capítulo 1
Era quase sete da manhã quando Erick chegou ao hospital com uma expressão fechada, daquelas que afastavam qualquer tentativa de conversa. O semblante carregado denunciava mais do que uma noite m*l dormida — ele havia bebido além da conta outra vez. O silêncio tornara-se sua companhia mais fiel, e apenas o trabalho conseguia arrancá-lo, ainda que por poucas horas, daquela bolha sufocante que ele mesmo construíra.
Mesmo assim, sua mente nunca lhe dava trégua.
Não havia um único dia em que não pensasse nela — a mulher que fora o amor de sua vida e que agora se tornara a principal responsável por aquela existência vazia e dolorosa.
— Sou mesmo uma m***a… — murmurou. — Quando isso vai parar? — murmurou para si mesmo.
Leves batidas na porta de sua sala o arrancaram dos pensamentos.
— Pode entrar — respondeu, a voz baixa, grossa e rouca.
A porta se abriu, revelando Gabrielle Montgomery. Tinha trinta e um anos, um metro e sessenta e cinco de altura, pele bronzeada, cabelos cacheados e olhos castanhos atentos. Não tinha um corpo atlético, mas carregava uma presença acolhedora difícil de ignorar. Esposa do diretor do hospital, era também sua amiga de longa data e companheira de inúmeras cirurgias.
Gabrielle não deixou de notar o estado lastimável de Erick — abatido, silencioso, com o olhar perdido, lembrando-lhe tristemente um cachorro sem dono.
— Doutor Vegas — começou, profissional, apesar da preocupação evidente —, aqui está o exame de colonoscopia do paciente de doze anos que deu entrada há algumas horas com fortes dores abdominais e vômitos. Acredito que se trate de uma obstrução intestinal.
Erick permanecia curvado sobre a mesa, com os cabelos longos caindo sobre o rosto, numa postura quase fetal. Gabrielle não soube dizer se ele analisava as fichas médicas empilhadas à sua frente ou se simplesmente havia adormecido ali.
— Erick? — chamou, com cuidado.
Queria perguntar o que se passava em sua cabeça, mas não teve coragem. Temia sua reação. Eles ainda eram amigos — se é que podia chamar assim. Ele m*l falava com ela ultimamente, o que a entristecia profundamente. Lembrava-se com saudade da época da faculdade, quando eram inseparáveis, quase como irmãos. Agora, via diante de si um homem amargurado, triste… quase digno de pena.
— Doutor Vegas? — insistiu.
Foi então que Erick se mexeu, erguendo-se de forma abrupta. Pegou a ficha médica das mãos dela e a analisou rapidamente.
— Trata-se mesmo de uma obstrução intestinal — disse, com a voz firme e profissional. — E há perfuração no intestino.
Ele finalmente ergueu os olhos para encará-la.
— Prepare o paciente. Vamos operá-lo imediatamente.
Sem dizer mais nada, Gabrielle deixou a sala.
Horas depois, quando a cirurgia terminou, Erick se higienizou e seguiu em direção à escadaria principal que levava ao setor de atendimentos urgentes. Seus passos eram calmos, quase mecânicos, quando a voz metálica dos alto-falantes ecoou pelo corredor:
— Doutor Erick Vegas, favor comparecer à sala da diretoria.
Ele suspirou, claramente irritado. Em vez de descer as escadas, virou-se e começou a subi-las em direção ao quarto andar, onde encontraria Estefano Montgomery, diretor interino do hospital.
Ao chegar, bateu duas vezes na porta e aguardou.
— Pode entrar — respondeu uma voz neutra.
Erick entrou e fechou a porta atrás de si.
— Queria me ver, Estefano?
— Sim. Por favor, Erick, sente-se — disse o homem carrancudo, indicando a cadeira à sua frente.
Erick obedeceu, cruzando os braços.
— Estive conversando com assistentes e colaboradores do hospital — começou Estefano, sentando-se —, e chegamos à conclusão de que você precisa tirar férias.
Erick abriu a boca para protestar, mas o diretor continuou:
— Você trabalha há dois anos seguidos sem descanso. Isso vai contra as normas trabalhistas, e o hospital não pode correr o risco de ser penalizado por exploração de trabalho.
O tom era seco, irredutível.
— Amanhã mesmo você estará oficialmente de férias, com todos os seus direitos garantidos — concluiu.
Erick conteve a raiva que subia como fogo pelo peito. Limitou-se a assentir, num gesto breve e forçado. Levantou-se sem dizer mais nada e seguiu em direção à porta, carregando consigo uma sensação sufocante de frustração e impotência.
Mal sabia ele que aquelas férias, impostas contra sua vontade, seriam o início de tudo aquilo que ele mais temia… e também do que mais precisava.
Em algum momento daquele dia exaustivo, Erick organizava papéis, fichas médicas e qualquer documento relacionado ao hospital. Precisava deixar tudo em ordem para dar início às suas indesejadas férias. Estava de costas para a porta quando Gabrielle entrou, parando a poucos centímetros do batente. Ele sequer se virou, como se não se importasse com quem acabara de chegar.
— Então você tirou férias… — disse ela, com cautela. — Fiquei muito feliz por você.
— Eu não tirei férias — respondeu, sem se virar. — Fui obrigado. Quase ameaçado.
Suspirou fundo, lutando para não rosnar. Erick amava aquele hospital. Amava o que fazia. Era a única coisa que ainda o mantinha de pé.
— Desde aquele dia eu… — começou, mas parou. Seus olhos pareciam perdidos em algum lugar que Gabrielle não conseguia alcançar. Ao vê-lo tão quebrado, sentiu o peito apertar. — Minha vida se resume a este hospital. É isso que me mantém ocupado… vivo. Mas, pelo visto, seu marido não entende isso. Não me deu sequer escolha.
A voz saiu áspera, carregada de ressentimento. Se Gabrielle não conhecesse a dor que o transformara naquele homem, talvez tivesse recuado. Em vez disso, respirou fundo, afastou o medo e se aproximou, ficando à sua frente.
— Erick, se Estefano não tivesse feito isso, você nunca faria por conta própria — disse com firmeza. — E isso poderia trazer problemas para ele e para o hospital.
— Gabrielle… — ele finalmente a encarou. — Você precisa convencê-lo a me deixar continuar trabalhando.
O tom era calmo demais para o caos que se formava por dentro.
— Eu não posso — respondeu, afastando-se até a janela, de costas para ele.
— Claro que pode — insistiu, aproximando-se. — Se existe alguém aqui capaz de convencê-lo de alguma coisa, esse alguém é…
— Fui eu quem insistiu para que ele te desse férias.
As palavras caíram como um golpe.
Erick arregalou os olhos, confuso, sentindo-se traído. Uma das poucas coisas boas que ainda restavam em sua vida fodida acabara de ser arrancada — e pela pessoa que menos esperava. Precisou se afastar, respirar, organizar os pensamentos para não gritar.
— Eu fiz isso pensando no seu bem — continuou Gabrielle. Erick fechou os olhos, tentando absorver o que ela dizia. — Olhe para você. Você não está bem. Não tem se cuidado. Está parecendo um morto-vivo… e vê-lo assim é devastador.
Ela se aproximou um pouco mais.
— Você não tinha esse direito! — ele explodiu, virando-se com os olhos carregados de raiva. — O que caralhos você acha que eu vou fazer agora, hein? Gabrielle?
— Existem tantas coisas que você pode fazer…
Ele a acompanhou com o olhar, perdido, irritado.
— É mesmo? — ironizou. — Então me ilumine com toda essa sua sabedoria.
— Você pode se cuidar melhor, se arrumar, fazer a barba de vez em quando — disse, convicta. — Conhecer novas pessoas. Você pode visitar os Hastings. Eles vivem te cobrando uma visita.
Ele sorriu com amargura.
— Essa é a sua ideia? — debochou. — Quer que eu seja um incômodo para eles?
— Erick…
— NÃO! — cortou-a, num tom que não admitia discussão. — A única coisa que eu vou fazer é beber. Até não me restar mais sanidade alguma.
Afastou-se até a janela, encarando o caos da cidade lá embaixo.
— O quê? — sussurrou Gabrielle, incrédula. — Você enlouqueceu? Quer se m***r? É isso?
Tentou se aproximar, mas ele se afastou, fazendo-a parar no meio da sala.
— Se continuar assim, você vai morrer — disse ela, a voz carregada de dor. — Você é médico, Erick. Deveria cuidar de si mesmo. Pare de agir como uma criança mimada que acabou de perder um brinquedo.
Ele a encarou com frieza. Gabrielle sustentou o olhar.
Não aguentava mais fingir que aquilo não doía. Era como assistir ao melhor amigo se afogar lentamente na bebida e no trabalho, havia dois anos, sem poder salvá-lo.
— Até quando você pretende se punir por erros que não cometeu?
— Isso não é da sua conta! — rosnou, interrompendo-a.
O silêncio que se seguiu foi pesado, quase sufocante. Erick voltou-se para a janela, rígido. Gabrielle permaneceu ao lado da mesa, observando-o, com os olhos marejados.
O celular vibrou no bolso dela. Viu o nome na tela, mas ignorou. Engoliu a dor, lançou-lhe um último olhar.
— Você pode achar que sofreu demais… que não é digno nem de tentar ser feliz — disse, dando um passo à frente. — Mas você pode fazer outras escolhas. Isso não depende de ninguém. Nunca dependeu. Depende só de você.
Erick a fitou em silêncio, por cima do ombro.
Gabrielle sorriu, triste, e virou as costas. Ao sair da sala, deixou Erick sozinho — preso aos próprios pensamentos, exatamente como sempre esteve.