Marina levantou devagar, recolhendo o vestido que estava jogado no chão, evitando olhar para ele enquanto se vestia. O ar estava pesado, espesso, carregado demais para qualquer palavra.
Erick também se endireitou, puxando a camisa abandonada ao lado da espreguiçadeira.
Quando ela se virou para sair, ele finalmente quebrou o silêncio.
— Você já vai? — perguntou baixo, ainda ofegante.
— Já é tarde. — respondeu sem emoção. — Tenho que ir para a empresa daqui a pouco.
Erick franziu o cenho.
Marina estava fria… distante… quase irreconhecível.
Ela virou as costas novamente, mas ele não conseguiu se conter.
— Marina.
Ela congelou.
— Eu estou apaixonado por você.
A frase saiu firme. Clara. Sem espaço para equívocos.
Marina parou tão abruptamente que o coração pareceu bater no silêncio.
Erick se aproximou alguns passos, como se cada palavra o puxasse para ela.
— Eu não consigo parar de pensar em você. — sua voz era séria, verdadeira. — É enlouquecedor. Você consome minha cabeça o tempo todo.
Marina virou devagar, o olhar incrédulo.
As palavras entravam… mas não faziam sentido.
O mundo dentro dela se embaralhou.
— Você está brincando, né? — ela sussurrou, rindo sem humor. — Por que só me diz isso agora? Depois de…
Ela não conseguiu completar a frase.
— Porque eu só entendi agora. — Erick respondeu imediatamente. — Só percebi a força disso quando achei que tinha te perdido em tudo que aconteceu. E hoje… — ele respirou fundo — hoje eu não posso mais fingir.
Marina engoliu em seco.
Sentiu-se uma i****a.
Uma garotinha impressionável.
— Não… não pode ser verdade. — levou as mãos ao rosto, balançando a cabeça. — Erick, isso é loucura.
— Não é. — ele insistiu. — Eu senti isso crescer dia após dia, e tentei negar. Só que hoje ficou impossível.
Ela apertou os lábios, a respiração começando a tremer.
— Erick… o que você está sentindo agora não é real. — disse, num esforço doloroso para manter a razão. — É só a adrenalina… o êxtase do momento. Daqui a pouco você volta pra sua vida, pra outra cidade, pro seu trabalho… e vai esquecer.
As palavras eram duras.
Mas foram seu único escudo.
Erick respirou fundo, magoado — mas não recuou.
— Não destrói isso. — murmurou. — Você não faz ideia do quanto foi difícil admitir. Ou perceber.
Ela desviou os olhos, dando um passo para trás.
— Você está confuso.
— Por que você quer me fazer acreditar no contrário? — ele rebateu, dando um passo à frente.
— Porque isso… — sua voz falhou — isso é perigoso demais. Eu não posso me dar ao luxo de sentir nada agora.
— Marina… — Erick deu mais um passo, mas ela recuou.
— Para. — ela pediu, quase suplicando, com lágrimas queimando os olhos. — Por favor, você precisa parar.
Ele apertou o maxilar, dolorido.
— Eu tenho que parar? Você acha que eu queria sentir isso? Acho que eu queria lidar com algo tão… irritante, tão intenso, tão incontrolável? — ele se aproximou um pouco, a voz baixa, tensa. — Eu tentei evitar. Deus sabe o quanto eu tentei.
— Erick, não faz isso comigo. — a voz dela finalmente quebrou. — O que aconteceu aqui… foi só s**o. Eu estava carente. Você também. E acabou acontecendo.
Erick riu sem humor, uma dor crua atravessando seus olhos.
— Você está fugindo.
Ela fechou os olhos.
— Não.
— Está sim. — ele insistiu, dando meio passo à frente. — Eu senti você. Senti cada toque seu. O jeito que você me segurou… o jeito que me chamou… — ele engoliu seco — aquilo não era só s**o.
— Basta. — ela estourou, a voz embargada. — Eu não quero mais ouvir.
— Marina…
— O que aconteceu aqui não pode mais acontecer. — declarou firme, mesmo com as lágrimas traindo cada palavra. — Nunca mais.
Foi tudo que conseguiu dizer antes de virar e correr até o elevador.
Erick ficou parado, imóvel, como se tivesse levado um golpe no peito.
Marina entrou no elevador às pressas, o coração golpeando o peito como se tentasse escapar também. Quando virou para ele, antes que as portas se fechassem, viu a tristeza estampada no rosto de Erick — crua, silenciosa, devastadora. Aquilo atravessou o peito dela como um corte fino e profundo.
E quando o metal finalmente selou os dois em mundos separados, ela desabou. As lágrimas que vinha segurando transbordaram, quentes, pesadas, irreversíveis.
Ela apertou os olhos, tentando respirar, tentando se recompor — falhando miseravelmente.
Marina não estava preparada para amar de novo. Não estava pronta para entregar o coração, nem um pedaço dele, nem um arranhão. O medo ainda morava nela com a força de um fantasma — o medo de se machucar, de ser enganada, de acreditar no que não existia. O medo nascido de Phillipe.
Com ele, tudo começou calmo demais, correto demais. Nunca teve borboletas no estômago, nunca sentiu o corpo acender daquele jeito. O que chamaram de amor, no fim, virou apenas uma convivência frágil, uma paixão morna que logo se transformou em insegurança, em silêncio, em medo. O casamento naufragou levando junto a confiança dela no próprio julgamento.
E agora… Erick.
Ela tentou se convencer de que era só atração, só carência acumulada, só o toque depois de tanto tempo sozinha. Tentou acreditar que tinha sido apenas o cansaço, o momento.
Mas era mentira.
O corpo dela sabia disso.
O coração também.
O que a assustava não era o que aconteceu entre eles — era o que poderia acontecer depois.
Erick era diferente. Ou parecia ser. Ele a olhava como se enxergasse coisas que ela mesma tentava esconder. Suas palavras tinham peso, verdade, calor. E isso, justamente isso, fazia tudo tremer dentro dela. Porque sentir algo real agora era o pior momento possível.
Ela quase não o conhecia. Sabia que ele perdeu os pais, sabia do noivado fracassado… mas que tipo de homem ele era de verdade? Como confiar? Como acreditar?
E por que, diabos, ele conseguia fazê-la sentir tanta calma ao mesmo tempo em que virava tudo dela de cabeça para baixo?
O elevador continuou descendo, levando-a para longe dele e para perto de uma verdade que ela não queria admitir:
Ela também estava se apaixonando.
Pouco, devagar, com medo — mas estava.
E era exatamente por isso que precisava fugir.
Marina enxugou o rosto com o dorso da mão e inspirou fundo, tentando recuperar o controle.
Seja lá o que estivesse nascendo entre eles… não podia crescer. Não agora.
Não enquanto ela ainda lutava contra os restos de um casamento que a ensinou a temer o que deveria ser bonito.
Não enquanto Erick, mesmo sendo diferente, ainda era um desconhecido demais para confiar o coração.
Sim, ela desejava ele.
Sim, aquilo podia ser mais do que atração.
Mas justamente por isso — precisava parar.
Porque se deixasse acontecer… talvez não sobrevivesse a mais um coração partido.
Quando o elevador levou Marina para longe, Erick permaneceu onde estava, imóvel, como se o mundo tivesse parado junto com ela. As palavras dela ecoavam na cabeça dele com força de martelada, arrancando todo o ar dos pulmões.
A derrota estava estampada no olhar vazio, e o frio subiu pela espinha até explodir nos músculos — calafrios violentos, espasmos que o fizeram perder o controle do próprio corpo.
Ele se curvou, as pernas cedendo, até cair no chão em posição quase fetal. Apertou os dentes tão forte que o maxilar rangia, dolorido.
— Maldição do c*****o! — sua voz saiu como um grito engasgado, rasgando o peito e queimando os pulmões.
Aquilo era tortura. Um tormento velho demais, conhecido demais… e agora, renovado na pior intensidade possível.
— Eu não vou aguentar… — sussurrou, puxando o próprio cabelo até o couro cabeludo arder. Mas nada doía mais do que ouvir Marina dizer que aquilo tinha sido “só s**o”.
Ele chorou.
Não conseguiu evitar, não conseguiu conter. As lágrimas quentes queimaram a pele, e o cheiro doce de Marina ainda preso em sua camisa só afundava o punhal mais fundo. O peito ardia, a respiração vinha pesada, irregular. Não conseguia parar. Queria apenas esquecer tudo aquilo: o que sentia, o que disse… e, principalmente, tudo o que fez com ela.
Depois de longos minutos, Erick conseguiu se levantar. Cambaleante, com o corpo tremendo, caminhou até o elevador — sem saber ao certo se queria ir atrás dela ou desaparecer do mapa.