou os dentes. - Não precisa se preocupar! - Uraraka disse com um gole da bebida. - Vamos superar; pode não ser fácil agora, só precisamos de tempo. Nenhum de nós quer esquecer o Todoroki, mas o fim de relacionamentos faz parte da vida. - Obrigado… - Izuku disse timidamente. - Vocês têm razão. Uraraka assentiu. - Não fique remoendo isso, está bem? O esverdeado concordou, mas sabia como seria difícil para ele. Dias se tornaram semanas e, apesar de até Yaoyorozu e Jirou já terem superado os acontecimentos com o Todoroki, Izuku continuava remoendo; era seu amigo, afinal. Sua preocupação estava aparente, e Katsuki teve de se esforçar para lhe fazer companhia e nunca deixava nada lhe faltar na tentativa de fazê-lo esquecer, fosse um ombro amigo ou lhe presentear com uma refeição, fazendo questão de estar sempre ao seu lado para ocupar sua mente com outras coisas, com isso, foi construindo mais afinidade com o esverdeado e este andou se dando conta de algo. O casal estava deitado na cama de Katsuki após fazer amor, se abraçando já cansados depois de todo aquele “exercício” e prontos para dormir, mas Izuku tinha a cabeça em outro lugar. Sua mente inquieta se lembrou do dia do casamento dos Shimura e como Kacchan havia dito que seria capaz de cruzar o oceano e começar uma nova vida só para que pudessem se casar, andou pensando também em tudo o que o loiro havia feito por ele desde que começaram a namorar; podia imaginar estar indo rápido demais, mas os sinais eram claros. - Kacchan… está acordado? - Hum? - O loiro resmungou em resposta. - Sabe, eu… queria conversar sobre uma coisa com você. - Comentou tímido. Katsuki se virou para ele e abriu os olhos com dificuldade. - Não pode esperar até amanhã? - Falou grogue. - Não, isso não pode esperar mais. Vendo que era um assunto sério, o íncubo se virou de lado e deu completa atenção ao namorado. - O que foi, Izu? - Perguntou preocupado. - Sabe, eu… só estive pensando… Lembra o que disse no casamento do senhor Shimura? - Sobre o quê? - Sobre… estar disposto a mudar de país para se casar comigo? Katsuki arregalou os olhos e sorriu de leve. - É claro… estou disposto a qualquer coisa por você… por quê? Você quer-? - Não. - O esverdeado interrompeu. - Não acho que seja realmente necessário, contanto que fiquemos juntos. - Bom… o que quer dizer, então? Izuku respirou fundo, uniu coragem e, finalmente, abriu a boca. - O que acha de morarmos juntos? - Morar juntos? - O cupido sorriu. - É… - Izuku confirmou tímido. Katsuki estava extasiado, já pensava nisso há um tempo, só não sabia como pedir. Estava prestes a concordar quando algo lhe veio à mente e seu sorriso se desfez. - Oh… bem, erm… - Você não quer? O cupido fitou os olhos decepcionados do namorado com dor. - É claro que eu quero. - Disse com toda a sinceridade. - Então qual é o problema? Katsuki suspirou inaudível. - Lembra daquele segredo que eu mencionei…? Eu prometi te contar. Izuku assentiu. - Bom… acho que agora é a hora. - Anunciou o cupido. O pequeno queria confiar no namorado, mas este parecia hesitante, havia alguma coisa errada. - Kacchan… o que quer me contar? - Perguntou preocupado. O íncubo negou com a cabeça. - Não é o que está pensando, é só como eu nasci, não tem como mudar isso… - Hã…? Katsuki respirou fundo com o coração batendo a mil. - Olha, eu só quero que entenda… não importa o que eu seja, eu te amo de verdade, está bem? Nada vai mudar isso, só… por favor, não se apavore. - Cerrou os olhos com dor. Apesar do que acaba de dizer, Izuku já estava assustado com o rumo da conversa; não fazia ideia do que poderia ser esse segredo que estava guardando e sentia-se confuso com o que estava tentando dizer. O esverdeado tentou alcançar o namorado quando este se moveu para levantar, mas Katsuki simplesmente se afastou em direção ao interruptor e o ligou. - O que está fazendo? - Izuku indagou com cautela. - Preciso te mostrar uma coisa. O sardento franziu o cenho e observou enquanto a forma daquele que conhece como Kacchan foi se transformando num ser monstruoso com asas, chifres e um r**o; esperava que um cheiro de enxofre tomasse conta do quarto, ao invés disso, sentiu um aroma afrodisíaco que parecia atiçá-lo, mas estava muito apavorado para pensar nisso. O íncubo, por sua vez, fitava o chão envergonhado, não tinha coragem de levantar os olhos e descobrir a reação de Izuku; assim que o fez, viu seu rosto contorcido de terror e os fechou com dor. - Não se apavore… - Pediu baixo. As palavras não se formavam na boca do esverdeado; pensou em sair correndo, mas aquela forma demoníaca estava bem ao lado da porta. Tentou então controlar a respiração e se pronunciar. - O q-? Quem é você? - Perguntou trêmulo. - Eu sou o Katsuki… - Disse o íncubo obviamente. - O Kacchan, lembra? - O q-que é você? - Indagou puxando as cobertas mais para perto de si. - Esta é a verdade, Izuku… eu sou um demônio… Um demônio s****l, para ser mais exato. O pequeno exalou chocado, já ouvira sobre esse tipo de demônio antes e, se recordava bem, eles se alimentavam da energia vital humana através de… - Ka- Bakugou… - O nome chamado pegou Katsuki desprevenido. - Você… Por acaso… todo esse tempo, você-? - Sei o que está pensando, mas não é bem assim! - O íncubo interrompeu de imediato. - Temos uma conexão especial… - Como assim? Katsuki umedeceu os lábios com sua língua bifurcada. - É uma longa história, mas permita-me explicar. O cupido sentou na beira da cama com cautela para não assustá-lo ainda mais e lhe contou a história que sempre ouvia de sua mãe à noite, explicou também o fato de ser um cupido e como descobriu que Izuku é sua alma gêmea. O esverdeado ouviu tudo calado até ele terminar. - Espera, deixa ver se eu entendi… você é um demônio… mas, ainda assim, é o cupido? - Os humanos distorceram essa informação, cupidos nunca foram anjos. - Katsuki deu de ombros. Izuku pausou para digerir a informação antes de partir à próxima pergunta. - E eu sou… sua alma gêmea? - Ao que tudo indica, sim. - Certo, mas… além disso, como posso saber se não estava me usando para sugar minha energia vital? - Por causa do nosso vínculo não precisamos nos preocupar com isso; como você é minha alma gêmea, podemos t*****r sem que isso te prejudique. Izuku suspirou com uma mão na testa. - Imagino que seja muita informação de uma vez só… - Comentou Katsuki. - É… só… por quê está me contando isso agora? - Como me pediu para morarmos juntos achei que seria mais justo, além do quê eu não posso manter minha forma humana por muito tempo sem que isso drene minha energia vital, você descobriria cedo ou tarde… - Ah… - Foi tudo o que o esverdeado conseguiu dizer. - Espero que a oferta ainda esteja de pé… Izuku fitou-o com remorso. - Está, sim… mas preciso de tempo para aceitar, bom… tudo isso. - Apontou para Katsuki. - Eu entendo… Seus olhos esmeralda se voltaram pro colchão abaixo, não ia negar que estava ficando com um pouco de pena, afinal não era sua culpa ter nascido assim. - Ei, Kacchan… quer voltar pra cama? Eu tenho mais perguntas. Katsuki arregalou os olhos em sua direção e obedeceu, apagando a luz e voltando à sua forma humana para deitar ao seu lado. - O que quer me perguntar? - Bom… pelo que eu entendi, você é imortal, certo? - Na verdade, semi imortal. Nossa longevidade diminui com o passar das gerações por conta dos genes humanos; especula-se que diminua até alcançar a longevidade humana. - Entendi… e… quantos anos você tem agora? - Em anos humanos, em torno de setenta. - Ah… então, você deve ter tido outras almas gêmeas, certo? - Na verdade, você é o primeiro. Izuku arregalou os olhos à informação, alívio preencheu seu peito. - Que bom. - Não precisa se preocupar com isso, Izu, você sempre vai ser minha alma gêmea. - Como assim…? Vai me tornar imortal? - Não, isso não é permitido, ainda mais que você é um homem e eu preciso de filhos para levar a tarefa de cupido adiante. - Hã…? Calma, não estou entendendo. Isso significa que o ciclo se encerra aqui? - Não, vamos ter outras oportunidades. - Espera, espera, espera! - Izuku sentou na cama e chacoalhou as mãos confuso. - Isso é biologicamente impossível! A não ser que você possa me engravidar por algum meio sobrenatural, mas teríamos que esconder- - Você fala demais, às vezes. - Katsuki segurou suas bochechas sardentas para silenciá-lo. - Desculpe… pode me explicar melhor, então? - Você acredita em reencarnação? - Hum…. nunca tive opinião formada sobre o assunto. - Esta é a resposta. Não podemos ter nossos filhos agora porque você é um homem, mas vamos ter essa chance quando reencarnar uma mulher. - “Filhos”? - Izuku indagou curioso. Katsuki assentiu. - Quero mais de um, mas isso não importa agora. Eu sempre fui contra a ideia de ter uma alma gêmea porque nenhum casal que uni deu certo, então deixei de acreditar no amor, mas você mudou minha opinião sobre isso e, agora que provei do seu amor, não vou deixar de procurá-lo em cada encarnação. - Disse acariciando seus cachos verdes atrás da orelha. - Kacchan… - Izuku pronunciou e deixou-o se aproximar para um beijo. - Eu também te amo. - Vamos nos deitar, está ficando tarde. - Katsuki puxou-o para se deitar junto dele, abraçando-o no processo. Apesar de ainda se sentir desconfiado depois daquela “revelação”, Izuku se entregou ao gesto, Kacchan ainda era Kacchan, afinal. Na manhã seguinte, o esverdeado sentiu mãos fortes chacoalhando-o até acordar e a voz grave de seu amante o chamou. - Izu…? Izuuu. Suas pálpebras estremeceram até abrir, revelando seu par de olhos esmeralda; Izuku se virou na cama e fitou as orbes escarlate que o encaravam intensamente. - Kacchan…? O que foi? - Indagou grogue, esfregando os olhos para espantar o sono. - Desculpe te acordar tão cedo, mas eu fiz o café da manhã e ainda temos muito o que conversar antes de eu sair. O sardento fitou-o confuso até memórias da noite passada voltarem à tona; então não foi um sonho. - Posso tomar banho primeiro? - Pediu o pequeno. - Tudo bem, mas seja rápido. Katsuki se retirou enquanto Izuku ia ao banheiro, pouco depois, encontrou o loiro o esperando na mesa de café da manhã. Izuku se aproximou devagar e sentou à sua frente com cautela. - Então… ontem à noite… - Katsuki comentou acanhado. - É… - Sei que deve ser muito surreal para você… mas devo mencionar que outras pessoas do seu entorno são… bom… como eu. Izuku encarou-o incrédulo. - O quê…? - Não quero sobrecarregá-lo com essa informação, mas meus amigos também são súcubos… e o Shouto, também. O esverdeado arregalou os olhos à informação. - O principal motivo para ele ter se afastado foi por ter se apaixonado pela Yaoyorozu e não poder ficar junto dela, pois isso significaria ter de assisti-la definhando até a morte… - Continuou o cupido. - Só estava tentando poupá-la e, claro, ainda não pôde superar. - Por que está me contando isso? - Não queria que o odiasse por não saber o verdadeiro motivo. Izuku fez um momento de silêncio. - Obrigado, Kacchan, mas eu nunca odiei o Todoroki. - Claro… só quis garantir. O pequeno não respondeu, apenas se serviu e tomaram o café da manhã em silêncio; não queria descontar em Kacchan, não tinha culpa de guardar segredo, aliás tinha razão, mas era tanta coisa para digerir de uma só vez que se sentia sobrecarregado. Após a refeição, Izuku ajudou com a louça como de costume. - Ei, hã… quer que eu te leve para casa, antes de ir trabalhar? - Sugeriu Bakugou ao terminarem. - Não, eu pego o metrô. - Izuku respondeu devagar. - Tem certeza? Eu posso- - Kacchan, aconteceu muita coisa de repente e eu preciso de um tempo sozinho para pensar! - Exclamou o menor. - Claro… eu entendo. O íncubo acariciou seus cachos verdes com um impulso de dar-lhe um beijo de despedida, mas decidiu o contrário e pigarreou, soltando seu cabelo. - Eu… tenho que sair agora… Pode me ligar, quando tiver se decidido. - Claro. Saíram do apartamento em silêncio, sem beijo de despedida, sem mais nenhuma troca de palavras, m*l se olharam direito, apenas desceram do elevador e partiram caminhos. O dia de trabalho se arrastou para Katsuki quase como tortura, estava abatido após aquela conversa com Midoriya e era muito aparente, obviamente seu amigo percebeu de imediato e finalmente uniu coragem para comentar. - Ei, Katsuki… pode me dizer o que está te incomodando? - Perguntou Kirishima após entregar uns documentos em seu escritório. - Não é nada demais. - Suspirou o cupido. - Qual é… - Insistiu o ruivo. É claro que algo estava errado e Eijirou percebia bem isso, o conhecia a vida inteira. - O Izuku me pediu para morarmos juntos. O ruivo fitou-o curioso. - E…? Isso é bom, não é? - Talvez, mas foi por isso que tive de contar a verdade. - Completou com uma mão na testa. Kirishima encarou-o espantado. - Ah, Katsuki… - Sei o que está pensando, mas não tinha outro jeito. - Eu sei… eu entendo. - Não sei mais o que fazer, Ei… não cheguei até aqui para ter sido tudo em vão. - Fique calmo, ainda não sabe se o Midoriya vai aceitar, ele é bem compreensível, afinal. - Espero que desta vez esteja certo. - Sim, só não fique antecipando o pior, está bem? Com um olhar solidário em sua direção, Kirishima se retirou em silêncio. Na empresa Reborn, o próprio Izuku estava perdido em seus pensamentos em meio a uma ida ao banheiro; entendia a situação de Kacchan, apesar de não saber como se sentir sobre viver ao lado de quem não conhecia realmente, ao final das contas. Suspirou frustrado e deu descarga no mictório, se deparando com Shimura, ao se virar. - Ah, olá, Midoriya! Não sabia que estava aqui. - Seu chefe sorriu simpático. - Ah, oi, senhor Shimura… - Disse devagar ao se afastar para lavar as mãos. Tenko arqueou uma sobrancelha em sua direção. - Sua cabeça parece fora do lugar hoje, Midoriya. - Disse indo em direção ao mictório. - Não quero atrapalhar. - Vamos, pode confiar em mim. Izuku fechou o registro da torneira e pausou. - É o… Katsuki. - Vocês brigaram? - Tenko indagou preocupado. - Não… é só que… talvez ele não seja como eu imaginei. - Confessou alcançando uma toalha. - Como assim? - Você já viveu com alguém completamente diferente do que imaginou que fosse? - Ah, já entendi… - Tenko deu descarga e se aproximou para lavar as mãos. - Então ele te contou. Izuku gelou. - Do que está falando, senhor? - Sua verdadeira identidade. Ele é como a Himiko, certo? O esverdeado exalou chocado. - Quer dizer que a To- senhora Shimura também é… uma súcubo? - Sussurrou aquela última parte. Tenko riu do fundo da garganta e fechou o registro. - Então ele te contou. Izuku pausou para digerir a informação enquanto Tenko secava as mãos com uma toalha. - E… como o senhor lidou com isso? - Quando soube da existência deles pela primeira vez, devo confessar que não foi fácil… minha história com essa espécie é mais extensa do que pode parecer. Sabe, a minha irmã mais velha, Hana, também é uma alma gêmea. - Mesmo? - É… Quando descobri, não consegui aceitar sua união com um íncubo, ainda mais sabendo que seus filhos teriam de morar no inferno e o primogênito seria treinado para carregar a função do pai. Izuku arregalou os olhos. - Como? - Indagou chocado. - Ah… ele não te contou essa parte? Bom, realmente é muita coisa para compreender. - E… bom, como o senhor conseguiu aceitar? - Foi difícil, como deve imaginar. Até hoje eu não vejo a minha irmã, apesar de ter aprendido a aceitar, ainda mais por ser uma alma gêmea eu mesmo; acho que você só entende quando sente na própria pele. - E como sabia do Kacchan? - Perguntou devagar. Tenko sorriu sugestivo. - Não foi a história mais agradável… o Bakugou tentou flertar com minha irmã uma vez, foi aí que seu marido descobriu que ele era um íncubo e tentou o atacar… Obviamente tivemos um relacionamento conturbado no começo devido à sua natureza mas, conforme fomos nos conhecendo, percebi que, no fundo, eles não são tão diferentes de nós. Izuku abaixou a cabeça, perdido em seus devaneios. - Não precisa se preocupar tanto, Midoriya, ele não tem culpa de ter nascido assim. - Raciocinou Tenko. - Eu sei… - É bom que sabe, espero que se resolva logo com o “Kacchan”. - Provocou ele. - É- bom…! Obrigado, senhor. - Não tem problema, sei como é difícil. Agora vamos voltar antes que sintam nossa falta. Ambos se retiraram em direção ao seu espaço de trabalho; Shimura tinha razão e Izuku sabia de tudo aquilo que lhe disse, realmente não tinha a quem culpar.
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