capítulo 13

1382 Words
Dois dias haviam se passado desde o episódio, e naquele dia específico Marina finalmente receberia alta. O quarto estava mais movimentado do que de costume: Miranda ao lado da filha, impaciente como uma mãe que não descansou desde o susto; Nicole e Thereza sentadas no sofá, conversando baixo, mas com os olhos atentos a cada movimento de Marina. — Finalmente vou sair daqui. — Marina disse com um sorriso divertido. — A comida desse lugar é um atentado contra a humanidade. As três caíram na risada. — Podemos ir direto para um restaurante, que tal? — sugeriu Thereza, já animada com a ideia. — Nada disso. — interrompeu Miranda, com aquela autoridade que ninguém ousava contestar. — Vamos direto para casa. A Cordelia caprichou no almoço hoje, tudo pensando em você, querida. — Então eu não posso recusar esse convite. — Marina respondeu com um sorriso cúmplice. Ela sabia que a mãe só queria tê-la em casa, segura, cercada pelo que conhecia. Pouco depois, a médica entrou no quarto. Trazia uma prancheta com a documentação da alta… e um buquê de rosas vermelhas impecavelmente arrumado, com um pequeno cartão encaixado entre as flores. As quatro mulheres se entreolharam. A médica estendeu primeiro os papéis para Miranda, depois entregou o buquê. — Obrigada, doutora. Por tudo o que fez pela minha filha. — disse Miranda, emocionada, abraçando a profissional, que retribuiu com um sorriso gentil e um tapinha leve nas costas. — Apenas fiz o meu trabalho. — respondeu ela, antes de se despedir e deixar o quarto. Assim que a porta fechou, Nicole e Thereza praticamente se inclinaram sobre a cama. — Abre! — Nicole disse, m*l escondendo o entusiasmo. Marina segurou as rosas, aspirou o perfume suave e fresco, e retirou o cartão com cuidado, como se fosse algo frágil. Colocou o buquê sobre a cama, já sentindo uma onda quente subir pelo peito. Abriu o cartão. A letra masculina era firme, direta, quase séria demais para um gesto tão delicado. Tenha uma boa recuperação. Com carinho, Erick. O coração dela falhou uma batida. Depois outra. O ar pareceu escapar por entre os lábios sem permissão. O nome dele parecia ecoar no fundo do quarto — ou talvez só no fundo dela. Não era só o gesto. Era saber que ele pensou nela. Que ele se lembrou. Que se importou. Uma pontada elétrica correu por sua coluna, quase fazendo-a estremecer. — E aí? De quem é? — Nicole perguntou, inclinando-se ainda mais, curiosa como sempre. Marina mordeu o lábio, sentindo as bochechas queimarem. — É… do Erick. — respondeu baixa, mas não o suficiente para impedir Nicole de sorrir como quem já esperava por aquilo. — Quem é Erick? — perguntou Thereza, franzindo a testa, completamente perdida. — Vamos deixar as perguntas pra depois. — decretou Miranda, já recolhendo os pertences da filha com pressa para tirá-la dali. — Temos muita coisa pra conversar em casa. Marina apenas assentiu, ainda segurando o bilhete como se fosse algo mais quente do que deveria. Mais significativo do que ousava admitir. E então, juntas, deixaram o hospital. O buquê seguia nos braços dela. E o nome dele — Erick — seguia, incômodo e doce, repetindo-se dentro de sua cabeça. Naquele mesmo dia, enquanto Marina finalmente recebia alta do hospital, Patrício dirigia em silêncio rumo à casa de Phillipe. Não fez ligações, não pediu conselhos. Apenas foi. Seus dedos apertavam o volante com tanta força que chegavam a formigar. Ele estava disposto a tudo — até mesmo a entregar metade das ações da empresa se fosse preciso. Qualquer preço parecia pequeno comparado ao peso de ter arruinado a vida da própria filha. Quando a empregada o conduziu até a sala de visitas, Patrício sentiu o ar faltar. O ambiente continuava igual: móveis caros, cheiro de madeira encerada, e principalmente… Os porta-retratos. Fotos de Marina espalhadas por todos os cantos, como uma assombração c***l. E no centro da parede principal, o enorme quadro do casamento — Marina sorrindo, radiante; Phillipe ao lado, como uma sombra elegante. Olhar para aquilo o corroía por dentro. A culpa pressionava seu peito como uma bigorna. A porta se abriu atrás dele. — Patrício… a que devo a honra? — a voz de Phillipe cortou o ambiente, carregada de deboche. Ele entrou com passos tranquilos, roupas sociais escuras impecáveis, como se fosse o dono da situação — o que, de certa forma, era. — Como se você não soubesse. — Patrício respondeu, sem disfarçar o ódio. Phillipe sentou na poltrona vermelha, cruzando as pernas com um ar satisfeito. — Então vamos direto ao ponto. — disse, sorrindo de canto. — Imagino que isso tenha a ver com nossa querida Marina. Fez uma pausa calculada. — Ouvi boatos… dizem que ela teve uma overdose. Confesso que fiquei surpreso. Nunca imaginei que fosse uma drogada. A palavra rasgou o ar. Patrício explodiu. Em dois passos agarrou Phillipe pelo colarinho. — Meça suas palavras quando falar da minha filha, seu maldito! — rugiu. Phillipe não se assustou. Sorria. Sempre sorria quando sabia que tinha o controle. — Calma, sogro. — disse, soltando uma risada curta. — Ficou sensível, foi? – debochou, antes de livrar do aperto com um movimento brusco. — Quando digo minha filha, está falando de quem exatamente? — provocou. — Da Marina… ou da pequena Ruby? O silêncio caiu como um machado. Patrício ficou estático. O mundo pareceu encolher. — O quê? Phillipe caminhou até o quadro de casamento, passando os dedos pela imagem de Marina como se acariciasse um troféu. — Cinqu… cinco anos, não é? — perguntou com falsa inocência. — Mora com a mãe, se não me engano. Uma moça adorável… apesar da ocupação. Patrício ficou lívido. Um tremor subiu por sua espinha. — Isso é absurdo… — sussurrou, quase sem voz. — Como… como sabe disso? — Eu sei coisas. — disse Phillipe, dando de ombros. — Pessoas falam. Pessoas que devem favores. Pessoas que adoram colocar o nariz onde não devem. Então se virou, o olhar frio como mármore. — Imagine só a reação da sua família quando descobrirem que você tem uma filha bastarda com uma p********a que tem quase a idade da Marina. Ele riu, baixo. — E pensar que isso aconteceu logo na sua primeira escapadinha fora do casamento. Que falta de sorte, não? Patrício engoliu seco. E naquele instante, percebeu: Phillipe sabia demais. E estava disposto a usar cada informação como arma. — Você é um miserável. — disse, tremendo de raiva. — Eu? — Phillipe tocou o peito como se estivesse ofendido. — Estou só tentando ajudar. Aposto que a Marina ficaria… devastada ao saber disso. Sorriu devagar. — Ela sempre foi muito emotiva. E eu sempre fui muito… acolhedor. Patrício deu um passo à frente. — Se você se aproximar dela… — Ah, por favor. — interrompeu Phillipe, levantando a mão. — Gritar aqui não vai resolver sua vida conjugal, sogro. Havia veneno em cada palavra. — E o que você quer? — perguntou Patrício, exausto e furioso. Phillipe voltou a se acomodar na poltrona, cruzando os dedos. — Muito simples. Primeiro: ninguém fica sabendo do meu encontro com a sua filha. Segundo: você não me processa por agressão, a***o ou qualquer outra besteira. Terceiro: você finge que nada disso aconteceu. Deu um sorriso frio. — Meu silêncio… pelo seu silêncio. Fez um gesto com a mão, como quem apresenta uma promoção. — Puxar para o justo, não acha? Patrício o encarou com ódio puro. Mas sabia que Phillipe tinha a vantagem. Sabia demais. Tinha provas demais. E Marina… Marina não podia ser machucada novamente. Sentiu-se diminuir, como se encolhesse por dentro. — Sim. — respondeu, quase cuspindo a palavra. Phillipe sorriu como um gato satisfeito. — Sabia que diria isso. Levantou-se, ajeitando o paletó de forma teatral. — Agora, se me der licença… tenho um almoço de negócios. Caminhou até a porta, abriu-a e, antes de sair, olhou por cima do ombro. — Ah, e Patrício… Seu sorriso era puro veneno. — Dê lembranças à Marina. Diga que senti falta dela. A porta se fechou. Patrício ficou ali, sozinho na sala iluminada demais, cercado por fotos da filha que ele entregou ao inferno. Sentou-se na poltrona, afundando o rosto nas mãos. O mundo, mais uma vez, desabava sobre ele.
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