Capítulo 1
O cheiro de fumaça de charuto grudava no céu da minha boca. O ar-condicionado do escritório estava no máximo, mas gotas grossas de suor escorriam pela nuca do meu pai. Ele segurava um copo de uísque barato com as duas mãos. Os dedos dele tremiam. O gelo batia no fundo do copo de cristal.
Clack. Clack.
Era o único som na sala.
Nós estávamos no escritório de Dante Russo. O centro da Cosa Nostra. Um matadouro com móveis de luxo e paredes forradas de madeira escura. Não tinha janelas ali. A luz vinha apenas de um abajur de bronze em cima da mesa principal.
Duas portas marcavam as saídas. Quatro guardas estavam espalhados pelos cantos escuros da sala. Homens grandes, vestindo ternos pretos. Eles seguravam armas automáticas com as correias presas ao peito. Eles não piscavam. Eles não mudavam o peso de uma perna para a outra. Apenas observavam.
Eu estava sentada num sofá de couro. O assento frio pinicava a parte de trás das minhas coxas. Eu usava um vestido de algodão cinza de corte reto, abotoado até a base do pescoço. O tecido áspero arranhava a minha pele. Meus joelhos tremiam na saia, então juntei as pernas e apertei as mãos no colo até as unhas marcarem as palmas.
Meu pai, Lorenzo, levou o copo à boca e engoliu o resto da bebida de uma vez só. Ele cheirava a medo, suor velho e álcool. Um homem patético e um viciado em jogos de azar. Ele devia cinco milhões de dólares para a máfia. Dinheiro de sangue.
- Ele está testando a gente - meu pai sussurrou. A voz dele falhou, fina e seca. — Ele quer ver quem quebra primeiro.
-Fique quieto - eu respondi baixo, sem olhar para ele.
Dante Russo já estava na sala. Sentado atrás da enorme mesa de mogno.
Ele não se movia. Os olhos escuros e afundados no rosto marcante estavam fixos no meu pai há dez minutos. Ele não parecia um homem de negócios entediado em uma reunião. Ele parecia um predador medindo a distância exata para dar o bote final. Um assassino silencioso.
Dante não mostrava sorriso algum. Nenhuma expressão cruzava o rosto dele. Nenhuma linha de tensão. Era uma máscara dura. Ele vestia um terno preto bem cortado e uma camisa preta por baixo, sem gravata. O colarinho aberto mostrava a pele pálida do pescoço e uma sombra de tatuagem. Os dedos grandes dele estavam abertos na mesa vazia.
O silêncio continuou. O relógio de parede marcou os segundos. Tique. Taque.
Meu pai começou a respirar pela boca. O peito dele subia e descia rápido. O ar no escritório ficou pesado. Difícil de puxar para os pulmões.
-Cinco milhões, Lorenzo.
A voz de Dante cortou o silêncio do nada. Era baixa. Grossa. Seca como lixa.
Meu pai deu um pulo na cadeira. O copo vazio escapou da mão dele e rolou pelo tapete escuro. Ele não tentou pegar.
-Dante. Senhor Russo. Don Russo. - Meu pai gaguejou, esfregando as mãos molhadas na calça suja de linho. - Eu... eu sei. Eu sei do prazo. Eu tenho uma oferta para você hoje.
-Você tinha até a meia-noite de ontem para o dinheiro. O prazo acabou. Os meus homens foram na sua casa hoje de manhã para cobrar e você implorou por esta reunião. Fale logo.
- Eu não tenho o dinheiro vivo. Os bancos fecharam as minhas contas e os agiotas não querem me emprestar mais nada. Mas eu trouxe o pagamento. Um pagamento definitivo.
Meu pai esticou o braço magro e apontou para mim com o dedo indicador tremendo.
- Siena. A minha filha mais velha.
Os olhos de Dante se moveram. Apenas os olhos. O pescoço largo continuou completamente rígido. O olhar dele bateu no meu rosto. Desceu para o tecido barato do meu vestido fechado. Avaliou a postura dos meus ombros. E voltou para os meus olhos.
Nenhum brilho escuro. Nenhuma luxúria de um homem olhando para o corpo de uma mulher. Nenhum interesse real. Ele olhou para mim como se eu fosse um cinzeiro vazio em cima da mesa.
- Uma mulher não vale cinco milhões - Dante disse. A voz não subiu nenhum tom.
- Ela é virgem! - meu pai gritou. O pânico fez ele cuspir as palavras. - Nunca foi tocada por nenhum homem. Eu a criei trancada no quarto da nossa casa. É bonita, olhe para ela. Cabelo escuro, dentes retos. É forte e não fica doente.
O meu estômago revirou com força. A bile amarga subiu pela minha garganta e eu engoli seco. Eu era gado. Um animal sendo exposto num leilão sujo na frente de atiradores.
- Cale a boca - eu disse entre os dentes, virando o rosto para o meu pai.
- Fique calada, Siena! - Ele gritou de volta, os olhos esbugalhados, e então virou para Dante com um sorriso forçado. - Viu? Ela tem raiva, mas é obediente. Aprende rápido o que mandam. Você precisa de uma esposa, Don Russo. A máfia inteira sabe disso. O Conselho exige um casamento. Ela é sangue italiano. Uma Bianchi. O corpo dela paga a minha dívida. Paga o sangue que eu derramei dos seus homens na semana passada.
Dante continuou em silêncio. Ele piscou uma vez, devagar.
Meu pai começou a ofegar novamente. Ele levou as mãos à cabeça, puxando os próprios cabelos ralos. A ausência de resposta o deixava louco.