Dois dias depois.
A manhã surgia bonita em Los Angeles, como de costume. O relógio do celular marcava oito e quinze quando Erick terminou a higiene matinal. Apenas com a toalha enrolada na cintura, caminhou até a sacada e abriu as cortinas das portas de vidro.
O sol suave lançava feixes alaranjados pelo quarto, aquecendo o ambiente de forma agradável. O ar fresco invadiu-lhe os pulmões enquanto o vento frio arrepiava sua pele. Erick suspirou fundo. Eram momentos assim que o faziam sentir-se, ainda que brevemente, renovado.
Diante do espelho, penteou os cabelos negros para trás, deixando o rosto completamente à mostra. O olhar intenso parecia ainda mais penetrante. Estava impecável, bem-vestido, com a postura rígida que refletia sua personalidade fechada, difícil de decifrar.
Após checar o relógio no pulso, saiu do quarto e chamou o elevador. As portas metálicas se abriram segundos depois, e ele entrou. O equipamento iniciou a descida silenciosa.
O elevador parou no vigésimo terceiro andar.
Assim que as portas se abriram, Erick sentiu algo estranho — quase físico — atingi-lo no peito. Seus olhos encontraram um par de olhos castanhos arregalados, que o encaravam como se tivessem visto um fantasma.
Ela.
Vestida de maneira impecável, salto alto, postura elegante, cabelos presos em um coque firme. Era a mesma mulher do avião… e, ao mesmo tempo, parecia completamente diferente. Mais confiante. Mais bonita. Mais perigosa.
— Você… — a voz dela saiu num sussurro incrédulo, antes de ganhar força. — Você!
O coração de Marina disparou, errando o ritmo dentro do peito. Nunca imaginara que voltaria a vê-lo. Muito menos ali, tão próximo. Ele estava diferente: mais alinhado, mais imponente, mas carregava a mesma expressão fechada que a havia deixado nervosa durante o voo.
— Erick — disse ele, rompendo o silêncio.
— Hã? — Ela franziu a testa, confusa.
— Meu nome — completou, em tom firme e controlado. — Erick Vegas.
— Ah… desculpa. Erick — repetiu, sentindo-se estranhamente exposta ao pronunciar o nome dele.
Ele a observou por um segundo a mais do que o necessário. Então, apontou discretamente para dentro do elevador.
— Vai entrar ou pretende ficar aí me encarando o dia inteiro?
— Não! — respondeu de imediato, o nervosismo escapando antes do bom senso.
Erick arqueou uma sobrancelha.
— Quer dizer… sim — corrigiu-se rápido, sentindo o rosto esquentar. — Eu vou entrar.
Para sua surpresa — e seu desespero —, Erick deixou escapar um breve riso pelo nariz. Um som baixo, contido, quase íntimo.
Marina entrou e parou a poucos centímetros dele.
De costas, sentia o peso do olhar de Erick percorrer-lhe o corpo com uma atenção silenciosa e perigosa. Ele notou o pescoço delicado, a curva elegante dos ombros, o vestido preto moldando suas formas de maneira indecente demais para um espaço tão pequeno.
O perfume dela — suave, feminino — misturou-se ao seu próprio aroma amadeirado.
Marina permanecia imóvel, absurdamente consciente de cada centímetro entre eles. Ele era alto, largo, ocupava espaço com facilidade. A presença dele tornava o ar mais denso, mais quente. O coração batia rápido demais, e ela não teve coragem de encará-lo.
— Não vai me dizer seu nome? — a voz dele surgiu baixa, próxima demais do ouvido dela, quebrando o silêncio opressor.
Marina engoliu em seco antes de se virar.
— Marina… Marina Thompson — respondeu, forçando um sorriso.
Quando seus olhares se encontraram, algo invisível se rompeu.
Erick sentiu o corpo reagir antes da mente. Um choque quente percorreu-lhe os músculos, deixando-o tenso. Seus olhos desceram involuntariamente até os lábios dela — cheios, levemente entreabertos. Marina percebeu e, num gesto inconsciente, umedeceu-os com a ponta da língua.
O ar pareceu desaparecer.
Ela desviou o olhar primeiro, corada, sentindo o arrepio percorrer-lhe a espinha.
Erick cerrou o maxilar.
Aquilo não podia estar acontecendo. Não agora. Não com ela.
Deu um passo para trás, criando distância como quem foge de algo perigoso demais para enfrentar.
As portas se abriram.
Ele saiu rápido, sem olhar para trás, como se permanecer mais um segundo ali fosse um erro irreversível.
Somente então Marina conseguiu respirar de verdade. Apoiou-se discretamente na parede do elevador, tentando acalmar o ritmo descompassado do próprio corpo. Aquela reação a irritava. Não fazia sentido ficar nervosa por causa de um desconhecido.
Ainda assim, algo nele a desestabilizara — e isso era perigoso.
Não depois do que vivera meses atrás.
O casamento abusivo não fora um erro pequeno; fora um alerta doloroso. Um aprendizado à força de que atração não era sinônimo de respeito. Ela não podia se dar ao luxo de errar outra vez.
Decidiu, então, que a única escolha possível era simples e definitiva: distância. Distância era p******o. E, naquele momento, p******o era tudo o que lhe restava.
Horas depois,
Erick estava parado diante de um restaurante imponente no centro de Los Angeles. A fachada elegante refletia um luxo discreto, mas ele m*l parecia notar. Vestia roupas formais e acabara de sair do Porsche preto que alugara naquela manhã de maio. Observava o prédio com tédio evidente até que, vencido pela impaciência, decidiu entrar.
Caminhou até a recepção, pronto para pedir informações, mas não foi necessário. No mesmo instante, o amigo acenou do outro lado do salão.
Edward — advogado, trinta e quatro anos, cerca de um metro e oitenta, cabelos castanhos, pele clara e impecavelmente vestido — levantou-se assim que Erick se aproximou.
— Bonito como sempre, não é, doutor Vegas? — provocou, abrindo um sorriso largo.
— Hastings — respondeu Erick no mesmo tom, sorrindo antes de ser envolvido por um abraço apertado.
— Você não muda — murmurou, divertido, tentando se soltar. — Continua grudento.
— Eu sei que você estava morrendo de saudade — brincou Edward, finalmente o liberando.
Erick sentou-se à sua frente e ergueu a mão para chamar o garçom.
— E então, como você está? — perguntou Edward, observando-o com atenção excessiva.
— Como pode ver, estou bem — respondeu, ajeitando-se na cadeira.
— Mas não foi bem isso que me disseram.
— Pelo visto, as notícias sobre mim correm rápido — ironizou. — Culpa da Gabrielle, imagino.
O sorriso não alcançou os olhos.
— Ela se preocupa com você — disse Edward.
— É… eu sei. — A resposta saiu monótona, acompanhada de um incômodo crescente, sobretudo ao perceber o olhar atento demais do amigo.
O garçom trouxe o vinho tinto sem álcool, conforme a escolha de Edward. Os pratos já haviam sido pedidos.
— Quanto tempo pretende ficar? — Edward perguntou, girando levemente a taça.
— Poucos dias. Nada mais.
— Tão rápido assim? — franziu o cenho. — Pelo que sei, te deram dois meses de férias. Por que não fica mais tempo?
Erick ponderou por um instante antes de responder:
— Não dá, Edward.
O amigo tomou mais um gole de vinho, pensativo.
— Deixe-me adivinhar… isso tem a ver com uma garota, não tem?
— Não. — Erick deu de ombros. — Não tenho ninguém. Só vim porque a Gabrielle insistiu bastante.
Pegou um dos aperitivos servidos como cortesia.
— Tá de s*******m? — Edward riu, incrédulo. — Como assim você não está pegando ninguém?
— “Pegando”? — Erick fez uma careta. — Que palavra h******l. E não, não estou “pegando” ninguém. Na verdade, não saio com ninguém há anos.
Edward quase se engasgou com o vinho.
— Anos?!
— Não tenho tempo pra isso.
— Não tem tempo? — inclinou-se sobre a mesa, sério. — Que tipo de homem não arranja tempo pra t*****r de vez em quando?
— Minha vida é basicamente feita de plantões intermináveis em um hospital caótico.
— Um desperdício de juventude e virilidade, na minha opinião.
— A vida não é só s**o. — rebateu, já irritado.
— Mas é bem melhor com ele — insistiu, recostando-se novamente.
— Você é um p********o.
— E você é um masoquista — retrucou, ajeitando a postura. — Essa castidade toda não é por causa da Eliza, é?
Erick permaneceu em silêncio. Desviou o olhar, passando a observar qualquer detalhe irrelevante do restaurante.
A verdade era que nunca cogitara refazer a vida ao lado de alguém. As lembranças de Eliza ainda o atingiam em cheio. Não havia um dia sequer em que não se recordasse daquela manhã de outono — o telefonema, o choro forçado, a mentira m*l contada de que havia se apaixonado por outro. Tudo para não se casar com ele.
Até hoje, aquelas palavras ecoavam em sua mente como um disco arranhado.
Eliza fora seu primeiro amor. A primeira paixão. A mulher que dera sentido à sua vida — e também a única capaz de destruí-lo por completo.
— Você já deveria ter esquecido essa mulher — Edward disse, exaltado. — Ela não presta. Já era casada quando praticamente te deixou plantado no altar.
Erick crispou os lábios, desviando o olhar.
— Você ainda a ama? — perguntou, mais baixo.
Ele respirou fundo.
— Eu a amava.
— Então por que nunca ficou com mais ninguém?
— Chega, Edward. — Erick o encarou. — Você não entenderia. Não faça mais esse tipo de pergunta.
— Se te faz bem bancar o masoquista… — murmurou, dando de ombros.
Erick fingiu não ouvir e agradeceu silenciosamente quando o celular do amigo vibrou, desviando a atenção.
Pouco depois, os pratos chegaram, e eles passaram a comer em silêncio.
— E a Nicole, como está? — Erick perguntou, tentando quebrar o clima pesado.
Edward levantou o olhar e sorriu de forma enigmática.
— Por que não pergunta você mesmo?
Confuso, Erick pousou os talheres e virou-se.
— Parece que você não mudou nada, Erick Vegas.
A voz feminina o fez sorrir antes mesmo de se virar completamente.
Nicole Hastings estava ali — ruiva, cabelos longos, olhos verdes, pele clara e corpo esguio. Elegante como sempre.
Ele se levantou para cumprimentá-la.
— Também fico feliz em te ver, Nicole Hastings.
— Posso me juntar a vocês? — perguntou, carismática.
— Claro, querida — respondeu Edward, puxando uma cadeira.
— Estávamos com saudades, Erick — disse ela, em um tom aveludado.
— Eu também senti falta. — Ele sorriu, sincero. — E, de certa forma, fico feliz por ter vindo.
— Achei que tivesse vindo apenas por insistência da Gabrielle — provocou Edward.
— Eduardo, qual é? — Erick reclamou.
O amigo ergueu as mãos em rendição. Nicole sorriu, observando os dois — e Erick teve a estranha sensação de que aquela visita inesperada não era exatamente uma coincidência.