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Minha Cura

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drama
rebirth/reborn
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intro-logo
Blurb

Erick Vegas construiu uma carreira impecável como cirurgião, mas falhou em salvar a própria vida emocional. Abandonado às vésperas do casamento e marcado por perdas irreparáveis, ele aprendeu a sobreviver no silêncio, no trabalho excessivo e no álcool — evitando qualquer sentimento que pudesse doer outra vez.Marina Thompson também carrega cicatrizes profundas. Herdeira de uma das maiores redes hoteleiras do país, ela aprendeu cedo que amor nem sempre significa cuidado — e que algumas feridas não deixam marcas visíveis.Quando os caminhos de Erick e Marina se cruzam, o encontro não acontece por acaso. Unidos por dores que ainda não sabem nomear, eles descobrem que a cura não é linear, nem fácil — mas possível.

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capítulo 1
Era quase sete da manhã quando Erick chegou ao hospital com uma expressão fechada, daquelas que afastavam qualquer tentativa de conversa. O semblante carregado denunciava mais do que uma noite m*l dormida — ele havia bebido além da conta outra vez. O silêncio tornara-se sua companhia mais fiel, e apenas o trabalho conseguia arrancá-lo, ainda que por poucas horas, daquela bolha sufocante que ele mesmo construíra. Mesmo assim, sua mente nunca lhe dava trégua. Não havia um único dia em que não pensasse nela — a mulher que fora o amor de sua vida e que agora se tornara a principal responsável por aquela existência vazia e dolorosa. — Sou mesmo uma m***a… — murmurou. — Quando isso vai parar? — murmurou para si mesmo. Leves batidas na porta de sua sala o arrancaram dos pensamentos. — Pode entrar — respondeu, a voz baixa, grossa e rouca. A porta se abriu, revelando Gabrielle Montgomery. Tinha trinta e um anos, um metro e sessenta e cinco de altura, pele bronzeada, cabelos cacheados e olhos castanhos atentos. Não tinha um corpo atlético, mas carregava uma presença acolhedora difícil de ignorar. Esposa do diretor do hospital, era também sua amiga de longa data e companheira de inúmeras cirurgias. Gabrielle não deixou de notar o estado lastimável de Erick — abatido, silencioso, com o olhar perdido, lembrando-lhe tristemente um cachorro sem dono. — Doutor Vegas — começou, profissional, apesar da preocupação evidente —, aqui está o exame de colonoscopia do paciente de doze anos que deu entrada há algumas horas com fortes dores abdominais e vômitos. Acredito que se trate de uma obstrução intestinal. Erick permanecia curvado sobre a mesa, com os cabelos longos caindo sobre o rosto, numa postura quase fetal. Gabrielle não soube dizer se ele analisava as fichas médicas empilhadas à sua frente ou se simplesmente havia adormecido ali. — Erick? — chamou, com cuidado. Queria perguntar o que se passava em sua cabeça, mas não teve coragem. Temia sua reação. Eles ainda eram amigos — se é que podia chamar assim. Ele m*l falava com ela ultimamente, o que a entristecia profundamente. Lembrava-se com saudade da época da faculdade, quando eram inseparáveis, quase como irmãos. Agora, via diante de si um homem amargurado, triste… quase digno de pena. — Doutor Vegas? — insistiu. Foi então que Erick se mexeu, erguendo-se de forma abrupta. Pegou a ficha médica das mãos dela e a analisou rapidamente. — Trata-se mesmo de uma obstrução intestinal — disse, com a voz firme e profissional. — E há perfuração no intestino. Ele finalmente ergueu os olhos para encará-la. — Prepare o paciente. Vamos operá-lo imediatamente. Sem dizer mais nada, Gabrielle deixou a sala. Horas depois, quando a cirurgia terminou, Erick se higienizou e seguiu em direção à escadaria principal que levava ao setor de atendimentos urgentes. Seus passos eram calmos, quase mecânicos, quando a voz metálica dos alto-falantes ecoou pelo corredor: — Doutor Erick Vegas, favor comparecer à sala da diretoria. Ele suspirou, claramente irritado. Em vez de descer as escadas, virou-se e começou a subi-las em direção ao quarto andar, onde encontraria Estefano Montgomery, diretor interino do hospital. Ao chegar, bateu duas vezes na porta e aguardou. — Pode entrar — respondeu uma voz neutra. Erick entrou e fechou a porta atrás de si. — Queria me ver, Estefano? — Sim. Por favor, Erick, sente-se — disse o homem carrancudo, indicando a cadeira à sua frente. Erick obedeceu, cruzando os braços. — Estive conversando com assistentes e colaboradores do hospital — começou Estefano, sentando-se —, e chegamos à conclusão de que você precisa tirar férias. Erick abriu a boca para protestar, mas o diretor continuou: — Você trabalha há dois anos seguidos sem descanso. Isso vai contra as normas trabalhistas, e o hospital não pode correr o risco de ser penalizado por exploração de trabalho. O tom era seco, irredutível. — Amanhã mesmo você estará oficialmente de férias, com todos os seus direitos garantidos — concluiu. Erick conteve a raiva que subia como fogo pelo peito. Limitou-se a assentir, num gesto breve e forçado. Levantou-se sem dizer mais nada e seguiu em direção à porta, carregando consigo uma sensação sufocante de frustração e impotência. Mal sabia ele que aquelas férias, impostas contra sua vontade, seriam o início de tudo aquilo que ele mais temia… e também do que mais precisava. Em algum momento daquele dia exaustivo, Erick organizava papéis, fichas médicas e qualquer documento relacionado ao hospital. Precisava deixar tudo em ordem para dar início às suas indesejadas férias. Estava de costas para a porta quando Gabrielle entrou, parando a poucos centímetros do batente. Ele sequer se virou, como se não se importasse com quem acabara de chegar. — Então você tirou férias… — disse ela, com cautela. — Fiquei muito feliz por você. — Eu não tirei férias — respondeu, sem se virar. — Fui obrigado. Quase ameaçado. Suspirou fundo, lutando para não rosnar. Erick amava aquele hospital. Amava o que fazia. Era a única coisa que ainda o mantinha de pé. — Desde aquele dia eu… — começou, mas parou. Seus olhos pareciam perdidos em algum lugar que Gabrielle não conseguia alcançar. Ao vê-lo tão quebrado, sentiu o peito apertar. — Minha vida se resume a este hospital. É isso que me mantém ocupado… vivo. Mas, pelo visto, seu marido não entende isso. Não me deu sequer escolha. A voz saiu áspera, carregada de ressentimento. Se Gabrielle não conhecesse a dor que o transformara naquele homem, talvez tivesse recuado. Em vez disso, respirou fundo, afastou o medo e se aproximou, ficando à sua frente. — Erick, se Estefano não tivesse feito isso, você nunca faria por conta própria — disse com firmeza. — E isso poderia trazer problemas para ele e para o hospital. — Gabrielle… — ele finalmente a encarou. — Você precisa convencê-lo a me deixar continuar trabalhando. O tom era calmo demais para o caos que se formava por dentro. — Eu não posso — respondeu, afastando-se até a janela, de costas para ele. — Claro que pode — insistiu, aproximando-se. — Se existe alguém aqui capaz de convencê-lo de alguma coisa, esse alguém é… — Fui eu quem insistiu para que ele te desse férias. As palavras caíram como um golpe. Erick arregalou os olhos, confuso, sentindo-se traído. Uma das poucas coisas boas que ainda restavam em sua vida fodida acabara de ser arrancada — e pela pessoa que menos esperava. Precisou se afastar, respirar, organizar os pensamentos para não gritar. — Eu fiz isso pensando no seu bem — continuou Gabrielle. Erick fechou os olhos, tentando absorver o que ela dizia. — Olhe para você. Você não está bem. Não tem se cuidado. Está parecendo um morto-vivo… e vê-lo assim é devastador. Ela se aproximou um pouco mais. — Você não tinha esse direito! — ele explodiu, virando-se com os olhos carregados de raiva. — O que caralhos você acha que eu vou fazer agora, hein? Gabrielle? — Existem tantas coisas que você pode fazer… Ele a acompanhou com o olhar, perdido, irritado. — É mesmo? — ironizou. — Então me ilumine com toda essa sua sabedoria. — Você pode se cuidar melhor, se arrumar, fazer a barba de vez em quando — disse, convicta. — Conhecer novas pessoas. Você pode visitar os Hastings. Eles vivem te cobrando uma visita. Ele sorriu com amargura. — Essa é a sua ideia? — debochou. — Quer que eu seja um incômodo para eles? — Erick… — NÃO! — cortou-a, num tom que não admitia discussão. — A única coisa que eu vou fazer é beber. Até não me restar mais sanidade alguma. Afastou-se até a janela, encarando o caos da cidade lá embaixo. — O quê? — sussurrou Gabrielle, incrédula. — Você enlouqueceu? Quer se m***r? É isso? Tentou se aproximar, mas ele se afastou, fazendo-a parar no meio da sala. — Se continuar assim, você vai morrer — disse ela, a voz carregada de dor. — Você é médico, Erick. Deveria cuidar de si mesmo. Pare de agir como uma criança mimada que acabou de perder um brinquedo. Ele a encarou com frieza. Gabrielle sustentou o olhar. Não aguentava mais fingir que aquilo não doía. Era como assistir ao melhor amigo se afogar lentamente na bebida e no trabalho, havia dois anos, sem poder salvá-lo. — Até quando você pretende se punir por erros que não cometeu? — Isso não é da sua conta! — rosnou, interrompendo-a. O silêncio que se seguiu foi pesado, quase sufocante. Erick voltou-se para a janela, rígido. Gabrielle permaneceu ao lado da mesa, observando-o, com os olhos marejados. O celular vibrou no bolso dela. Viu o nome na tela, mas ignorou. Engoliu a dor, lançou-lhe um último olhar. — Você pode achar que sofreu demais… que não é digno nem de tentar ser feliz — disse, dando um passo à frente. — Mas você pode fazer outras escolhas. Isso não depende de ninguém. Nunca dependeu. Depende só de você. Erick a fitou em silêncio, por cima do ombro. Gabrielle sorriu, triste, e virou as costas. Ao sair da sala, deixou Erick sozinho — preso aos próprios pensamentos, exatamente como sempre esteve.

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