Passava das nove da noite quando Erick parou em frente aos enormes portões da mansão herdada de seus pais. O rangido metálico ecoou quando os portões se abriram, revelando a longa alameda que levava até a casa ao final do jardim.
O que antes fora um espetáculo de beleza agora era apenas decadência silenciosa. O jardim, outrora cuidado com extremo zelo por sua falecida mãe, resumia-se a galhos secos, plantas mortas e um solo esquecido. A pintura em tons pastel da fachada havia cedido lugar a um mofo esverdeado e descascado, expondo a fria alvenaria por baixo. A mansão, com seu ar de abandono, destoava cruelmente das demais casas do bairro nobre — um contraste doloroso entre o passado de opulência e o presente sombrio.
Alessandro e Margareth certamente estariam decepcionados com ele. Erick não herdara apenas uma casa, mas também histórias, valores e expectativas que, em meio ao caos de sua própria vida, não soubera preservar.
Ele estacionou o carro e entrou no imóvel quase às escuras. A casa, antes iluminada e cheia de vida, agora exalava um silêncio pesado e misterioso. Na sala, os móveis empoeirados estavam cobertos por lençóis brancos, como corpos velados. O chão era sujo e pegajoso; as paredes, frias e manchadas de mofo. No teto, um lustre engessado sustentava teias de aranha. Apenas uma prateleira de bebidas permanecia estranhamente limpa — uma ironia c***l.
Erick largou a bolsa e o jaleco branco, já amarelado pelo tempo, sobre o sofá e subiu as escadas.
No amplo corredor do andar superior, todas as portas estavam fechadas — exceto uma: seu quarto. Era o único espaço que escapara do completo abandono. A cama estava feita; ele ainda mantinha o hábito automático de arrumá-la. O guarda-roupa, no entanto, permanecia escancarado, com roupas espalhadas pelo chão, reflexo fiel de sua mente.
Suspirou fundo, acolhendo aquela solidão estranhamente confortável. Começou a se despir para tomar um banho. Precisava esfriar a cabeça. O dia fora exaustivo e ele ainda tentava assimilar tudo. Jamais imaginara que aquele teria sido seu último dia de trabalho antes das férias.
A simples palavra o fez cerrar os dentes.
Férias.
O que faria agora? Insistiria em continuar trabalhando? Viajar?
— Não… — murmurou para si mesmo, balançando a cabeça, completamente decidido a descartar a ideia.
Deixou os pensamentos de lado e entrou no banheiro.
Diante do espelho, m*l se reconheceu. Os cabelos estavam grandes, quase tocando os ombros, e a barba parecia não ser feita havia meses. Estava decadente. Aquela imagem o levou de volta à última vez em que se encontrara naquele estado — quando se entregara ao luto pela morte dos pais.
A dor ainda era viva.
Perdê-los por causa da imprudência de um motorista bêbado, em alta velocidade, fora algo impossível de aceitar. Principalmente quando as vítimas estavam enterradas e o assassino caminhava livre, amparado por uma liberdade condicional. Seguir em frente sem o amor e o apoio deles fora devastador. Não foram poucas as vezes em que pensara em desistir de tudo: dos sonhos, da carreira… da própria vida.
E então, quando acreditou que não suportaria, Eliza surgira.
Como o sol que aquece as manhãs frias da primavera.
Ele ainda se lembrava perfeitamente do primeiro encontro, como se tivesse acontecido minutos atrás. Eliza era recém-formada em medicina quando começou o estágio no hospital onde ele trabalhava. Divertida, espontânea, com um sorriso fácil — sua amizade fora conquistada sem esforço.
Em algum momento, aquele sentimento deixou de ser apenas amizade. Mesmo quebrado, Erick escolhera amar. Amara de forma verdadeira, intensa, genuína. O que não sabia era que aquele amor se transformaria em mais uma ferida.
Só percebeu isso quando Eliza partiu seu coração.
No fim, descobrira que amara sozinho.
Mesmo após dois anos, a dor ainda persistia, empurrando-o para a solidão, fazendo-o afundar a própria vida por alguém que nunca o amara da mesma forma.
— Maldição… — murmurou, engolindo em seco.
Num acesso de raiva e frustração, socou a parede. A dor física era pequena perto do vazio que sentia. Naquele momento, Erick se sentia exatamente como a casa ao seu redor: quebrado, abandonado… e esquecido.
Depois de longos minutos com as mãos apoiadas na pia, respirando fundo, Erick afastou a franja do rosto e decidiu fazer a barba com a pouca paciência que ainda lhe restava. As lâminas do único barbeador que encontrara estavam completamente cegas, mas, no fim, o resultado ficou aceitável. O cabelo permaneceu do mesmo jeito — ele apenas o lavou com o pouco de sabonete que ainda restava.
Ao terminar o banho, pediu comida, comeu sem sequer sentir o gosto e se agarrou a uma garrafa de uísque. Bebeu até adormecer, mas nem o álcool conseguiu silenciar Eliza.
Quando acordou na manhã seguinte com o som irritante do celular, piscou repetidas vezes, incomodado pela luz que invadia o quarto pelas frestas das cortinas m*l fechadas. Fechou os olhos ao sentir o próprio corpo tremer, enquanto a dor de cabeça martelava seus sentidos. Não fazia ideia de quanto havia bebido. Estava entorpecido, com a visão turva e o corpo pesado.
Levantou-se com dificuldade do chão, onde dormira usando apenas um cobertor como colchão. O cansaço parecia colado aos ossos. A cabeça doía intensamente. Olhou ao redor até localizar o celular, que não parava de tocar.
— Erick? — ouviu a voz conhecida do outro lado da linha.
— Tudo pronto para viajar? — perguntou Gabrielle, animada demais para aquela hora.
— Co-como? — a voz rouca arranhou-lhe a garganta seca. — Do que diabos você está falando?
— Ontem você me ligou e pediu para que eu comprasse sua passagem para Los Angeles — respondeu ela, mais baixa. — Você não se lembra?
Ele lembrava apenas de ter bebido demais. O resto… precisaria de horas, talvez dias, para juntar os pedaços das besteiras que costumava fazer alcoolizado. A dor pulsante na cabeça era prova suficiente de que havia exagerado.
— Seja lá o que eu tenha dito, esqueça — resmungou. — Eu devia estar fora de mim.
Suspirou, fechando os olhos ao sentir a dor latejar ainda mais forte.
— Tarde demais, Erick — disse ela.
Ele voltou a abrir os olhos.
— Eu já comprei a passagem e reservei o hotel.
— O quê?! — sentou-se bruscamente na cama, sentindo a tontura vir com força. — Você ficou louca?
— Você bebe até perder a consciência e a louca sou eu? — rebateu, já irritada.
— Eu estou bem! — vociferou.
— Você não está nada bem, Erick. Encare os fatos. Você precisa se afastar de tudo que te arrasta para baixo.
— Isso é ridículo — resmungou.
— Ridículo é você tentar se convencer de que está bem quando claramente não está — contrapôs, exaltada.
— Cancele a viagem — disse sério, acomodando-se melhor na cama.
— Não — respondeu, firme. — Eu não vou cancelar.
Ele suspirou do outro lado da linha, claramente irritado.
— Você precisa fazer essa viagem — insistiu. — Ainda tem muita coisa para viver, muito para descobrir. Um dia, quando olhar para trás, vai perceber que foi a melhor decisão.
— Eu não acho que minha vida vai melhorar por causa de uma viagem — retrucou.
— Já chega, Erick — bufou.
Do outro lado da linha, ele ouviu um suspiro trêmulo.
— Eu não aguento mais te ver assim.
— Eu não pedi para ter pena de mim.
A declaração rude arrancou um arquejo dela.
O silêncio se estendeu por longos segundos entre os dois.
— Se você não fizer essa maldita viagem e não tratar essa bebedeira, esqueça de uma vez por todas que um dia fomos amigos — disse, por fim.
Erick permaneceu em silêncio.
— Eu não estou brincando, Erick Vegas — completou, séria. — Se você não for, acabou. Sou eu quem vai desistir da nossa amizade.
Ele engoliu em seco. O tom dela deixava claro que não havia blefe algum ali.
— O avião sai ao meio-dia — acrescentou, já decidida a encerrar a conversa. — Isso não é só sobre você, Erick. Pense nisso.
E desligou.
— d***a… — murmurou, atirando o celular de qualquer jeito sobre a cama.
Massageou as têmporas, exausto.