O grande salão da Agência Millicent’s estava deslumbrante. Nada ali sugeria início de carreira — Nicole já era respeitada no circuito da moda, e cada coleção sua atraía mais atenção que a anterior.
O tema daquela noite misturava flores, frutas e elementos de jardim, tudo iluminado por uma tecnologia de luz que criava um efeito tridimensional suave, quase mágico. A equipe de produção se movia com precisão impecável — fotógrafos se posicionando, garçons ajustando mesas ao redor da passarela, músicos afinando instrumentos, stylists conduzindo as modelos ao camarim.
O ambiente pulsava profissionalismo e antecipação.
No camarim, Nicole tentava permanecer sentada enquanto a maquiadora finalizava seu visual. O vestido branco de seda caía como água sobre seu corpo, com uma a******a na coxa e um decote elegante que valorizava suas curvas. O cabelo ruivo solto completava o conjunto — ela estava simplesmente radiante.
Quando a maquiadora a deixou sozinha por alguns minutos, a porta se abriu repentinamente.
— Flores… para a mulher mais bela desta noite — anunciou Marina, entrando com um buquê de rosas vermelhas.
Thereza surgiu logo atrás, sorrindo.
Nicole riu, emocionada, abraçando as duas.
— Vocês são impossíveis. Não precisava!
— Toda artista merece flores antes de subir ao palco — disse Thereza com orgulho.
Nicole se deixou cair na poltrona, respirando fundo.
— Eu estou nervosa — confessou.
Marina passou a mão pelos cabelos dela, gentil.
— É normal. Mas vai dar tudo certo. Você é excepcional no que faz. — E a abraçou, transmitindo calma.
Minutos depois, já posicionada atrás da cortina da passarela com suas modelos, Nicole espiou discretamente o salão. A respiração prendeu no peito.
A plateia estava lotada. Celebridades, editores de revistas, influenciadores internacionais, estilistas renomados — todos ali para ver a coleção dela.
— Meu Deus… — sussurrou, quase sem ar. — Olha quem está aqui.
— Deixa eu ver! — Thereza se apertou ao lado dela.
Logo abriu um sorriso enorme: — Vai ser épico.
Mas Marina congelou quando ouviu Tereza murmurar:
— Aquele ali na entrada… é o Erick?
Nicole confirmou:
— É ele. Achei que não viria.
O coração de Marina deu um salto involuntário. Duas vezes.
Mesmo tentando evitá-lo, mesmo temendo encará-lo… uma parte dela queria vê-lo.
Queria muito.
— Acho melhor irmos para nossos lugares — disse Marina rápido. — Nicole precisa se concentrar.
As duas desejaram boa sorte à amiga e seguiram para a plateia.
Na plateia
Erick permanecia de pé na entrada quando Edward o encontrou.
— Cara! — disse ele, animado. — Que bom que você veio.
— Não perderia — respondeu Erick, sincero. — É importante para vocês.
Sentaram-se nas cadeiras reservadas. Erick parecia calmo por fora, mas seus olhos varriam o ambiente sem descanso, como se buscassem alguém.
E buscavam.
Logo as luzes diminuíram, e Millicent surgiu no centro da passarela. Aplausos ecoaram.
— Hoje apresentamos a nova coleção de Nicole Hastings, uma criadora que honra cada projeto com paixão e autenticidade…
O nome da marca “NH” brilhou nas luzes que se acenderam atrás dela.
A primeira modelo surgiu na passarela com um vestido azul marinho, leve e esvoaçante. Depois outra. E outra. Tecidos fluidos, cores marcantes, temas florais — a coleção era vibrante, moderna, impecável.
E quando Nicole entrou no centro da passarela, a plateia se levantou para aplaudir. Famosos, críticos, influencers — todos rendidos.
Edward olhava para ela com orgulho puro.
Nicole quase chorou.
O salão se transformou rapidamente em festa. Música alta, drinks servidos sem parar, convidados animados circulando entre mesas e lounges.
Erick, porém, parecia distante — até que a viu.
Marina.
Conversando com executivos ao lado de Thereza, segura, elegante, brilhando.
O vestido azul escuro abraçava suas curvas, a f***a na perna revelava pele na medida certa, o penteado meio preso deixava o rosto ainda mais bonito.
Havia dezenas de modelos ali. Mulheres incríveis.
Mas nenhuma existia quando Marina estava no mesmo ambiente que ele.
Nenhuma.
Marina parecia se divertir com o grupo de rapazes que conversavam próximos à pista de dança. Ria, gesticulava, inclinava a cabeça — e aquilo… irritava Erick mais do que ele gostaria de admitir. Havia algo no modo como ela sorria para eles que lhe acendia um incômodo amargo no estômago.
E, como se sentisse o peso do olhar dele, Marina virou a cabeça.
Os olhos dos dois se encontraram por uma fração de segundo — suficiente para o frio na barriga vir violento, suficiente para as lembranças daquela noite voltarem como um golpe quente, quase físico. A boca dele na sua pele. Suas mãos firmes. O corpo dele colado ao seu.
E o pior? Ela lembrou que, por baixo daquele vestido elegante, havia uma memória latejando na pele que ele marcou.
Quando percebeu que Erick começara a se aproximar, Marina desviou o olhar rápido demais. Mas isso não impediu que sentisse o calor daquele olhar queimando sua nuca.
Erick chegou até elas sem perceber a atenção que atraía. Inúmeras mulheres o acompanharam com os olhos — mas ele não viu nenhuma. Seu foco era claro.
— Erick — disse Thereza primeiro, brilhando como sempre brilhava quando ele chegava perto. Desde o aniversário de Eduardo, ela sempre demorava um segundo a mais olhando para ele. Sempre um sorriso a mais. Sempre um comentário a mais. Marina reparou, ainda que não quisesse.
Erick cumprimentou Thereza e, quando tocou a mão de Marina, notou o reflexo involuntário do corpo dela — o sobressalto suave, o ar preso. Sorriu de canto, satisfeito demais por algo tão pequeno.
— Dança comigo? — perguntou, sem rodeios.
— NÃO. — Marina respondeu rápido, gelando o ar entre eles. — Erick, eu já fui bem clara quando…
— Desculpe, senhorita Thompson — ele a interrompeu com naturalidade calma. — Eu me referia a senhorita Still.
Marina piscou, surpresa. E um incômodo quente lhe subiu pelo peito, mesmo que tentasse esconder.
— Comigo? — Thereza pareceu iluminar o salão inteiro.
— Isso mesmo. Me daria essa honra?
Ele estendeu a mão. Marina percebeu, imediatamente, o brilho incontido nos olhos da amiga — porque Thereza queria aquilo. Queria de verdade. Queria desde o dia em que o viu pela primeira vez.
— Claro! — disse ela, quase rindo como alguém que ganha algo que desejava há muito tempo.
Erick levou Thereza até a pista com um sorriso educado… mas antes de virar o rosto, lançou um olhar breve para Marina. Um olhar que dizia eu sei o que isso faz com você.
Marina ergueu o queixo, disfarçando a fisgada de ciúme com uma expressão de superioridade tão ensaiada que quase convenceu a si mesma.
Quase.
Na pista
Erick dançava com Thereza, mas seus olhos… estavam em Marina.
Thereza falava, ria, tocava seu braço com naturalidade — e Erick apenas assentia. Fingindo ouvir. Fingindo estar presente. Mas cada vez que Marina olhava para longe, ele tentava capturá-la de volta.
E capturava.
Ela tentava agir normalmente, mas seu olhar sempre traía sua intenção e se perdia nos olhos dele, fortes, fixos, penetrantes.
Minutos depois, os dois retornaram. Marina já estava na segunda taça de vinho — e o sorriso que ofereceu era educado demais para ser real.
— Marina! — disse Thereza, genuinamente radiante. — O Erick dança tão bem! Você precisa experimentar dançar com ele.
Marina devolveu o sorriso sem mostrar os dentes.
— Está exagerando — Erick comentou, divertido. — Acho que pisei no pé dela umas três vezes.
Thereza abraçou o braço dele com i********e demais. Marina sentiu o estômago despencar — lenta, dolorosamente.
Então era isso?
Ele dizia ter sentimentos por ela… e estava ali, sorrindo para outra?
A insegurança veio forte, ácida, corrosiva.
— Vou pegar bebidas pra nós — disse Thereza.
— Não precisa — adiantou Erick.
— Quero sim — disse Marina, esvaziando a taça num gole só.
Assim que Thereza se afastou, Erick deu um passo para mais perto.
— Ela é divertida, não é? — provocou.
— É sim. Um pouco bobinha às vezes. Agora, por exemplo… nem percebe que está sendo usada. — A voz dela cortou frio como vidro.
Erick franziu o cenho.
— Usada?
Ela cruzou os braços.
— O que ela diria se soubesse que você jurou sentimentos por mim… e agora está tentando seduzi-la?
Erick sorriu devagar. Um sorriso perigoso.
— Está com ciúmes, Marina?
Ela engoliu seco — e odiou que ele tivesse percebido.
— Eu? Ciúmes? Por favor.
— Está sim.
— Me poupe disso, Erick.
Ele se aproximou um passo. Ela recuou meio centímetro — e isso foi tudo que ele precisou.
— Estranho você estar tão incomodada… considerando que deixou bem claro que não queria nada comigo.
Marina sentiu o golpe no peito. Virou o rosto, irritada.
— É isso. Eu não quero nada com você.
Virou as costas e saiu rápido.
— Marina! — ele chamou.
Ela ignorou.
Thereza chegou com as bebidas, confusa.
— O que houve com ela?
— Deixa. Eu resolvo — disse Erick, indo atrás.
Ele a encontrou no camarim, apoiada na penteadeira, respirando fundo como alguém tentando não desabar.
— Então você veio se esconder aqui — disse ele, a voz baixa, quente.
Ela se virou bruscamente.
— O que está fazendo aqui? Vai embora.
— Não vim brigar. E não quero irritar você.
— Então me deixa sozinha — ela rebateu.
Mas ele não saiu.
— Eu sei que você não tem sentimentos por mim. Mas tudo que eu disse naquele dia era verdade. Cada palavra.
Marina fechou os olhos por um segundo. Perigoso. Doloroso.
— Erick, não começa… por favor.
Ele ignorou.
— Eu não consigo parar de pensar em você. Desde que te vi naquele avião… você ocupa tudo aqui — ele tocou o próprio peito.
Ela respirava como se estivesse lutando contra si mesma.
— Não quero outra pessoa. Não consigo. É você — continuou ele, a voz um fio suave e denso. — Só você.
O corpo dela perdeu a força.
Ele encostou a testa na dela. Marina tremeu.
— Erick… por favor, não faça isso.
As mãos dele desceram para a cintura dela. Ela arfou.
— Você me quer — ele murmurou. — Eu sei que quer.
Ele beijou seu pescoço. Marina deixou escapar um suspiro.
— Erick…
Ele capturou sua boca.
O beijo veio como uma explosão contida há dias. Denso, urgente, inevitável. As mãos dela envolveram a nuca dele; as dele apertaram sua cintura. Era fogo. Era vício. Era tudo que os dois tentavam negar.
Até que—
O som de vidro quebrando os separou num susto.
Thereza estava parada na porta.
Pálida.
Chocada.
A taça destruída no chão.
— Thereza! — Marina engasgou, horrorizada.
Thereza balançou a cabeça, magoada, e saiu cambaleando.
— Thereza, espera! — Marina foi atrás, mas Erick a segurou.
— Marina, calma…
Ela puxou o braço com força.
— Tá vendo o que você fez?! — ela gritou, com lágrimas nos olhos. — Eu já disse que não quero nada com você! Por que continua?
E saiu correndo.
Erick ficou.
Respirou fundo.
E socou a parede com força.
— m***a… — murmurou entre dentes, apoiando-se na penteadeira.
Ele sentou na cadeira, exausto. Ferido.
Ouvindo as palavras dela ecoarem na cabeça.