Marina percorreu o salão, desesperada, até encontrar Thereza sentada perto da passarela, com expressão vazia.
— Thereza… aquilo que você viu não significa nada.
Thereza riu — um som curto e incrédulo.
— Nada? Vocês estavam se devorando.
— Eu… eu posso explicar — Marina gaguejou.
— Explicar o quê? Que você gosta dele? — Thereza virou lentamente o rosto. — É isso?
Marina perdeu o chão. Sentou-se para não cair.
Tereza suspirou, cansada.
— Está na cara. Vocês se procuram o tempo todo. Tem gente que tem química… e pronto. Vocês têm.
Marina sentiu as lágrimas subindo. O peso de tudo esmagando seu peito.
— Você está enganada. Eu não gosto dele.
Tereza virou o rosto devagar, olhando bem dentro de seus olhos.
— Marina… desapega do seu passado. Aquele i****a do seu ex fez você acreditar que não merece nada bom. Mas merece. E você está apaixonada. Dá pra ver daqui. Então por que insiste em se punir assim? Dá uma chance para si mesma.
Marina baixou a cabeça, tremendo.
— Não posso…
— Não precisa decidir agora — Thereza disse, segurando sua mão.
Então Erick surgiu diante delas. O rosto sério. O olhar quebrado.
— Erick… — Marina tentou.
— Não se preocupe. —ele a interrompeu. — Não vou mais incomodar você com minhas besteiras.
Marina arregalou os olhos.
— Erick, eu…
— Tomei liberdades que não devia... e confundi as coisas. Não vou fingir que não te quero — porque quero. E muito. Mas é justamente por isso… que não posso obrigar você a sentir o que não sente — sua voz vacilou, mas ele continuou. — Então, a partir de hoje, está livre de mim.
Marina ficou sem ar.
— Isso é tudo. Marina. Thereza. — Ele inclinou a cabeça. — Passar bem.
E foi embora.
Marina o viu sumindo pela multidão — e o choro veio como um rompimento inevitável.
— Marina… — Thereza tocou seu braço. — Você precisa falar com ele. Não pode perdê-lo.
— Eu… não consigo — ela sussurrou, quebrada.
E saiu andando, sem forças, arrasada.
Alguns dias depois,
Marina ainda não tinha conseguido respirar desde aquela noite.
O camarim. O beijo. O choque de Thereza. A briga.
E, principalmente, as palavras de Erick — duras, contidas, quebradas.
Tudo seguia latejando dentro dela.
Ela tentou seguir adiante, enterrar o que sentia, repetir para si mesma que não era o momento.
Mas o coração não obedecia.
O passado continuava puxando-a para trás.
Phillipe ainda era uma sombra — um trauma silencioso, um medo constante.
Depois dele, amar nunca foi simples. Confiar, menos ainda.
E Erick tinha sido o primeiro a fazê-la se sentir segura outra vez.
Talvez exatamente por isso ela o afastou.
Mesmo assim, pensou nele mais do que queria admitir.
Queria vê-lo. Queria explicar. Queria dizer que estava assustada.
E que sentia — muito mais do que deveria.
Quando finalmente criou coragem, o destino foi c***l.
Ela entrou no elevador sem esperar nada — e ele estava ali.
Erick.
O coração dela saltou. Ela até sorriu, tímida, esperançosa.
Mas ele não a olhou como antes.
Seu rosto estava fechado, impassível — como se nada tivesse acontecido entre eles.
— Bom dia… — ela disse baixinho.
Ele respondeu com um aceno curto. Só isso.
Quando o elevador parou, Erick saiu rápido, quase fugindo.
A porta se fechou antes que ela conseguisse chamá-lo.
Marina ficou ali, parada, com o sorriso morrendo devagar.
O silêncio pareceu mais alto que qualquer briga.
E naquele instante algo dentro dela cedeu.
Percebeu que não conseguiria continuar naquele hotel — não enquanto cada corredor lembrasse dele, cada porta trouxesse memórias que ainda sangravam.
Respirou fundo, sentindo o peito apertar.
Sem pensar muito, tomou uma decisão silenciosa: iria para a mansão dos pais.
Precisava de distância. De segurança. De um lugar onde não precisasse fingir que estava bem.
Talvez fosse covardia.
Talvez fosse sobrevivência.
Tomou um banho quente, tentando lavar a dor que insistia em voltar.
Ainda tremia. Ainda doía. Mas precisava funcionar.
Arrumou as malas sem pressa, dobrando roupas como quem tenta organizar sentimentos que não cabiam em lugar nenhum.
Cada peça dentro da mala era uma tentativa de colocar ordem no caos.
O espelho só confirmou o cansaço: olheiras profundas, ombros tensos, dias que pareciam meses.
Mesmo assim, pegou a bolsa e as chaves.
Antes de sair, lançou um último olhar para o quarto do hotel — o mesmo lugar onde tantas vezes pensou em bater na porta dele e dizer a verdade.
Não disse.
Fechou a porta com cuidado.
Caminhou até o carro decidida a ir para a mansão dos pais, onde talvez pudesse respirar sem medo de encontrá-lo em cada esquina.
Fechou os olhos por um segundo.
Talvez fosse hora de se esconder para se reconstruir.
Mesmo que o coração ainda permanecesse onde ela deixou para trás.
Na tarde daquele mesmo dia…
Erick dobrava cuidadosamente a última camisa, colocando-a na mala aberta sobre a cama.
Viajava no dia seguinte.
Não porque estivesse ansioso para voltar — na verdade, não estava.
Simplesmente não tinha mais motivos para permanecer ali.
Se fosse honesto consigo mesmo, voltaria para casa com o coração mais devastado do que quando chegou.
Nunca imaginou reviver aquela dor — a sensação de amar sozinho.
A sensação de não ser suficiente.
Como se amar fosse sempre um erro.
E viajar até ali tivesse sido o maior deles.
Um sorriso amargo surgiu em seus lábios.
Ele foi até a sacada e apoiou as mãos no corrimão, o olhar perdido no horizonte.
Parecia… vazio.
Como alguém que já tinha desistido de esperar qualquer coisa boa da vida.
Talvez Deus tivesse sentido pena — ou talvez quisesse impedi-lo de se afundar mais — porque, naquele exato momento, o celular vibrou insistente na escrivaninha.
Ele ignorou.
O toque cessou.
Voltaram a ligar.
Erick soltou um suspiro impaciente e atendeu.
— Oi.
— Até que enfim! Achei que estivesse me ignorando — disse Edward, divertido.
— Acertou — Erick respondeu, sem humor.
— Você é mais chato do que aparenta — provocou Edward, e pela primeira vez desde o os últimos acontecimentos, Erick sorriu de verdade.
Era em momentos assim que lembrava por que ainda valia a pena ter amigos.
— A que devo a honra? — perguntou Erick, sentando-se na cama. — Não vai me dizer que já está com saudade.
— Pior que estou. Por isso mesmo venho te convidar para uma despedida em grande estilo.
Erick franziu a sobrancelha.
— Grande estilo?
— A boate Luxus.
— Nem fodendo — riu sem humor. — Viajo amanhã, você ficou louco?
— Você nem se despediu da gente.
— Você sabe que eu não gosto de despedidas.
Houve uma pausa. Daquelas cheias de intenções.
— A Marina vai estar lá — disse Edward enfim, e Erick quase sentiu o chão balançar. — Não quer se despedir dela?
— Não — Erick respondeu rápido, ríspido. — Ela deixou claro que não me quer. Não força as coisas.
— No fundo, você só está fugindo.
— Não começa — Erick rosnou.
Eduardo suspirou.
— O convite está de pé. Você sabe como chegar lá.
E desligou antes que ele respondesse.
Erick caiu de costas sobre a cama, encarando o teto.
Enquanto isso, na casa de Nicole e Edward…
Eduardo largou o celular na mesa de centro e se jogou ao lado de Nicole no sofá.
Ela ergueu os olhos do próprio telefone.
— Então? Ele vai?
— Talvez sim, talvez não.
Nicole mordeu o polegar, inquieta.
— Mas você insistiu?
Ele a encarou como se a resposta fosse óbvia.
— O que você acha?
Nicole soltou um suspiro cansado.
— Vamos tentar não ser pessimistas. Essa pode ser a última chance dele ficar com ela.
— E você? — Edward perguntou. — Como foi com a Marina?
Nicole ajeitou o cabelo, refletindo.
— Eu acho que ela vai. Ficou abalada quando contei que ele viaja amanhã. Tenho quase certeza que vai aparecer.
Eduardo cobriu o rosto com a almofada.
— Não sei por quê, mas tenho a sensação de que ele vai acabar decepcionando a gente.
Nicole levantou irritada.
— Meu Deus, Edward, você é muito pessimista.
E saiu sem dar chance para resposta.