capítulo 7

1616 Words
No dia seguinte, Erick descobriu que o silêncio podia ser mais c***l do que a ressaca. Estava sentado na varanda, olhando para fora. A cidade seguia viva — buzinas, vozes, passos apressados —, mas ali tudo parecia suspenso. O copo vazio ao lado era prova suficiente de que ele tinha tentado. Duas doses. Talvez três. O suficiente para qualquer outro dia. Não funcionou. O álcool desceu sem resistência, sem luta, sem aquele calor bruto que costumava anestesiar tudo. Nenhuma névoa. Nenhuma fuga. Apenas o gosto seco e a constatação irritante de que algo estava diferente. Erick passou a mão pelo rosto, pressionando os dedos contra os olhos fechados. Droga. O problema não era o beijo. Era o depois. A lembrança vinha sem pedir licença, sempre do mesmo jeito: fragmentada, sensorial, inconveniente. Não o corpo dela inteiro — apenas detalhes. O choque inicial. A força com que os dedos de Marina haviam agarrado seu blazer. Não sedução. Medo. A boca trêmula contra a dele, quente demais para um gesto tão desesperado. Ele se lembrava do instante exato em que quase correspondeu. Esse era o ponto que o incomodava. Não fora desejo simples. Não fora carência. Fora outra coisa. Algo mais fundo. Mais perigoso. Erick abriu os olhos e encarou a cidade agitada. Pensou em descer. Pensou em sair para algum lugar. Pensou em qualquer coisa que o afastasse daquela memória insistente. Mas a mente voltava. Sempre voltava. Ao silêncio pesado depois que ela se afastou. Ao pedido de desculpas atropelado. Ao jeito como Marina evitara tocá-lo novamente, como se tivesse ultrapassado um limite invisível — e soubesse disso. Ela não tinha olhado para ele como quem espera algo. Tinha olhado como quem foge. E ainda assim, naquele segundo roubado, Erick tinha sentido… presença. Não vazio. Não entorpecimento. Presença. O maxilar dele se contraiu. — Não — murmurou para si mesmo, a voz baixa ecoando. — Não começa. Ele não precisava de mais uma coisa para perder o controle. Não precisava de uma mulher ligada a um passado que cheirava a problema, a família errada, a nomes que ele m*l conhecia. Não precisava de alguém que despertasse sensações que ele vinha tentando enterrar há anos. Erick deixou a cabeça cair contra o encosto da poltrona, respirando fundo. O pior era admitir que não tinha sido bom. Tinha sido verdadeiro. E verdade era algo que ele evitava com a mesma disciplina com que evitava espelhos sóbrios demais. Nos dias seguintes, ele percebeu pequenas mudanças — todas irritantes. O copo permanecia mais tempo cheio. As noites pareciam longas demais. O sono vinha picotado, interrompido por imagens sem contexto: luzes coloridas, um perfume limpo no meio da fumaça, olhos arregalados demais para serem apenas surpresa. Ele não procurou Marina. Não perguntou por ela. Não quis saber. Mas passou a notar ausências que antes não existiam. Na terceira noite, Erick caminhou até a janela, abriu-a, deixou o ar frio da madrugada invadir o espaço. Precisava sentir algo físico, concreto, que não estivesse só na cabeça. Encostou-se ali, observando a rua. Foi quando a ideia — indesejada, persistente — se formou com clareza desconfortável: Se Marina tivesse beijado qualquer outro homem naquela noite, ele teria esquecido. Se tivesse sido desejo, ele teria descartado. Mas não foi. Ela tinha escolhido justamente ele para se esconder. E, de algum modo inexplicável, isso tinha atravessado todas as defesas que ele construiu com álcool, cinismo e distância. Erick fechou os olhos outra vez, respirando fundo. — m***a… — sussurrou. Não havia promessa ali. Não havia romance. Havia risco. E, pela primeira vez em muito tempo, Erick se deu conta de que não estava com medo de cair. Estava com medo de sentir vontade de ficar em pé. E isso, ele sabia, era o começo de algo que não podia controlar. Dias depois, O salão parecia respirar luxo. Tecidos drapeados caíam do teto como cascatas de seda, e a luz quente dourava tudo com uma elegância quase intimidadora. Nicole Hastings tinha bom gosto — disso ninguém jamais duvidara. O lançamento de sua nova coleção reunia empresários, influenciadores, designers, jornalistas… e, para o azar do destino — ou do universo, que às vezes parecia brincar —, também reunia memórias que Marina não queria enfrentar. Ela ajeitou o cabelo atrás da orelha ao atravessar a entrada. Nicole a recebeu com um abraço apertado, cheio de afeto verdadeiro. — Você veio! Eu sabia que não ia me deixar na mão. — sorriu. — Claro que não. — Marina retribuiu, mais tensa do que gostaria. — Seu trabalho merece o mundo. E merecia. Nicole era uma das poucas amizades que sobreviveram ao período sombrio do antigo casamento de Marina. Uma das poucas que permaneceram, mesmo quando ela tentou desaparecer. A conversa seguiu leve enquanto caminhavam para dentro. Marina sentia-se relativamente protegida pelo ambiente: música suave, perfume floral, vozes misturadas… tudo funcionava como uma camada social segura. Até Nicole comentar, distraída: — Ah, o amigo que te falei está por aqui. Chegou com o Edward mais cedo, devem estar perto do bar. Mas deixa pra lá! Vem ver o painel principal. Quando Marina ergueu o olhar, seus passos simplesmente… pararam. Ali, perto do bar, estava ele. Erick. Terno escuro, postura firme, aquele ar de cansaço elegante de quem passara a semana inteira se segurando para não explodir. Conversava com Edward, mas parecia distante — como alguém que não queria estar ali, embora sustentasse a própria presença com disciplina quase c***l. Então Erick virou o rosto. Os olhos dos dois se encontraram. Foi um segundo. Um só. Mas Marina perdeu o ar. O salão continuou existindo — aplausos, risos, música —, mas tudo pareceu ficar atrás de uma parede de vidro. Erick não tentou disfarçar o impacto. Algo atravessou o olhar dele: surpresa, tensão… e reconhecimento. Não do rosto dela. Da noite. Do momento. O coração de Marina disparou. As mãos esfriaram. O instinto de fuga pulsou forte. Quando finalmente pensou em recuar, Nicole já a puxava pelo braço, sorridente, sem notar nada. — Vem, quero te apresentar o Erick, amigo de infância do Edward. Você vai adorar ele. Marina congelou por dentro. — N-Nicole… — tentou avisar, a voz prestes a trair sua ansiedade. Tarde demais. Os saltos ecoaram pelo salão enquanto eram conduzidas até eles. Erick percebeu. Endireitou a postura. A expressão mudou — não para antipatia, não para charme — mas para controle absoluto. Fechou-se como quem se prepara para algo inevitável. Nicole abriu os braços, radiante: — Erick! Essa é a Marina. Ela é nossa… Não terminou. Porque o olhar dele sobre Marina não era o de um desconhecido sendo apresentado. Era profundo, tenso, carregado de algo que Nicole não soube nomear — mas sentiu. Marina engoliu em seco. Erick falou primeiro. A voz baixa, medida, como quem teme o que pode escapar se não pesar cada palavra: — Marina Thompson. Ela respondeu com igual contenção: — Erick Vegas. Nicole olhou de um para o outro, intrigada. — Vocês… já se conheciam? O silêncio que se seguiu foi fino como um fio prestes a se romper. Edward arqueou as sobrancelhas ao lado. — Cara… que p***a tá acontecendo? Erick não ouviu. Ou não se permitiu ouvir. Porque, naquele segundo, percebeu algo que o desestabilizou ainda mais do que o beijo, do que o pânico dela, do que a própria abstinência: Marina pertencia àquele círculo. Ao único círculo que ele ainda respeitava. Ao único grupo social onde não podia — não queria — criar problemas. O destino não era tão criativo. Aquilo era intencional. Ele saiu do próprio transe e, com uma calma que só quem tem um furacão preso dentro do peito consegue sustentar, disse: — Nos conhecemos… recentemente. O olhar dele encontrou o dela por um segundo pequeno demais para o mundo perceber — e grande demais para qualquer um dos dois ignorar. Nicole sorriu, satisfeita. — Ótimo! Vocês podem conversar um pouco enquanto eu resolvo um detalhe com o fotógrafo. Já volto! — E puxou Edward consigo. Eles desapareceram na multidão. O ar mudou de densidade. Assim que ficaram a sós, Erick deu um passo atrás — não por medo, mas como se precisasse se conter fisicamente para não avançar. Ou fugir. Marina sentiu a garganta fechar. — Eu… — começou, mas a voz falhou. — Eu não fazia ideia de que você conhecia os Hastings. Erick desviou o olhar por menos de um segundo. Foi o suficiente para ela perceber: aquilo era verdade… e não era ao mesmo tempo. — Eu não fazia ideia de que você era… parte disso. — disse ele, evitando nomes e significados demais. Silêncio. Pesado. Incômodo. Quente. As luzes douradas refletiam nos olhos dela e, por um instante, Erick precisou respirar fundo, como se empurrasse algo para muito longe dentro de si. Então, com a voz baixa — firme demais para ser casual —, disse: — Esse mundo é pequeno demais… — os olhos dele não desgrudaram dos dela — …pra gente fingir que aquela noite não aconteceu. O coração de Marina despencou como uma pedra. O chão pareceu recuar um pouco. E, naquele exato instante, com apenas uma frase, tudo o que estava fora do lugar caiu em um alinhamento perigoso. A história mudou de direção. Os dois sentiram. E nenhum dos dois tinha mais como voltar atrás. A conversa terminou antes mesmo de existir. Duas frases, um silêncio áspero, um desvio de olhar — e Marina se afastou como quem foge de algo. Talvez dele. Talvez de si mesma. Talvez dos dois. Erick não tentou impedir. Só voltou a respirar quando ela sumiu completamente. O peito permaneceu duro, preso, tentando conter o que quer que tivesse se mexido dentro dele no instante em que ela reaparecera.
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