capítulo 30

1788 Words
Os primeiros raios de sol cortaram o quarto pelas frestas das cortinas pesadas, desenhando faixas douradas que repousavam sobre a pele de Marina. Ela despertou devagar, piscando até que os olhos se acostumassem à luz suave. Quando esticou a mão por hábito, encontrou apenas o lençol frio ao lado — Erick não estava ali. Mas havia um bilhete no criado-mudo. Marina se ergueu preguiçosamente, ainda envolta no calor da cama, e pegou o pedaço de papel escrito à mão. A letra dele — bonita, inclinada, firme — arrancou um sorriso do rosto dela, mesmo com a voz sonolenta que ecoou em sua mente: “Meu amor, tive que resolver alguns assuntos e não poderei tomar o café da manhã com você. Volto antes ou depois do almoço. Erick.” Um suspiro escapou de seus lábios. Ao olhar para o relógio, percebeu que o “café da manhã” estava perdido há muito tempo — já passava das dez. Dormira mais do que pretendia. Caminhou nua até o banheiro, deixando um rastro descompromissado de lençóis e perfume. Depois do banho, entrou no closet ainda quase vazio — o espaço de Erick ocupado por poucas roupas, mas pela presença dele inteira. Ela pegou uma camisa dele, grande demais, que m*l escondia as pernas, e vestiu com uma calcinha que havia deixado na bolsa. Na cozinha, decidiu improvisar um almoço com o que tinha na geladeira e com as sobras da noite anterior. Nada elaborado, mas feito com carinho — e com a esperança de que Erick não fosse exigente com temperos. Naquela manhã, Erick atravessava o corredor impecável da sede principal das Empresas Miller. Stefano e Gabrielle haviam recomendado que ele conversasse pessoalmente com o velho Miller — e Erick queria aquilo mais do que deixava transparecer. Sentia falta do ritmo da medicina, da sala de cirurgia, do foco total que o trabalho exigia. Não era sobre dinheiro — nunca fora. Era sobre propósito. Quando o dono das medicinais Miller se levantou para cumprimentá-lo, os olhos do homem brilharam com entusiasmo. — Doutor Vegas, será um enorme prazer tê-lo em nossa equipe. Seja muito bem-vindo. Erick apertou sua mão com respeito. — Eu que agradeço a confiança e a oportunidade. — Todos que Estefano me recomenda são bem-vindos. Mas sobre você… — Miller sorriu, orgulhoso. — Ele falou que era um dos melhores da equipe. O velho pegou o telefone, fez uma ligação rápida e poucos minutos depois uma jovem médica entrou. Elegante, postura firme, olhar seguro. — Mandou me chamar, doutor Miller? — Sim, Elizabeth. — Ele indicou que ela se sentasse. — Antes de tudo, quero apresentar seu novo colega: Erick Vegas. Renomado cirurgião. Ela o cumprimentou com profissionalismo impecável. Ele retribuiu. — Elizabeth será sua sucessora em algumas funções, doutor Vegas — completou Miller. — E você, Elizabeth, ficará responsável por mostrar a clínica ao seu novo colega. Amanhã, na reunião, o apresentarei oficialmente. Eles caminharam pelos amplos corredores. Ela falava sobre equipamentos, rotinas, alas e particularidades da clínica; ele ouvia com real interesse. — Você trabalha aqui há bastante tempo — Erick comentou, mais para criar laço do que por curiosidade pessoal. — Desde a época de estágio — ela respondeu, orgulhosa. — E você? Veio de fora? — Do Center Coulter. Pedi transferência e… aqui estou. Após percorrer toda a clínica, ela se despediu com um sorriso cordial. — Por hoje é isso. Amanhã você conhece sua sala. Se precisar, basta chamar. Erick agradeceu e permaneceu alguns instantes observando o lugar, sentindo que aquele ambiente, de alguma forma, o pertencia. — Gostou do que viu? — perguntou Miller, aproximando-se. — É perfeito — Erick admitiu com sinceridade. — Vai ser bom trabalhar aqui. O sorriso do velho era quase paternal. Por volta das treze horas, Marina estava sentada no centro da mesa de jantar, mexendo no suco enquanto observava a comida esfriar pouco a pouco. O silêncio daquele apartamento enorme parecia maior sem Erick. Quando a fechadura girou, ela levantou imediatamente. Erick entrou com um sorriso que iluminou todo o lugar. Ele parou no meio da sala ao vê-la vestindo apenas sua camisa, cabelos soltos, pernas nuas. — Sentiu minha falta? — perguntou, já sorrindo. Ela o abraçou na ponta dos pés. — Você não faz ideia. Ele a puxou para mais perto, inalando o cheiro de banho recém-tomado dela. — Vamos comer? — perguntou, olhando diretamente nos olhos dela. — Vamos. Preparei algo simples… Erick lavou as mãos e sentou-se. Marina o observava como quem aguardava um veredito importante. Ele levou o garfo à boca com toda a calma do mundo, mastigou, e então soltou um sorriso enviesado. — Pode comer. Está perfeita. — Está r**m, né? — ela perguntou, vermelha. — Eu disse isso? — ele provocou. — Erick… — Você provou? — ele ergueu a sobrancelha. — Provei. — Tava boa? Ela assentiu. — Então coma — concluiu, num tom autoritário irresistível. Ela riu — e obedeceu. Durante o almoço, ele contou sobre a clínica, sobre o novo emprego, sobre o quanto estava feliz por voltar ao que amava. Marina absorvia tudo com orgulho estampado no rosto. ....... À noite, na casa de Nicole e Edward. Quando chegaram ao apartamento do casal, Nicole praticamente atropelou Marina no abraço. — Marina! Finalmente! — exclamou, ignorando Erick completamente. — Obrigado pelas saudações, Nicole — Erick ironizou, entrando. — Ah, Erick, é bom vê-lo também — disse ela, teatral. Edward surgiu da cozinha com uma garrafa de champanhe levantada. — Erick! Olha o que te espera. As meninas seguiram para a cozinha enquanto os rapazes foram para a sacada. Nicole, claro, não demorou nem trinta segundos. — E aí? Se divertiram muito ontem à noite? — perguntou dando um empurrãozinho cúmplice. — Do que você está falando? — Marina tentou disfarçar, mas Nicole gargalhou. — Ah, por favor. Eu vi o seu sorriso. E a conversa sobre lingeries ontem? Acorda, Marina. Vocês transaram. — Nicole! — Marina sussurrou desesperada. — Fala baixo! Nicole sorriu como quem encontrou o ponto exato. — Então eu acertei. Marina suspirou, derrotada. — Tá bom. Tivemos uma noite incrível. Pronto. Agora muda de assunto? — Só se responder uma coisa — Nicole ergueu o dedo. — O quê agora? — Você está feliz? O rosto de Marina se transformou. O sorriso veio de dentro. — Eu nunca estive tão feliz. O Erick… ele é incrível. Gentil. Cuidadoso. Ele até me pediu pra morarmos juntos. Nicole quase pulou. — MARINA! Meu Deus isso é perfeito! — Eu disse que ainda não estou preparada, mas… — ela sorriu — ele entendeu tudo. Nicole apenas balançou a cabeça, encantada. — Esse homem é completamente apaixonado por você. Na sacada, o vento frio da noite passava entre eles, carregando o cheiro distante da cidade. Erick falava animado sobre a clínica, sobre o novo apartamento, sobre o rumo que sua vida finalmente estava tomando. Edward sorria, feliz pelo amigo — até que o sorriso desapareceu devagar. Ele girou a taça de champanhe entre os dedos, como quem pensa duas vezes antes de abrir a boca. — Erick… posso te perguntar uma coisa? Erick arqueou ligeiramente a sobrancelha. — Pode. — É sobre a Marina. E sobre você. — A voz de Edward estava séria, contida demais. — Vocês estão realmente bem? Erick soltou uma risada leve, relaxada. — Estamos no melhor momento possível. Mas Edward não relaxou. Não retribuiu o sorriso. Pelo contrário: encarou Erick como quem se prepara para dar uma notícia r**m. — Então você precisa saber de uma coisa. A mudança de tom fez o corpo de Erick ficar alerta instantaneamente. Edward respirou fundo. — A Eliza entrou em contato com a Nicole. O nome caiu como um estilhaço de vidro. O ar entre eles pareceu parar. O sorriso de Erick sumiu na hora. Seus ombros ficaram rígidos, a mão segurando a taça tremeu por um segundo — só um segundo, mas suficiente para que Edward percebesse. — O quê? — a voz dele saiu baixa, perigosa. — É. Ela perguntou de você. Disse que você não responde os e-mails dela. Erick ficou imóvel, mas os olhos… os olhos escureceram. Um músculo saltou em sua mandíbula. Ele respirou fundo, mas o ar entrou como se machucasse. — O que essa mulher ainda quer comigo? Não era irritação comum. Era uma fúria antiga. Contida. Que tinha camadas. Edward ergueu as mãos, cauteloso. — Calma, já bloqueamos ela. A Nicole fez na hora. Mas… — Mas o quê? — Erick cortou, a paciência sangrando. — Mas você sabe como a Eliza é. Ela nunca bate na porta uma vez só. — Edward o observou com cuidado. — Talvez queira só complicar a sua vida. Você sabe… ela sempre soube onde apertar pra te desestabilizar. O peito de Erick subiu e desceu mais rápido. Ele passou a mão pela nuca, um gesto automático — mas dessa vez, a mão tremia um pouco. — Ela não quer perdão, não quer conversa — ele disse, a voz grave, firme, carregada de memória. — A Eliza quer controle. Sempre quis. E quando percebe que não tem, ela destrói o que puder. Edward hesitou… e perguntou o que temia. — Erick… você ainda sente alguma coisa por ela? Erick virou-se devagar, o olhar afiado. — Você está brincando comigo? — Não. — Edward respondeu com sinceridade. — Você passou dois anos afastado de todo mundo por causa dela. Dois anos, Erick. Silêncio. Um silêncio denso. Tenso. E então Erick respondeu, sem piscar: — O que eu sinto pela Eliza é simples. — Ele apertou a taça com força. — Nojo. A resposta veio crua. Sincera. Sem hesitação. — Eu só amo a Marina — continuou. — Só ela. E não vou deixar ninguém, muito menos a Eliza, colocar a mão nela. Nunca. Edward assentiu. Finalmente acreditando. — Então cuidado. — Ele falou num tom baixo, quase um alerta. — Quando a Sanches quer algo… ela não mede consequências. Erick olhou para a cidade, para as luzes lá embaixo. Algo sombrio passou por seus olhos. — Eu sei muito bem do que ela é capaz. E por um instante, ficou claro: A volta de Eliza não era apenas inconveniente. Era uma ameaça. E Erick sabia disso melhor do que ninguém. O clima só começou a aliviar quando Marina e Nicole surgiram com as travessas na mão, trazendo junto uma leveza que desmontou a tensão entre os homens. Elas arrumaram a mesa e se sentaram ao lado de seus companheiros, e bastou isso para Erick finalmente respirar mais fundo. A conversa logo mudou de tom. Entre risadas e provocações, todos acabaram lembrando das loucuras da adolescência — e, no fim, a noite seguiu tranquila, leve e muito melhor do que começou.
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