capítulo 16

1789 Words
Aquela noite parecia interminável. Marina continuou deitada por muito tempo, encarando o teto como se ele pudesse lhe dar alguma resposta. Mas tudo o que ela encontrava era o próprio reflexo da confusão que sentia. A cada piscada, o rosto de Erick surgia. A cada respiração, a memória do quase-beijo voltava em ondas. O cheiro dele. O toque no canto da boca. O dedo dele indo aos lábios. Aquilo destruiu qualquer chance de descanso naquela noite. Ela fechou os olhos, mas era como assistir a um filme repetido demais — só que cada repetição esquentava mais o corpo dela. Virou para o outro lado. Depois para o outro. Depois ficou olhando para o teto. Nada ajudava. O peito ardia como se ainda estivesse preso naquela cozinha, cercada pelo calor do corpo dele… e pelo risco delicioso de algo que quase aconteceu. Marina suspirou, pesada, derrotada. Sentou na cama, esfregando o rosto. Não ia conseguir dormir. E sabia exatamente por quê. O desejo apertava, confuso, proibido — e perigosamente sincero. E então veio a culpa. A razão. O medo. Todos misturados num nó sufocante que não a deixava respirar direito. Erick estava ali só a passeio. Ela m*l o conhecia. E sua vida já estava de cabeça para baixo demais — Phillipe, o medo constante, a sensação de ser sempre um alvo. Ela não podia se dar ao luxo de se apaixonar. Ponto. Mas sua mente não obedecia. E aí… veio a lembrança da conversa com Nicole, dias atrás, na piscina da casa dos pais. FLASHBACK — conversa com Nicole — Marina, você já percebeu que o Erick sempre aparece quando você mais precisa? — perguntou Nicole, sentada ao lado dela na borda da piscina. — Ele só estava na hora certa — Marina respondeu, mexendo os pés na água azul. Seu tom leve não combinava com o friozinho no estômago que sentia ao pensar nele. Nicole riu baixinho, daquele jeito que anunciava convicção. — Pode ser… mas eu acho que é destino. Dois corações quebrados tentando se encontrar. Marina franziu o cenho. — Destino? — questionou, sem saber se ria ou se fugia correndo da ideia. — O Erick é rabugento, vive m*l-humorado, às vezes parece que vai morder alguém — Nicole disse, rolando os olhos, divertida. — Mas ele passou por muita coisa. Muita mesmo. A casca grossa veio para proteger o que sobrou ali dentro. Marina virou o rosto devagar, capturando a expressão séria da amiga. — Do que você tá falando? Nicole inspirou fundo antes de continuar. — Ele perdeu os pais muito cedo. Depois… a noiva abandonou ele na véspera do casamento. — A voz dela suavizou. — Ele se fechou. Ficou frio. Duro. O trabalho era o único lugar onde ele parecia normal. Marina abaixou o olhar, sentindo um aperto inesperado. — Quanto tempo…? — Dois anos. — Nicole respondeu. — Mas desde que você apareceu… alguma coisa nele começou a mudar. Você despertou um lado que estava morto. Ela sorriu, gentil, firme. — Não ignora isso, Mari. Às vezes a pessoa certa chega quando a gente menos tem condições de perceber. — Nicole ergueu o dedo antes que Marina protestasse. — E não diga nada. Só… deixa acontecer. Ela mergulhou logo em seguida, deixando Marina sozinha com aquele pensamento que ela não queria — mas precisava — encarar. 🌧️ DE VOLTA AO QUARTO Marina respirou fundo, perdida entre lembranças, medo e um sentimento que parecia grande demais para ter surgido tão rápido. Ela deitou de novo, abraçando as próprias pernas, tentando se convencer de que era só o estresse, só emoção acumulada, só vulnerabilidade. Mas não era. Não era nem de longe. E foi essa descoberta — essa mistura de desejo, medo e esperança — que a fez finalmente desabar. As lágrimas vieram silenciosas no começo. Depois vieram com força, como se ela estivesse liberando meses de tensão, solidão, medo… e um pouco de coragem também. Chorou até o peito doer. Chorou pelo passado. Chorou por Phillipe. Chorou por Erick. Chorou porque, pela primeira vez em muito tempo, ela queria algo — alguém — de verdade. E isso a aterrorizava. Quando as lágrimas finalmente cessaram, o corpo dela estava exausto demais para continuar lutando. O sono venceu. Mas o coração… Esse continuou inquieto. Como se, mesmo adormecida, ainda estivesse sentindo a sombra quente do quase-beijo dele. A manhã chegou rápido demais. Marina acordou com os olhos ardendo — não sabia se da noite m*l dormida, do choro, ou dos dois. Levantou devagar, como quem carrega mais peso dentro do peito do que nos braços. Depois de uma ducha longa, deixou a toalha cair e vestiu um vestido cinza de alcinhas, simples, elegante, colado ao corpo na medida certa. Enquanto secava o cabelo na frente da penteadeira, seu reflexo parecia outro: os olhos estavam mais sérios, o rosto mais maduro… mais marcado pela noite anterior. E então, como se sua mente tivesse vontade própria, ele apareceu. Os olhos escuros. O rosto perto demais. A respiração quente. O dedo tocando o canto dos lábios dela… E o quase-beijo que parecia queimar até agora. A imagem foi tão real que Marina congelou. O secador pesou em sua mão antes de ela desligá-lo e soltá-lo sobre a penteadeira, como se precisasse interromper o próprio devaneio antes que ele se tornasse perigoso demais. — Marina! Vamos! — a voz da mãe ecoou do corredor. Ela respirou fundo, tentando juntar seus pedaços, e saiu do quarto. Quinze minutos depois, já estava na sala principal da mansão. Patrício estava sentado numa das poltronas, pernas cruzadas, batendo o pé com impaciência ou ansiedade — era difícil distinguir. Marina parou diante dele, com o queixo erguido e o olhar firme, o mesmo olhar que vinha usando desde que tudo desabou entre eles. Semanas tinham passado, mas a ruptura entre pai e filha continuava ali, silenciosa, dolorosa, quase visível no ar. — Marina, você vai continuar assim com seu pai? — perguntou Miranda, surgindo carregando uma mala pequena. O mordomo veio imediatamente pegá-la. Patrício apenas suspirou, sem esconder o cansaço — e a culpa. — Está tudo bem, Miranda. Eu vou esperar o tempo dela. Marina desviou o olhar. Ela não queria discutir. Não naquele dia. Não naquele estado. — Vocês vão mesmo me deixar no hotel? Eu posso ir sozinha — disse, tentando parecer indiferente. — Claro que vamos — respondeu Miranda, caminhando para fora. — Só vamos te ver de novo daqui a quinze dias. — Acho que não tenho opção, né? — Marina murmurou, seguindo atrás dela. Patrício ficou em silêncio. Mas Marina sentiu — como sempre — o olhar dele tentando alcançá-la, tentando entender onde tinha errado e como consertar. Mas algumas feridas precisavam do próprio tempo, e aquela… aquela era uma delas. O hotel parecia mais imponente do que de costume. Ou talvez fosse apenas Marina sentindo tudo mais forte — o peso da noite anterior, o nervosismo que apertava o peito, o pressentimento de que algo estava por vir. Os funcionários da recepção os receberam com cordialidade impecável, mas Marina m*l percebeu. Seu olhar estava distante, inquieto. Miranda tocou levemente seu braço. — Tem certeza que não quer ir com a gente, filha? Seu pai planejou essa viagem pensando em nós. Em você. Marina respirou fundo, escolhendo com cuidado as palavras. — Não, mãe… eu preciso resolver algumas coisas. Houve um breve silêncio. Um daqueles que dizem mais que qualquer frase. Patrício observou a filha por alguns segundos — e percebeu. O jeito como ela desviou os olhos, o tremor quase imperceptível na respiração… aquilo não era sobre mala, nem sobre apartamento. Era sobre alguém. Sobre ele. Phillipe. O nome não foi dito, mas estava ali entre os três, pesado como fumaça densa. E Patrício sabia: Phillipe estava convencido de que Marina tinha algum envolvimento com Erick — e por isso não se aproximaria enquanto ele estivesse por perto. Era uma p******o distorcida, mas era o que existia. Patrício poderia simplesmente pôr seguranças na cola da filha, claro que poderia. Mas já imaginava a reação dela — o olhar ferido, a raiva, o discurso inflamado sobre controle e liberdade. Marina se sentiria vigiada, infantilizada… traída. E ele não podia perder a pouca confiança que ainda tinha com ela. E além disso… havia aquela história. A história de que Erick a defendera. De que colocara Phillipe para trás. De que não hesitara em protegê-la quando ninguém mais estava por perto. Essa lembrança — real, concreta, incontestável — pesava mais do que qualquer plano de segurança. Era por isso que estavam ali. Era por isso que deixariam Marina naquele hotel, e não no apartamento sozinha. Porque, gostassem ou não, a presença de Erick era a única barreira que Phillipe ainda não ousava atravessar. Mesmo que Marina não quisesse admitir, aquele era o lugar mais seguro para ela no momento. Patrício se aproximou dela com mais suavidade que o habitual. — Querida… — ele olhou para Marina — o amigo do Eduardo… o tal do Erick… ele ainda está hospedado aqui? Marina piscou, surpresa. — Está. — respondeu devagar, sentindo a irritação e o nervosismo subirem pelo corpo. — O que o senhor quer com ele? Patrício não respondeu de imediato. Apenas sinalizou para um dos funcionários. — Em que quarto o doutor Erick Vegas está hospedado? — Pai! — Marina deu um passo à frente, o semblante tenso. — Fala. O que o senhor quer com ele? O funcionário se afastou, indo verificar no sistema. Patrício olhou para a filha com a seriedade de um homem que finalmente aceitava pedir ajuda. — Antes de mais nada, quero agradecer pelo que ele fez por você — disse, voz firme, mas carregada de algo próximo à vulnerabilidade. — E também quero pedir um favor a ele. Pelo que Eduardo nos contou… vocês se tornaram bons amigos. — Que favor? — Marina arregalou os olhos, estapeada pelo constrangimento, irritação e… outra coisa que ela não queria nomear. — O senhor está falando sério? Patrício simplesmente a ignorou. O funcionário voltou alguns segundos depois. — Doutor Vegas está no vigésimo quinto andar. Quarto 404. E antes que Marina pudesse reagir, Patrício já caminhava em direção ao elevador. — Pai, espera! — ela chamou, andando atrás dele. Ele virou o rosto, aguardando. Marina parou bem diante dele. Seu tom mudou, amolecendo, quase lembrando a menina que ele costumava proteger. — Eu vou chamá-lo. — disse, num fio de voz firme e suave ao mesmo tempo. — Por favor… espera aqui. Um sorriso pequeno — discreto, quase tímido — surgiu no canto dos lábios de Patrício. Ele apenas assentiu. Miranda tocou o braço do marido enquanto se sentavam no sofá curvo no centro da recepção, observando a filha entrar no elevador. As portas fecharam lentamente.
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