Aquela noite parecia interminável. Marina continuou deitada por muito tempo, encarando o teto como se ele pudesse lhe dar alguma resposta. Mas tudo o que ela encontrava era o próprio reflexo da confusão que sentia. A cada piscada, o rosto de Erick surgia. A cada respiração, a memória do quase-beijo voltava em ondas.
O cheiro dele.
O toque no canto da boca.
O dedo dele indo aos lábios.
Aquilo destruiu qualquer chance de descanso naquela noite.
Ela fechou os olhos, mas era como assistir a um filme repetido demais — só que cada repetição esquentava mais o corpo dela.
Virou para o outro lado. Depois para o outro. Depois ficou olhando para o teto.
Nada ajudava.
O peito ardia como se ainda estivesse preso naquela cozinha, cercada pelo calor do corpo dele… e pelo risco delicioso de algo que quase aconteceu.
Marina suspirou, pesada, derrotada. Sentou na cama, esfregando o rosto.
Não ia conseguir dormir.
E sabia exatamente por quê.
O desejo apertava, confuso, proibido — e perigosamente sincero.
E então veio a culpa. A razão. O medo.
Todos misturados num nó sufocante que não a deixava respirar direito.
Erick estava ali só a passeio.
Ela m*l o conhecia.
E sua vida já estava de cabeça para baixo demais — Phillipe, o medo constante, a sensação de ser sempre um alvo.
Ela não podia se dar ao luxo de se apaixonar.
Ponto.
Mas sua mente não obedecia.
E aí… veio a lembrança da conversa com Nicole, dias atrás, na piscina da casa dos pais.
FLASHBACK — conversa com Nicole
— Marina, você já percebeu que o Erick sempre aparece quando você mais precisa? — perguntou Nicole, sentada ao lado dela na borda da piscina.
— Ele só estava na hora certa — Marina respondeu, mexendo os pés na água azul. Seu tom leve não combinava com o friozinho no estômago que sentia ao pensar nele.
Nicole riu baixinho, daquele jeito que anunciava convicção.
— Pode ser… mas eu acho que é destino. Dois corações quebrados tentando se encontrar.
Marina franziu o cenho.
— Destino? — questionou, sem saber se ria ou se fugia correndo da ideia.
— O Erick é rabugento, vive m*l-humorado, às vezes parece que vai morder alguém — Nicole disse, rolando os olhos, divertida. — Mas ele passou por muita coisa. Muita mesmo. A casca grossa veio para proteger o que sobrou ali dentro.
Marina virou o rosto devagar, capturando a expressão séria da amiga.
— Do que você tá falando?
Nicole inspirou fundo antes de continuar.
— Ele perdeu os pais muito cedo. Depois… a noiva abandonou ele na véspera do casamento.
— A voz dela suavizou. — Ele se fechou. Ficou frio. Duro. O trabalho era o único lugar onde ele parecia normal.
Marina abaixou o olhar, sentindo um aperto inesperado.
— Quanto tempo…?
— Dois anos. — Nicole respondeu. — Mas desde que você apareceu… alguma coisa nele começou a mudar. Você despertou um lado que estava morto.
Ela sorriu, gentil, firme.
— Não ignora isso, Mari. Às vezes a pessoa certa chega quando a gente menos tem condições de perceber.
— Nicole ergueu o dedo antes que Marina protestasse. — E não diga nada. Só… deixa acontecer.
Ela mergulhou logo em seguida, deixando Marina sozinha com aquele pensamento que ela não queria — mas precisava — encarar.
🌧️ DE VOLTA AO QUARTO
Marina respirou fundo, perdida entre lembranças, medo e um sentimento que parecia grande demais para ter surgido tão rápido.
Ela deitou de novo, abraçando as próprias pernas, tentando se convencer de que era só o estresse, só emoção acumulada, só vulnerabilidade.
Mas não era.
Não era nem de longe.
E foi essa descoberta — essa mistura de desejo, medo e esperança — que a fez finalmente desabar.
As lágrimas vieram silenciosas no começo.
Depois vieram com força, como se ela estivesse liberando meses de tensão, solidão, medo… e um pouco de coragem também.
Chorou até o peito doer.
Chorou pelo passado.
Chorou por Phillipe.
Chorou por Erick.
Chorou porque, pela primeira vez em muito tempo, ela queria algo — alguém — de verdade.
E isso a aterrorizava.
Quando as lágrimas finalmente cessaram, o corpo dela estava exausto demais para continuar lutando.
O sono venceu.
Mas o coração…
Esse continuou inquieto.
Como se, mesmo adormecida, ainda estivesse sentindo a sombra quente do quase-beijo dele.
A manhã chegou rápido demais.
Marina acordou com os olhos ardendo — não sabia se da noite m*l dormida, do choro, ou dos dois. Levantou devagar, como quem carrega mais peso dentro do peito do que nos braços.
Depois de uma ducha longa, deixou a toalha cair e vestiu um vestido cinza de alcinhas, simples, elegante, colado ao corpo na medida certa. Enquanto secava o cabelo na frente da penteadeira, seu reflexo parecia outro: os olhos estavam mais sérios, o rosto mais maduro… mais marcado pela noite anterior.
E então, como se sua mente tivesse vontade própria, ele apareceu.
Os olhos escuros.
O rosto perto demais.
A respiração quente.
O dedo tocando o canto dos lábios dela…
E o quase-beijo que parecia queimar até agora.
A imagem foi tão real que Marina congelou. O secador pesou em sua mão antes de ela desligá-lo e soltá-lo sobre a penteadeira, como se precisasse interromper o próprio devaneio antes que ele se tornasse perigoso demais.
— Marina! Vamos! — a voz da mãe ecoou do corredor.
Ela respirou fundo, tentando juntar seus pedaços, e saiu do quarto.
Quinze minutos depois, já estava na sala principal da mansão. Patrício estava sentado numa das poltronas, pernas cruzadas, batendo o pé com impaciência ou ansiedade — era difícil distinguir. Marina parou diante dele, com o queixo erguido e o olhar firme, o mesmo olhar que vinha usando desde que tudo desabou entre eles.
Semanas tinham passado, mas a ruptura entre pai e filha continuava ali, silenciosa, dolorosa, quase visível no ar.
— Marina, você vai continuar assim com seu pai? — perguntou Miranda, surgindo carregando uma mala pequena. O mordomo veio imediatamente pegá-la.
Patrício apenas suspirou, sem esconder o cansaço — e a culpa.
— Está tudo bem, Miranda. Eu vou esperar o tempo dela.
Marina desviou o olhar. Ela não queria discutir. Não naquele dia. Não naquele estado.
— Vocês vão mesmo me deixar no hotel? Eu posso ir sozinha — disse, tentando parecer indiferente.
— Claro que vamos — respondeu Miranda, caminhando para fora. — Só vamos te ver de novo daqui a quinze dias.
— Acho que não tenho opção, né? — Marina murmurou, seguindo atrás dela.
Patrício ficou em silêncio. Mas Marina sentiu — como sempre — o olhar dele tentando alcançá-la, tentando entender onde tinha errado e como consertar. Mas algumas feridas precisavam do próprio tempo, e aquela… aquela era uma delas.
O hotel parecia mais imponente do que de costume. Ou talvez fosse apenas Marina sentindo tudo mais forte — o peso da noite anterior, o nervosismo que apertava o peito, o pressentimento de que algo estava por vir.
Os funcionários da recepção os receberam com cordialidade impecável, mas Marina m*l percebeu. Seu olhar estava distante, inquieto.
Miranda tocou levemente seu braço.
— Tem certeza que não quer ir com a gente, filha? Seu pai planejou essa viagem pensando em nós. Em você.
Marina respirou fundo, escolhendo com cuidado as palavras.
— Não, mãe… eu preciso resolver algumas coisas.
Houve um breve silêncio. Um daqueles que dizem mais que qualquer frase.
Patrício observou a filha por alguns segundos — e percebeu.
O jeito como ela desviou os olhos, o tremor quase imperceptível na respiração… aquilo não era sobre mala, nem sobre apartamento.
Era sobre alguém.
Sobre ele.
Phillipe.
O nome não foi dito, mas estava ali entre os três, pesado como fumaça densa.
E Patrício sabia: Phillipe estava convencido de que Marina tinha algum envolvimento com Erick — e por isso não se aproximaria enquanto ele estivesse por perto.
Era uma p******o distorcida, mas era o que existia.
Patrício poderia simplesmente pôr seguranças na cola da filha, claro que poderia. Mas já imaginava a reação dela — o olhar ferido, a raiva, o discurso inflamado sobre controle e liberdade.
Marina se sentiria vigiada, infantilizada… traída.
E ele não podia perder a pouca confiança que ainda tinha com ela.
E além disso… havia aquela história.
A história de que Erick a defendera.
De que colocara Phillipe para trás.
De que não hesitara em protegê-la quando ninguém mais estava por perto.
Essa lembrança — real, concreta, incontestável — pesava mais do que qualquer plano de segurança.
Era por isso que estavam ali.
Era por isso que deixariam Marina naquele hotel, e não no apartamento sozinha.
Porque, gostassem ou não, a presença de Erick era a única barreira que Phillipe ainda não ousava atravessar.
Mesmo que Marina não quisesse admitir, aquele era o lugar mais seguro para ela no momento.
Patrício se aproximou dela com mais suavidade que o habitual.
— Querida… — ele olhou para Marina — o amigo do Eduardo… o tal do Erick… ele ainda está hospedado aqui?
Marina piscou, surpresa.
— Está. — respondeu devagar, sentindo a irritação e o nervosismo subirem pelo corpo. — O que o senhor quer com ele?
Patrício não respondeu de imediato. Apenas sinalizou para um dos funcionários.
— Em que quarto o doutor Erick Vegas está hospedado?
— Pai! — Marina deu um passo à frente, o semblante tenso. — Fala. O que o senhor quer com ele?
O funcionário se afastou, indo verificar no sistema. Patrício olhou para a filha com a seriedade de um homem que finalmente aceitava pedir ajuda.
— Antes de mais nada, quero agradecer pelo que ele fez por você — disse, voz firme, mas carregada de algo próximo à vulnerabilidade. — E também quero pedir um favor a ele. Pelo que Eduardo nos contou… vocês se tornaram bons amigos.
— Que favor? — Marina arregalou os olhos, estapeada pelo constrangimento, irritação e… outra coisa que ela não queria nomear. — O senhor está falando sério?
Patrício simplesmente a ignorou.
O funcionário voltou alguns segundos depois.
— Doutor Vegas está no vigésimo quinto andar. Quarto 404.
E antes que Marina pudesse reagir, Patrício já caminhava em direção ao elevador.
— Pai, espera! — ela chamou, andando atrás dele.
Ele virou o rosto, aguardando.
Marina parou bem diante dele. Seu tom mudou, amolecendo, quase lembrando a menina que ele costumava proteger.
— Eu vou chamá-lo. — disse, num fio de voz firme e suave ao mesmo tempo. — Por favor… espera aqui.
Um sorriso pequeno — discreto, quase tímido — surgiu no canto dos lábios de Patrício. Ele apenas assentiu.
Miranda tocou o braço do marido enquanto se sentavam no sofá curvo no centro da recepção, observando a filha entrar no elevador.
As portas fecharam lentamente.