Dois dias haviam se passado desde o episódio, e naquele dia específico Marina finalmente receberia alta. O quarto estava mais movimentado do que de costume: Miranda ao lado da filha, impaciente como uma mãe que não descansou desde o susto; Nicole e Thereza sentadas no sofá, conversando baixo, mas com os olhos atentos a cada movimento de Marina.
— Finalmente vou sair daqui. — Marina disse com um sorriso divertido. — A comida desse lugar é um atentado contra a humanidade.
As três caíram na risada.
— Podemos ir direto para um restaurante, que tal? — sugeriu Thereza, já animada com a ideia.
— Nada disso. — interrompeu Miranda, com aquela autoridade que ninguém ousava contestar. — Vamos direto para casa. A Cordelia caprichou no almoço hoje, tudo pensando em você, querida.
— Então eu não posso recusar esse convite. — Marina respondeu com um sorriso cúmplice. Ela sabia que a mãe só queria tê-la em casa, segura, cercada pelo que conhecia.
Pouco depois, a médica entrou no quarto. Trazia uma prancheta com a documentação da alta… e um buquê de rosas vermelhas impecavelmente arrumado, com um pequeno cartão encaixado entre as flores.
As quatro mulheres se entreolharam.
A médica estendeu primeiro os papéis para Miranda, depois entregou o buquê.
— Obrigada, doutora. Por tudo o que fez pela minha filha. — disse Miranda, emocionada, abraçando a profissional, que retribuiu com um sorriso gentil e um tapinha leve nas costas.
— Apenas fiz o meu trabalho. — respondeu ela, antes de se despedir e deixar o quarto.
Assim que a porta fechou, Nicole e Thereza praticamente se inclinaram sobre a cama.
— Abre! — Nicole disse, m*l escondendo o entusiasmo.
Marina segurou as rosas, aspirou o perfume suave e fresco, e retirou o cartão com cuidado, como se fosse algo frágil. Colocou o buquê sobre a cama, já sentindo uma onda quente subir pelo peito.
Abriu o cartão.
A letra masculina era firme, direta, quase séria demais para um gesto tão delicado.
Tenha uma boa recuperação.
Com carinho,
Erick.
O coração dela falhou uma batida. Depois outra. O ar pareceu escapar por entre os lábios sem permissão. O nome dele parecia ecoar no fundo do quarto — ou talvez só no fundo dela.
Não era só o gesto.
Era saber que ele pensou nela.
Que ele se lembrou.
Que se importou.
Uma pontada elétrica correu por sua coluna, quase fazendo-a estremecer.
— E aí? De quem é? — Nicole perguntou, inclinando-se ainda mais, curiosa como sempre.
Marina mordeu o lábio, sentindo as bochechas queimarem.
— É… do Erick. — respondeu baixa, mas não o suficiente para impedir Nicole de sorrir como quem já esperava por aquilo.
— Quem é Erick? — perguntou Thereza, franzindo a testa, completamente perdida.
— Vamos deixar as perguntas pra depois. — decretou Miranda, já recolhendo os pertences da filha com pressa para tirá-la dali. — Temos muita coisa pra conversar em casa.
Marina apenas assentiu, ainda segurando o bilhete como se fosse algo mais quente do que deveria.
Mais significativo do que ousava admitir.
E então, juntas, deixaram o hospital.
O buquê seguia nos braços dela.
E o nome dele — Erick — seguia, incômodo e doce, repetindo-se dentro de sua cabeça.
Naquele mesmo dia, enquanto Marina finalmente recebia alta do hospital, Patrício dirigia em silêncio rumo à casa de Phillipe. Não fez ligações, não pediu conselhos. Apenas foi.
Seus dedos apertavam o volante com tanta força que chegavam a formigar.
Ele estava disposto a tudo — até mesmo a entregar metade das ações da empresa se fosse preciso. Qualquer preço parecia pequeno comparado ao peso de ter arruinado a vida da própria filha.
Quando a empregada o conduziu até a sala de visitas, Patrício sentiu o ar faltar.
O ambiente continuava igual: móveis caros, cheiro de madeira encerada, e principalmente…
Os porta-retratos.
Fotos de Marina espalhadas por todos os cantos, como uma assombração c***l. E no centro da parede principal, o enorme quadro do casamento — Marina sorrindo, radiante; Phillipe ao lado, como uma sombra elegante.
Olhar para aquilo o corroía por dentro.
A culpa pressionava seu peito como uma bigorna.
A porta se abriu atrás dele.
— Patrício… a que devo a honra? — a voz de Phillipe cortou o ambiente, carregada de deboche.
Ele entrou com passos tranquilos, roupas sociais escuras impecáveis, como se fosse o dono da situação — o que, de certa forma, era.
— Como se você não soubesse. — Patrício respondeu, sem disfarçar o ódio.
Phillipe sentou na poltrona vermelha, cruzando as pernas com um ar satisfeito.
— Então vamos direto ao ponto. — disse, sorrindo de canto. — Imagino que isso tenha a ver com nossa querida Marina.
Fez uma pausa calculada.
— Ouvi boatos… dizem que ela teve uma overdose. Confesso que fiquei surpreso. Nunca imaginei que fosse uma drogada.
A palavra rasgou o ar.
Patrício explodiu. Em dois passos agarrou Phillipe pelo colarinho.
— Meça suas palavras quando falar da minha filha, seu maldito! — rugiu. Phillipe não se assustou.
Sorria.
Sempre sorria quando sabia que tinha o controle.
— Calma, sogro. — disse, soltando uma risada curta. — Ficou sensível, foi? – debochou, antes de livrar do aperto com um movimento brusco.
— Quando digo minha filha, está falando de quem exatamente? — provocou. — Da Marina… ou da pequena Ruby?
O silêncio caiu como um machado.
Patrício ficou estático.
O mundo pareceu encolher.
— O quê?
Phillipe caminhou até o quadro de casamento, passando os dedos pela imagem de Marina como se acariciasse um troféu.
— Cinqu… cinco anos, não é? — perguntou com falsa inocência. — Mora com a mãe, se não me engano. Uma moça adorável… apesar da ocupação.
Patrício ficou lívido.
Um tremor subiu por sua espinha.
— Isso é absurdo… — sussurrou, quase sem voz. — Como… como sabe disso?
— Eu sei coisas. — disse Phillipe, dando de ombros. — Pessoas falam. Pessoas que devem favores. Pessoas que adoram colocar o nariz onde não devem.
Então se virou, o olhar frio como mármore.
— Imagine só a reação da sua família quando descobrirem que você tem uma filha bastarda com uma p********a que tem quase a idade da Marina.
Ele riu, baixo.
— E pensar que isso aconteceu logo na sua primeira escapadinha fora do casamento. Que falta de sorte, não?
Patrício engoliu seco.
E naquele instante, percebeu:
Phillipe sabia demais.
E estava disposto a usar cada informação como arma.
— Você é um miserável. — disse, tremendo de raiva.
— Eu? — Phillipe tocou o peito como se estivesse ofendido. — Estou só tentando ajudar. Aposto que a Marina ficaria… devastada ao saber disso.
Sorriu devagar.
— Ela sempre foi muito emotiva. E eu sempre fui muito… acolhedor.
Patrício deu um passo à frente.
— Se você se aproximar dela…
— Ah, por favor. — interrompeu Phillipe, levantando a mão. — Gritar aqui não vai resolver sua vida conjugal, sogro.
Havia veneno em cada palavra.
— E o que você quer? — perguntou Patrício, exausto e furioso.
Phillipe voltou a se acomodar na poltrona, cruzando os dedos.
— Muito simples.
Primeiro: ninguém fica sabendo do meu encontro com a sua filha.
Segundo: você não me processa por agressão, a***o ou qualquer outra besteira.
Terceiro: você finge que nada disso aconteceu.
Deu um sorriso frio.
— Meu silêncio… pelo seu silêncio.
Fez um gesto com a mão, como quem apresenta uma promoção.
— Puxar para o justo, não acha?
Patrício o encarou com ódio puro.
Mas sabia que Phillipe tinha a vantagem.
Sabia demais.
Tinha provas demais.
E Marina… Marina não podia ser machucada novamente.
Sentiu-se diminuir, como se encolhesse por dentro.
— Sim. — respondeu, quase cuspindo a palavra.
Phillipe sorriu como um gato satisfeito.
— Sabia que diria isso.
Levantou-se, ajeitando o paletó de forma teatral.
— Agora, se me der licença… tenho um almoço de negócios.
Caminhou até a porta, abriu-a e, antes de sair, olhou por cima do ombro.
— Ah, e Patrício…
Seu sorriso era puro veneno.
— Dê lembranças à Marina. Diga que senti falta dela.
A porta se fechou.
Patrício ficou ali, sozinho na sala iluminada demais, cercado por fotos da filha que ele entregou ao inferno.
Sentou-se na poltrona, afundando o rosto nas mãos.
O mundo, mais uma vez, desabava sobre ele.