Os primeiros raios de sol cortaram o quarto pelas frestas das cortinas pesadas, desenhando faixas douradas que repousavam sobre a pele de Marina. Ela despertou devagar, piscando até que os olhos se acostumassem à luz suave. Quando esticou a mão por hábito, encontrou apenas o lençol frio ao lado — Erick não estava ali.
Mas havia um bilhete no criado-mudo.
Marina se ergueu preguiçosamente, ainda envolta no calor da cama, e pegou o pedaço de papel escrito à mão. A letra dele — bonita, inclinada, firme — arrancou um sorriso do rosto dela, mesmo com a voz sonolenta que ecoou em sua mente:
“Meu amor, tive que resolver alguns assuntos e não poderei tomar o café da manhã com você. Volto antes ou depois do almoço.
Erick.”
Um suspiro escapou de seus lábios. Ao olhar para o relógio, percebeu que o “café da manhã” estava perdido há muito tempo — já passava das dez. Dormira mais do que pretendia.
Caminhou nua até o banheiro, deixando um rastro descompromissado de lençóis e perfume. Depois do banho, entrou no closet ainda quase vazio — o espaço de Erick ocupado por poucas roupas, mas pela presença dele inteira. Ela pegou uma camisa dele, grande demais, que m*l escondia as pernas, e vestiu com uma calcinha que havia deixado na bolsa.
Na cozinha, decidiu improvisar um almoço com o que tinha na geladeira e com as sobras da noite anterior. Nada elaborado, mas feito com carinho — e com a esperança de que Erick não fosse exigente com temperos.
Naquela manhã, Erick atravessava o corredor impecável da sede principal das Empresas Miller. Stefano e Gabrielle haviam recomendado que ele conversasse pessoalmente com o velho Miller — e Erick queria aquilo mais do que deixava transparecer. Sentia falta do ritmo da medicina, da sala de cirurgia, do foco total que o trabalho exigia. Não era sobre dinheiro — nunca fora. Era sobre propósito.
Quando o dono das medicinais Miller se levantou para cumprimentá-lo, os olhos do homem brilharam com entusiasmo.
— Doutor Vegas, será um enorme prazer tê-lo em nossa equipe. Seja muito bem-vindo.
Erick apertou sua mão com respeito.
— Eu que agradeço a confiança e a oportunidade.
— Todos que Estefano me recomenda são bem-vindos. Mas sobre você… — Miller sorriu, orgulhoso. — Ele falou que era um dos melhores da equipe.
O velho pegou o telefone, fez uma ligação rápida e poucos minutos depois uma jovem médica entrou. Elegante, postura firme, olhar seguro.
— Mandou me chamar, doutor Miller?
— Sim, Elizabeth. — Ele indicou que ela se sentasse. — Antes de tudo, quero apresentar seu novo colega: Erick Vegas. Renomado cirurgião.
Ela o cumprimentou com profissionalismo impecável. Ele retribuiu.
— Elizabeth será sua sucessora em algumas funções, doutor Vegas — completou Miller. — E você, Elizabeth, ficará responsável por mostrar a clínica ao seu novo colega. Amanhã, na reunião, o apresentarei oficialmente.
Eles caminharam pelos amplos corredores. Ela falava sobre equipamentos, rotinas, alas e particularidades da clínica; ele ouvia com real interesse.
— Você trabalha aqui há bastante tempo — Erick comentou, mais para criar laço do que por curiosidade pessoal.
— Desde a época de estágio — ela respondeu, orgulhosa. — E você? Veio de fora?
— Do Center Coulter. Pedi transferência e… aqui estou.
Após percorrer toda a clínica, ela se despediu com um sorriso cordial.
— Por hoje é isso. Amanhã você conhece sua sala. Se precisar, basta chamar.
Erick agradeceu e permaneceu alguns instantes observando o lugar, sentindo que aquele ambiente, de alguma forma, o pertencia.
— Gostou do que viu? — perguntou Miller, aproximando-se.
— É perfeito — Erick admitiu com sinceridade. — Vai ser bom trabalhar aqui.
O sorriso do velho era quase paternal.
Por volta das treze horas, Marina estava sentada no centro da mesa de jantar, mexendo no suco enquanto observava a comida esfriar pouco a pouco. O silêncio daquele apartamento enorme parecia maior sem Erick.
Quando a fechadura girou, ela levantou imediatamente. Erick entrou com um sorriso que iluminou todo o lugar.
Ele parou no meio da sala ao vê-la vestindo apenas sua camisa, cabelos soltos, pernas nuas.
— Sentiu minha falta? — perguntou, já sorrindo.
Ela o abraçou na ponta dos pés.
— Você não faz ideia.
Ele a puxou para mais perto, inalando o cheiro de banho recém-tomado dela.
— Vamos comer? — perguntou, olhando diretamente nos olhos dela.
— Vamos. Preparei algo simples…
Erick lavou as mãos e sentou-se. Marina o observava como quem aguardava um veredito importante. Ele levou o garfo à boca com toda a calma do mundo, mastigou, e então soltou um sorriso enviesado.
— Pode comer. Está perfeita.
— Está r**m, né? — ela perguntou, vermelha.
— Eu disse isso? — ele provocou.
— Erick…
— Você provou? — ele ergueu a sobrancelha.
— Provei.
— Tava boa?
Ela assentiu.
— Então coma — concluiu, num tom autoritário irresistível.
Ela riu — e obedeceu.
Durante o almoço, ele contou sobre a clínica, sobre o novo emprego, sobre o quanto estava feliz por voltar ao que amava. Marina absorvia tudo com orgulho estampado no rosto.
.......
À noite, na casa de Nicole e Edward.
Quando chegaram ao apartamento do casal, Nicole praticamente atropelou Marina no abraço.
— Marina! Finalmente! — exclamou, ignorando Erick completamente.
— Obrigado pelas saudações, Nicole — Erick ironizou, entrando.
— Ah, Erick, é bom vê-lo também — disse ela, teatral.
Edward surgiu da cozinha com uma garrafa de champanhe levantada.
— Erick! Olha o que te espera.
As meninas seguiram para a cozinha enquanto os rapazes foram para a sacada.
Nicole, claro, não demorou nem trinta segundos.
— E aí? Se divertiram muito ontem à noite? — perguntou dando um empurrãozinho cúmplice.
— Do que você está falando? — Marina tentou disfarçar, mas Nicole gargalhou.
— Ah, por favor. Eu vi o seu sorriso. E a conversa sobre lingeries ontem? Acorda, Marina. Vocês transaram.
— Nicole! — Marina sussurrou desesperada. — Fala baixo!
Nicole sorriu como quem encontrou o ponto exato.
— Então eu acertei.
Marina suspirou, derrotada.
— Tá bom. Tivemos uma noite incrível. Pronto. Agora muda de assunto?
— Só se responder uma coisa — Nicole ergueu o dedo.
— O quê agora?
— Você está feliz?
O rosto de Marina se transformou. O sorriso veio de dentro.
— Eu nunca estive tão feliz. O Erick… ele é incrível. Gentil. Cuidadoso. Ele até me pediu pra morarmos juntos.
Nicole quase pulou.
— MARINA! Meu Deus isso é perfeito!
— Eu disse que ainda não estou preparada, mas… — ela sorriu — ele entendeu tudo.
Nicole apenas balançou a cabeça, encantada.
— Esse homem é completamente apaixonado por você.
Na sacada, o vento frio da noite passava entre eles, carregando o cheiro distante da cidade. Erick falava animado sobre a clínica, sobre o novo apartamento, sobre o rumo que sua vida finalmente estava tomando. Edward sorria, feliz pelo amigo — até que o sorriso desapareceu devagar.
Ele girou a taça de champanhe entre os dedos, como quem pensa duas vezes antes de abrir a boca.
— Erick… posso te perguntar uma coisa?
Erick arqueou ligeiramente a sobrancelha.
— Pode.
— É sobre a Marina. E sobre você. — A voz de Edward estava séria, contida demais. — Vocês estão realmente bem?
Erick soltou uma risada leve, relaxada.
— Estamos no melhor momento possível.
Mas Edward não relaxou. Não retribuiu o sorriso. Pelo contrário: encarou Erick como quem se prepara para dar uma notícia r**m.
— Então você precisa saber de uma coisa.
A mudança de tom fez o corpo de Erick ficar alerta instantaneamente.
Edward respirou fundo.
— A Eliza entrou em contato com a Nicole.
O nome caiu como um estilhaço de vidro.
O ar entre eles pareceu parar.
O sorriso de Erick sumiu na hora. Seus ombros ficaram rígidos, a mão segurando a taça tremeu por um segundo — só um segundo, mas suficiente para que Edward percebesse.
— O quê? — a voz dele saiu baixa, perigosa.
— É. Ela perguntou de você. Disse que você não responde os e-mails dela.
Erick ficou imóvel, mas os olhos… os olhos escureceram.
Um músculo saltou em sua mandíbula. Ele respirou fundo, mas o ar entrou como se machucasse.
— O que essa mulher ainda quer comigo?
Não era irritação comum. Era uma fúria antiga. Contida. Que tinha camadas.
Edward ergueu as mãos, cauteloso.
— Calma, já bloqueamos ela. A Nicole fez na hora. Mas…
— Mas o quê? — Erick cortou, a paciência sangrando.
— Mas você sabe como a Eliza é. Ela nunca bate na porta uma vez só. — Edward o observou com cuidado. — Talvez queira só complicar a sua vida. Você sabe… ela sempre soube onde apertar pra te desestabilizar.
O peito de Erick subiu e desceu mais rápido. Ele passou a mão pela nuca, um gesto automático — mas dessa vez, a mão tremia um pouco.
— Ela não quer perdão, não quer conversa — ele disse, a voz grave, firme, carregada de memória. — A Eliza quer controle. Sempre quis. E quando percebe que não tem, ela destrói o que puder.
Edward hesitou… e perguntou o que temia.
— Erick… você ainda sente alguma coisa por ela?
Erick virou-se devagar, o olhar afiado.
— Você está brincando comigo?
— Não. — Edward respondeu com sinceridade. — Você passou dois anos afastado de todo mundo por causa dela. Dois anos, Erick.
Silêncio.
Um silêncio denso. Tenso.
E então Erick respondeu, sem piscar:
— O que eu sinto pela Eliza é simples. — Ele apertou a taça com força. — Nojo.
A resposta veio crua. Sincera. Sem hesitação.
— Eu só amo a Marina — continuou. — Só ela. E não vou deixar ninguém, muito menos a Eliza, colocar a mão nela. Nunca.
Edward assentiu. Finalmente acreditando.
— Então cuidado. — Ele falou num tom baixo, quase um alerta. — Quando a Sanches quer algo… ela não mede consequências.
Erick olhou para a cidade, para as luzes lá embaixo. Algo sombrio passou por seus olhos.
— Eu sei muito bem do que ela é capaz.
E por um instante, ficou claro:
A volta de Eliza não era apenas inconveniente. Era uma ameaça. E Erick sabia disso melhor do que ninguém.
O clima só começou a aliviar quando Marina e Nicole surgiram com as travessas na mão, trazendo junto uma leveza que desmontou a tensão entre os homens. Elas arrumaram a mesa e se sentaram ao lado de seus companheiros, e bastou isso para Erick finalmente respirar mais fundo.
A conversa logo mudou de tom. Entre risadas e provocações, todos acabaram lembrando das loucuras da adolescência — e, no fim, a noite seguiu tranquila, leve e muito melhor do que começou.