capítulo 20

1413 Words
Marina levantou devagar, recolhendo o vestido que estava jogado no chão, evitando olhar para ele enquanto se vestia. O ar estava pesado, espesso, carregado demais para qualquer palavra. Erick também se endireitou, puxando a camisa abandonada ao lado da espreguiçadeira. Quando ela se virou para sair, ele finalmente quebrou o silêncio. — Você já vai? — perguntou baixo, ainda ofegante. — Já é tarde. — respondeu sem emoção. — Tenho que ir para a empresa daqui a pouco. Erick franziu o cenho. Marina estava fria… distante… quase irreconhecível. Ela virou as costas novamente, mas ele não conseguiu se conter. — Marina. Ela congelou. — Eu estou apaixonado por você. A frase saiu firme. Clara. Sem espaço para equívocos. Marina parou tão abruptamente que o coração pareceu bater no silêncio. Erick se aproximou alguns passos, como se cada palavra o puxasse para ela. — Eu não consigo parar de pensar em você. — sua voz era séria, verdadeira. — É enlouquecedor. Você consome minha cabeça o tempo todo. Marina virou devagar, o olhar incrédulo. As palavras entravam… mas não faziam sentido. O mundo dentro dela se embaralhou. — Você está brincando, né? — ela sussurrou, rindo sem humor. — Por que só me diz isso agora? Depois de… Ela não conseguiu completar a frase. — Porque eu só entendi agora. — Erick respondeu imediatamente. — Só percebi a força disso quando achei que tinha te perdido em tudo que aconteceu. E hoje… — ele respirou fundo — hoje eu não posso mais fingir. Marina engoliu em seco. Sentiu-se uma i****a. Uma garotinha impressionável. — Não… não pode ser verdade. — levou as mãos ao rosto, balançando a cabeça. — Erick, isso é loucura. — Não é. — ele insistiu. — Eu senti isso crescer dia após dia, e tentei negar. Só que hoje ficou impossível. Ela apertou os lábios, a respiração começando a tremer. — Erick… o que você está sentindo agora não é real. — disse, num esforço doloroso para manter a razão. — É só a adrenalina… o êxtase do momento. Daqui a pouco você volta pra sua vida, pra outra cidade, pro seu trabalho… e vai esquecer. As palavras eram duras. Mas foram seu único escudo. Erick respirou fundo, magoado — mas não recuou. — Não destrói isso. — murmurou. — Você não faz ideia do quanto foi difícil admitir. Ou perceber. Ela desviou os olhos, dando um passo para trás. — Você está confuso. — Por que você quer me fazer acreditar no contrário? — ele rebateu, dando um passo à frente. — Porque isso… — sua voz falhou — isso é perigoso demais. Eu não posso me dar ao luxo de sentir nada agora. — Marina… — Erick deu mais um passo, mas ela recuou. — Para. — ela pediu, quase suplicando, com lágrimas queimando os olhos. — Por favor, você precisa parar. Ele apertou o maxilar, dolorido. — Eu tenho que parar? Você acha que eu queria sentir isso? Acho que eu queria lidar com algo tão… irritante, tão intenso, tão incontrolável? — ele se aproximou um pouco, a voz baixa, tensa. — Eu tentei evitar. Deus sabe o quanto eu tentei. — Erick, não faz isso comigo. — a voz dela finalmente quebrou. — O que aconteceu aqui… foi só s**o. Eu estava carente. Você também. E acabou acontecendo. Erick riu sem humor, uma dor crua atravessando seus olhos. — Você está fugindo. Ela fechou os olhos. — Não. — Está sim. — ele insistiu, dando meio passo à frente. — Eu senti você. Senti cada toque seu. O jeito que você me segurou… o jeito que me chamou… — ele engoliu seco — aquilo não era só s**o. — Basta. — ela estourou, a voz embargada. — Eu não quero mais ouvir. — Marina… — O que aconteceu aqui não pode mais acontecer. — declarou firme, mesmo com as lágrimas traindo cada palavra. — Nunca mais. Foi tudo que conseguiu dizer antes de virar e correr até o elevador. Erick ficou parado, imóvel, como se tivesse levado um golpe no peito. Marina entrou no elevador às pressas, o coração golpeando o peito como se tentasse escapar também. Quando virou para ele, antes que as portas se fechassem, viu a tristeza estampada no rosto de Erick — crua, silenciosa, devastadora. Aquilo atravessou o peito dela como um corte fino e profundo. E quando o metal finalmente selou os dois em mundos separados, ela desabou. As lágrimas que vinha segurando transbordaram, quentes, pesadas, irreversíveis. Ela apertou os olhos, tentando respirar, tentando se recompor — falhando miseravelmente. Marina não estava preparada para amar de novo. Não estava pronta para entregar o coração, nem um pedaço dele, nem um arranhão. O medo ainda morava nela com a força de um fantasma — o medo de se machucar, de ser enganada, de acreditar no que não existia. O medo nascido de Phillipe. Com ele, tudo começou calmo demais, correto demais. Nunca teve borboletas no estômago, nunca sentiu o corpo acender daquele jeito. O que chamaram de amor, no fim, virou apenas uma convivência frágil, uma paixão morna que logo se transformou em insegurança, em silêncio, em medo. O casamento naufragou levando junto a confiança dela no próprio julgamento. E agora… Erick. Ela tentou se convencer de que era só atração, só carência acumulada, só o toque depois de tanto tempo sozinha. Tentou acreditar que tinha sido apenas o cansaço, o momento. Mas era mentira. O corpo dela sabia disso. O coração também. O que a assustava não era o que aconteceu entre eles — era o que poderia acontecer depois. Erick era diferente. Ou parecia ser. Ele a olhava como se enxergasse coisas que ela mesma tentava esconder. Suas palavras tinham peso, verdade, calor. E isso, justamente isso, fazia tudo tremer dentro dela. Porque sentir algo real agora era o pior momento possível. Ela quase não o conhecia. Sabia que ele perdeu os pais, sabia do noivado fracassado… mas que tipo de homem ele era de verdade? Como confiar? Como acreditar? E por que, diabos, ele conseguia fazê-la sentir tanta calma ao mesmo tempo em que virava tudo dela de cabeça para baixo? O elevador continuou descendo, levando-a para longe dele e para perto de uma verdade que ela não queria admitir: Ela também estava se apaixonando. Pouco, devagar, com medo — mas estava. E era exatamente por isso que precisava fugir. Marina enxugou o rosto com o dorso da mão e inspirou fundo, tentando recuperar o controle. Seja lá o que estivesse nascendo entre eles… não podia crescer. Não agora. Não enquanto ela ainda lutava contra os restos de um casamento que a ensinou a temer o que deveria ser bonito. Não enquanto Erick, mesmo sendo diferente, ainda era um desconhecido demais para confiar o coração. Sim, ela desejava ele. Sim, aquilo podia ser mais do que atração. Mas justamente por isso — precisava parar. Porque se deixasse acontecer… talvez não sobrevivesse a mais um coração partido. Quando o elevador levou Marina para longe, Erick permaneceu onde estava, imóvel, como se o mundo tivesse parado junto com ela. As palavras dela ecoavam na cabeça dele com força de martelada, arrancando todo o ar dos pulmões. A derrota estava estampada no olhar vazio, e o frio subiu pela espinha até explodir nos músculos — calafrios violentos, espasmos que o fizeram perder o controle do próprio corpo. Ele se curvou, as pernas cedendo, até cair no chão em posição quase fetal. Apertou os dentes tão forte que o maxilar rangia, dolorido. — Maldição do c*****o! — sua voz saiu como um grito engasgado, rasgando o peito e queimando os pulmões. Aquilo era tortura. Um tormento velho demais, conhecido demais… e agora, renovado na pior intensidade possível. — Eu não vou aguentar… — sussurrou, puxando o próprio cabelo até o couro cabeludo arder. Mas nada doía mais do que ouvir Marina dizer que aquilo tinha sido “só s**o”. Ele chorou. Não conseguiu evitar, não conseguiu conter. As lágrimas quentes queimaram a pele, e o cheiro doce de Marina ainda preso em sua camisa só afundava o punhal mais fundo. O peito ardia, a respiração vinha pesada, irregular. Não conseguia parar. Queria apenas esquecer tudo aquilo: o que sentia, o que disse… e, principalmente, tudo o que fez com ela. Depois de longos minutos, Erick conseguiu se levantar. Cambaleante, com o corpo tremendo, caminhou até o elevador — sem saber ao certo se queria ir atrás dela ou desaparecer do mapa.
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