capítulo 21

1178 Words
Quando o sol nasceu, Erick estava na sacada, completamente destruído. Uma garrafa quase vazia ao lado, o olhar perdido no horizonte que não dizia nada. Ele suspirou fundo, mas nem o calor da manhã conseguiu aquecê-lo. As lembranças da noite anterior vinham em ondas — rápidas, dolorosas, devastadoras. Parecia que tinha sido arrancado de um sonho e jogado dentro de um pesadelo em questão de segundos. — Que palhaço eu sou… — murmurou, sorrindo torto, quase insano. Talvez fosse a bebida. Talvez fosse só ele mesmo. Bebeu por mais algumas horas, anestesiando o que podia. Até alguém bater na porta, alto demais para a ressaca que martelava seu crânio. — Inferno… — rosnou, levantando-se para atender. Quando abriu a porta, sentiu a raiva subir. — Ah não. O que você quer? Não devia estar trabalhando? — cuspiu, claramente irritado demais para filtros. Edward ergueu uma sobrancelha. — Ok… bom dia pra você também. O que aconteceu pra piorar o seu humor? Ele entrou sem pedir licença, ignorando completamente a cara fechada do amigo. — Não começa, Edward. Hoje não. — Erick avisou, a voz baixa e perigosa. — Percebi — respondeu o outro, sentando no sofá. — Sua cara de ressaca grita isso. — Fala logo. O que veio fazer aqui tão cedo? — Erick estava impaciente. — Vim te chamar pro clube, mas pelo visto você não está exatamente radiante de disposição. — Que bom que percebeu. Agora vai embora. Quero ficar sozinho. Edward o encarou por um momento. — Erick… me diz o que aconteceu. Silêncio. Erick desviou o olhar. — Fala — insistiu Edward, levantando-se. — O que aconteceu? Erick soltou uma risada seca, amarga. — Eu fui do céu pro inferno em segundos. É isso. — Como assim? Do que você tá falando? — Edward se aproximou, preocupado. — Erick… você tá bem? Erick travou. Depois se afastou. — Para de olhar nos meus olhos. — resmungou, caminhando até a sacada. Edward o seguiu de longe, esperando. Só depois de longos minutos, Erick abriu a boca: — Eu disse pra Marina que estava gostando dela. E ela me rejeitou. — ele riu sem humor, sem graça, sem vida. Edward ficou mudo. Sabia que Erick estava apaixonado, mas não imaginava que Marina não retribuísse. — Eu sou um i****a, Edward. Como pude achar que ela ia me encher de carinho só porque… só porque a gente transou? — sua voz falhou, mas a raiva voltou rápido. — Ela só me usou. — Que? Como assim “transou”? Quando aconteceu? — Edward arregalou os olhos. — Explica isso direito. — Isso não importa. — Erick cortou. — Foi só s**o. Ela deixou bem claro. Eu… eu que confundi tudo. Edward apertou os lábios. Ele entendia a dor, mas precisava ser honesto. — Seja lá o que aconteceu entre vocês… dá tempo ao tempo. Marina ainda está ferida por causa do Phillipe. Aquilo destruiu ela. Não é sobre você. Erick não respondeu. Edward respirou fundo. — Vai por mim… ela sente alguma coisa por você. Só não está pronta pra admitir. — Mesmo que sinta — Erick soltou, derrotado — eu não vou ficar aqui esperando. Edward franziu o cenho. — O que isso quer dizer? — Que eu vou embora. Amanhã cedo. — Você tá fugindo? — rebateu na hora. — Só porque a mulher que você gosta não te disse “eu também” no minuto que você queria? A irritação de Erick acendeu como fogo. — O que você espera que eu faça? QUE EU A OBRIGUE A FICAR COMIGO? — Claro que não! — Edward elevou a voz. — Eu espero que você tenha paciência! — Paciência? — Erick repetiu, rindo amargo. — Ela m*l deve olhar na minha cara depois de ontem. E talvez… talvez tudo isso seja só coisa da minha cabeça mesmo. Como ela disse. O silêncio caiu pesado. Edward respirou fundo, firme: — Você não pode desistir no primeiro obstáculo. Você sabe disso melhor do que qualquer um. Se eu tivesse desistido no primeiro fora que a Nicole me deu, eu não estaria com ela hoje. O que vale a pena nunca vem fácil. Pensa nisso. Ele saiu, deixando Erick sozinho. Erick se jogou no sofá, o corpo pesado, a mente um caos. Enterrou o rosto nas mãos, os cotovelos apoiados nos joelhos. Ele não sabia o que fazer. Não sabia se queria lutar. Ou se queria desaparecer. Pela primeira vez em muito tempo… ele estava completamente perdido. Dois dias depois Dois dias haviam passado, e Erick e Marina não se cruzaram nenhuma vez desde o que acontecera entre eles. Erick fez questão de manter distância — não por falta de vontade, mas porque insistir parecia errado. Marina já estava suficientemente confusa; ele não queria pressioná-la. Mas a ausência dela o corroía. Cada hora sem vê-la era uma tortura silenciosa. Ele tentava se ocupar, tentava dormir, tentava treinar… nada adiantava. A imagem dela insistia em voltar, a voz dela, o toque dela, o gosto dela. Parecia impossível seguir em frente fingindo que nada tinha acontecido. Edward tinha razão — fugir não resolveria nada. Fugir dela, muito menos. Naquela manhã, depois de uma noite inteira encarando o teto, Erick tomou sua decisão. Não iria embora. Não daquela forma. Não sem tentar. E, pela primeira vez em dias, sentiu algo parecido com paz. Além disso, aquela noite seria importante para Nicole — e apesar de tudo, ele não perderia um evento dela. Ele sempre esteve presente, e continuaria estando. Talvez, com um pouco de sorte, veria Marina. Talvez conseguisse ao menos respirar o mesmo ar que ela. Enquanto isso, Marina… Marina se afundou em trabalho nos últimos dias. Reuniões, relatórios, visitas técnicas às unidades, aprovação de melhorias na infraestrutura — qualquer coisa para não pensar em Erick. Mas não adiantava. A confissão dele ecoava na cabeça dela sempre que o silêncio caía. E, pior, seu próprio corpo insistia em lembrá-la do que tinham vivido. Não só o s**o — que fora intenso, urgente, quase necessário — mas a forma como ele a tocou, como olhou para ela depois. Como se tivesse visto algo que ela mesma passara anos fugindo. Ela soltou um suspiro frustrado diante do espelho, enquanto escolhia o vestido para aquela noite especial. A melhor amiga prestes a apresentar mais uma coleção importante — Nicole era um fenômeno, e cada evento seu parecia maior que o anterior. Marina puxou a gola do roupão, observando o pescoço no espelho. A irritação subiu quando viu ainda uma leve vermelhidão na pele. Um maldito chupão. — Como fui imprudente… — murmurou, tocando a marca com cuidado. A lembrança veio quente, inevitável: as mãos dele em sua cintura, a boca dele descendo por sua pele com fome, ela o puxando para mais perto, ambos perdidos naquele desejo descontrolado. Fechou os olhos por um instante — não podia pensar nisso agora. Com um pouco de maquiagem, conseguiu disfarçar a mancha teimosa. Depois terminou de se arrumar, respirou fundo e pegou sua bolsa. A noite era da Nicole. Precisava estar inteira para ela.
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