capítulo 3

1871 Words
Depois de longos minutos perdido em pensamentos, arrastou-se até o banheiro. Tirou as roupas e entrou debaixo do chuveiro. O choque da água gelada contra a pele quente o fez grunhir baixo, sentindo um alívio imediato. Minutos depois, saiu enrolado apenas em uma toalha na cintura. Vestiu uma calça de moletom e voltou a se deitar, encarando o teto enquanto a mente vagava sem rumo — presa entre a culpa, o cansaço e uma decisão que, gostasse ou não, estava cada vez mais próxima. As horas passaram lentamente, e Erick ainda permanecia deitado, preguiçosamente afundado na cama. Levantara-se apenas uma vez, o suficiente para tomar um comprimido contra a maldita dor de cabeça que, ao que parecia, finalmente havia cedido. Mesmo assim, sua mente continuava inquieta. Ele ainda não sabia o que fazer em relação à viagem. Não queria viajar — isso era um fato. Porém, as palavras de Gabrielle não lhe saíam da cabeça. Sabia que ela não estava brincando quando colocara a própria amizade em jogo. E, mesmo sem querer admitir, a ideia de perdê-la o incomodava mais do que qualquer outra coisa. Gabrielle era mais do que uma amiga. Era como a irmã que ele nunca tivera. Alguém em quem confiava cegamente. Fora ela quem mais se importara com ele nos últimos anos. Mesmo quando, sem perceber, ele se tornara frio e rude, ela nunca se afastara. Nunca medira distância para apoiá-lo. Pelo contrário — permanecera ali, firme, insistente, mostrando-se uma amiga verdadeira, mesmo quando ele não merecia. Ela sempre tentara fazê-lo enxergar que ele não era apenas o homem frívolo que fingia ser. Erick frequentemente se surpreendia com o tamanho do coração de Gabrielle. Parecia impossível que coubessem ali tantas pessoas queridas. Irritantemente persistente, ela era, provavelmente, a única que ainda se importava com ele. Mesmo quando ele a magoara — porque sabia que a magoara —, ela jamais o abandonara. Pensar nisso fez algo dentro dele ceder. Com um suspiro pesado, Erick finalmente tomou sua decisão: faria a viagem. Sabia que se arrependeria no instante em que colocasse os pés para fora da mansão, mas não faria aquela desfeita com Gabrielle. Não dessa vez. Não depois de ela já ter comprado a passagem. Ele não seria egoísta. Pelo menos não agora. A culpa, afinal, era toda sua. Se não tivesse bebido além da conta, nada daquilo teria acontecido. — d***a de cabeça que não serve pra nada… — murmurou, levantando-se da cama. Decidido, começou a arrumar a mala. Colocou poucas roupas, repetindo para si mesmo que voltaria em menos de duas semanas. Arrumou a cama, como fazia sempre — um hábito automático, quase uma tentativa de manter algum controle — e deixou a mansão em direção ao aeroporto. Vestia uma calça jeans azul e uma camisa cor de vinho, escolhidas sem cuidado algum. Ainda assim, estava bonito. Erick nunca fora f**o. Pelo contrário. Era alto, forte, de cabelos lisos e negros, pele clara e olhos escuros. Apesar do descuido dos últimos tempos, havia nele uma beleza crua, quase melancólica — como alguém que carregava histórias demais nos olhos. — Passageiros do voo oito dois oito com destino a Los Angeles, favor dirigir-se ao portão de embarque número dois. A voz eletrônica ecoou pelo saguão e atravessou Erick como um choque. O coração apertou no peito. Já não sabia se queria seguir adiante. Até poucas horas antes, parecera uma boa ideia — a única forma de não destruir de vez sua amizade com Gabrielle. Mas ali, cercado por desconhecidos apressados e malas rodando pelo chão, percebeu o quão insana aquela decisão realmente era. Tudo dentro dele gritava para fugir. A vontade era correr até o balcão, recuperar a mala e voltar para o único refúgio que conhecia: a mansão silenciosa, escura… vazia, mas previsível. — Que m***a, Gabrielle… — resmungou, fechando os olhos. Abaixou a cabeça, sentindo a dor percorrer todo o corpo, pulsando nas têmporas, descendo pela espinha, misturando-se ao enjoo e à ansiedade. Respirou fundo, tentando conter o impulso de desistir ali mesmo. Quando tornou a erguer o olhar, algo dentro dele havia cedido. Com passos pesados e o coração descompassado, Erick seguiu em direção ao portão de embarque. Cada passo parecia um adeus silencioso àquilo que conhecia — mesmo que fosse apenas dor. E, sem saber, atravessava não apenas um aeroporto, mas o limiar de uma mudança para a qual ainda não estava pronto. Talvez aquele não fosse seu melhor dia — e Erick tinha plena consciência disso. Estar ali já era um incômodo por si só; somado ao gosto amargo da noite anterior e à pontualidade comprometida por uma passageira atrasada, o cenário se tornava insuportável. Vinte minutos não eram nada, objetivamente. Para ele, bastavam para acionar a irritação que mantinha cuidadosamente reprimida. Inspirou fundo, pesado, como se até respirar exigisse esforço demais. Quando a mulher finalmente entrou no avião, o burburinho silencioso de reprovação percorreu a cabine. Erick ergueu o olhar apenas por hábito — e então congelou. Marina caminhava pelo corredor estreito com uma compostura quase deslocada daquele ambiente hostil. Usava roupas pretas que valorizavam o corpo esguio. A pele clara contrastava com os cabelos longos e ondulados, e os olhos castanhos permaneciam atentos, observando tudo ao redor. Havia nela uma elegância natural, discreta, difícil de ignorar. Erick percebeu-se atento demais: ao modo como ajustava a bolsa, ao gesto contido de prender uma mecha atrás da orelha. Detalhes banais. Detalhes perigosos. Aquilo não fazia sentido. Ele não reparava mais em mulheres. Não daquela forma. Não desde… Fechou a expressão antes que o pensamento se completasse. Quando Marina parou ao seu lado para conferir o número da poltrona, Erick desviou o olhar de imediato, irritado consigo mesmo. Era só cansaço, disse a si. Um reflexo químico, nada mais. Ainda assim, o desconforto aumentou ao perceber que ela se sentaria exatamente ao seu lado. — Senhor? — a voz dela o alcançou com cautela. Erick a encarou. Seus olhos negros eram fechados, frios, treinados para não revelar nada. — Me desculpa… — Marina sorriu, nervosa. — Se não for incômodo, o senhor poderia sentar-se na janela? Eu tenho muito medo de voar… ficar desse lado piora bastante. Ela m*l conseguiu concluir a frase, lançando-lhe um olhar de soslaio, claramente intimidada pela expressão austera dele. Ele não respondeu de imediato. Avaliou a situação com o mesmo distanciamento com que aprendera a avaliar tudo desde que entendia que sentimentos custavam caro demais. Além de atrasar o voo, agora queria escolher o lugar dele. — Senhorita, por favor, precisamos decolar — interveio a aeromoça, com educação firme. Marina voltou a encará-lo, apreensiva. Erick suspirou fundo. Não era a gentileza que o incomodava. Era o motivo. O impulso. Ceder por algo que ele não queria sequer nomear. Sem dizer palavra, levantou-se e trocou de lugar. — Muito obrigada — disse Marina, aliviada e constrangida, apressando-se a guardar a bagagem de mão. Ela se sentou, prendeu o cinto e soltou um suspiro trêmulo. Erick manteve o olhar fixo à frente, os músculos do rosto tensos, como se aquele pequeno gesto lhe tivesse custado mais do que parecia. Os motores roncaram, e Marina enrijeceu no mesmo instante. Erick percebeu — e detestou perceber. Marina odiava voar. Sempre odiara. Pelo menos seriam poucas horas de Houston para Los Angeles. O aviso de cintos permaneceu aceso mesmo após a decolagem. Marina olhava ao redor, inquieta, e às vezes para ele, como se buscasse alguma garantia invisível. Erick parecia irritado — ou talvez apenas tentasse ignorar o perfume doce que ela exalava, incomodando-o mais do que deveria. Ou o efeito tardio do álcool da noite anterior. Seja como fosse, sua expressão severa só aumentava o desconforto dela. Faltava cerca de uma hora para o pouso quando o inesperado aconteceu. O avião começou a balançar com mais intensidade. — O que está acontecendo? — perguntou Marina, a voz trêmula. — Está balançando muito… — Turbulência — respondeu ele, em tom baixo e direto. — O quê? — Ela se virou para ele, assustada. — Não… não… — levou a mão à boca, desviando o olhar. — Senhores passageiros, pedimos que mantenham os cintos de segurança afivelados e evitem se levantar neste momento — anunciou o piloto. — Meu Deus… — murmurou Marina, já lutando para respirar. O pânico dela chamou a atenção de Erick. Ele a observou por um instante, avaliando aquela aflição crua, desarmada. Num impulso que não soube explicar, segurou firme a mão dela. Os dedos de Marina estavam rígidos, quase cravados na poltrona. Ela o encarou imediatamente. Os olhos negros dele encontraram os dela, fixos, intensos. Erick engoliu em seco. O rosto de Marina parecia cuidadosamente desenhado; os olhos castanho-claros, cercados por cílios longos, transmitiam ao mesmo tempo fragilidade e uma sensualidade involuntária. Por um instante, ele teve dificuldade para respirar. Convenceu-se de que era apenas o perfume suave, adocicado, tão próximo. — Relaxe — disse, com uma calma que o surpreendeu. — Controle sua respiração. Inspire devagar. Expire. Manter a calma é essencial. Ele não desviou o olhar. Marina corou levemente sob aquela atenção intensa. Tentou seguir suas instruções, mas era difícil. O olhar dele desceu por um breve instante até sua boca. Lábios bem desenhados, delicados. Quando voltou a encará-la nos olhos, percebeu que eles já não refletiam medo. Como se a turbulência tivesse deixado de existir. Aquilo foi o limite. Erick soltou a mão de Marina de forma abrupta e se ajeitou na poltrona, rígido. — Desculpa — murmurou, passando a mão pelos cabelos, visivelmente incomodado consigo mesmo. — Não… eu que peço desculpas — respondeu ela, com um sorriso amarelo. — Estraguei sua viagem. Aviões… turbulências… me apavoram. — Desculpa mesmo — completou, sem graça. Ele apenas assentiu, sem olhá-la, e voltou-se para a janela. Finalmente, o avião pousou. Os passageiros se levantaram. Marina pegou sua bagagem de mão e, antes de sair, virou-se para Erick, que ainda permanecia sentado. — Muito obrigada por tudo — disse, sincera. Ele ergueu o olhar e assentiu lentamente. Por um segundo, os olhos deles se encontraram. Marina desviou primeiro, temendo se perder na imensidão escura daquele olhar. Sem olhar para trás, deixou o avião. Erick permaneceu ali por alguns segundos, imóvel. Aquilo não deveria ter significado nada — e, ainda assim, significara mais do que ele estava disposto a admitir. Por volta das quatro da tarde, chegou ao hotel no centro da cidade. O edifício grandioso, com seus trinta andares imponentes, destacava-se entre os demais. Erick atravessou a entrada elegante, quitou a hospedagem previamente reservada e seguiu até os elevadores. Minutos depois, subia rumo ao vigésimo quinto andar. O corredor era silencioso. Ele caminhou até a última porta à direita, digitou a senha de acesso e entrou. O quarto era amplo e sofisticado, com uma sacada que oferecia uma vista privilegiada da cidade. Deixou a mala ao lado da cama e foi direto para o banheiro. Despiu-se sem pressa e entrou no chuveiro, ajustando a água para uma temperatura amena. Relaxou sob o jato constante, sentindo a água escorrer pelos ombros largos. Minutos depois, vestiu uma calça de moletom e uma camisa preta. Ligou para o serviço de quarto, pediu a refeição inclusa na hospedagem e comeu em silêncio. O cansaço o venceu, e ele adormeceu sem sonhar.
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