A Cúpula dos Gênios e a Visita
Eu, pensando em chegar na chancelaria, estacionar o Mercedes, comer algo leve e ir para a cama, sou surpreendido com um chamado urgente:
— Herr Assessor, reunião em dez minutos no QG central.
Esse espaço pomposo nada mais era do que uma grande sala de reuniões, com uma mesa oval onde grandes malucos se reuniam para transformar qualquer pequeno acontecimento em algo grande. Muito grande.
Ao entrar na sala, vi que, com exceção do Göring, todos já se encontravam à espera do Führer. Alguns conversando, outros vasculhando papéis nas suas pastas... tudo normal. Parece que nervoso naquele ambiente era apenas eu. Contudo normal para quem só tinha reunião de pais e mestres. Poucos minutos depois, ele adentra a sala e, de pé, todos nós berramos sua saudação. Ele, como se desprezasse todos, apenas levantou um pouco a mão direita, como quem diz: “Estou respondendo por educação”, tamanha má vontade.
Bebeu uns dois goles de água e falou:
— Senhores, há pouco tempo recebi de Roma o comunicado de que o cabeção — digo, Mussolini — quer nos visitar no início de novembro. Ele se auto convidou, mostrando que a educação desses latinos é deplorável. Colocou as mãos para trás, deu dois pequenos passos e continuou: Não nos dá tempo hábil para recebê-lo como se deve a um chefe de Estado. Mas nós, que fazemos o III Reich Alemão — um império de mil anos (ou mais uma coisinha) —, não vamos nos abater com esses pequenos detalhes.
Meu amigo, os aplausos foram contagiantes. Até eu, quando vi, estava aplaudindo.
— O Duce vem de trem, e devemos recepcioná-lo já na estação — concluiu Hitler.
Foi nessa hora que o marechal do ar, Göring, adentrou a sala:
— Com licença... com licença. Desculpem o atraso, tive que levar mamãe ao dentista — falou Göring enquanto colocava sobre a mesa sua pasta de couro.
Hitler simplesmente olhou para ele e decretou:
— Sem comentário, depois falamos.
O general Keitel sugeriu um desfile militar com todas as tropas, armas da infantaria e tudo que mostrasse o poder bélico alemão. E Hitler achou a ideia fantástica — como se o maluco que vai chegar já não estivesse cansado de ver homem marchando.
— Isso, Herr General! Um imenso desfile! Vamos começar por volta das nove da manhã e estender até a hora da sopa. Tá vendo, Göring? É assim que tem que ser! Não ficar queimando o expediente como se fosse funcionário público de republiquetas decadentes que não vão durar nem dez anos — quanto mais mil, ou mais uma coisinha. Você tem algo a acrescentar?
E o marechal, ainda trêmulo, respondeu:
— Sim, meu Führer... Podemos colocar toda a nossa força aérea sobrevoando o desfile, dando rasantes no Portão de Brandemburgo. Já pensou, meu Führer? Mais de doze mil aeronaves voando, e terminando com um salto de paraquedistas!
— Göring... você já assistiu a um desfile militar do III Reich? É uma beleza! Tudo organizado. No palanque, as autoridades conversam, gostam de escutar o locutor falando: “Agora, a Legião Adolf Hitler!” E depois: “Está passando o canhão mais poderoso do mundo, puxado pelo cavalo mais forte do mundo!” Essas coisas... Agora você quer jogar na cabeça da gente doze mil aviões zunindo das nove da manhã até às dezoito horas?! Faça assim: mande vinte, depois de duas horas mais vinte... Assim a gente pode conversar e ouvir a locução do evento. Quero todos os militares marchando até descolar a sola do coturno! Ah, sim, já ia esquecendo: não quero aquela besteira de pirâmide de motociclista, nem carro de bombeiro, tampouco a cavalaria — fica um cheiro de cocô de cavalo entranhado no meu bigode por dias.
Atenção, Himmler: segurança redobrada. Nada de vendedor de churrasquinho, nem pedinte! E você, Goebbels, eu quero muita bandeira pendurada em tudo! Nada de uma bandeirinha aqui, outra acolá. Quero que, pra onde o cabeçudo — digo, Mussolini — se virar, tenha uma bandeira na cara dele! Bem, às seis horas a gente para, toma a sopa e parte para o Palácio dos Esportes, e pegue discursos até umas horas. Ele vai passar três dias aqui — vão ser três dias de desfiles militares e discursos. Quero ver ele sair daqui falando m*l da hospitalidade alemã.
Depois da reunião, Hitler conversava com Himmler quando, ao me ver saindo da sala, chamou:
— Herr Assessor, um minuto, por favor.
Quero lhe pedir que, caso nosso visitante faça alguma pergunta sobre a guerra... desconverse. Ainda não sabemos se podemos confiar inteiramente nele. Até que a Gestapo me entregue um relatório completo, todos são suspeitos.
Fez uma pausa breve, como quem procura uma lembrança esquecida.
— Ah, sim... quero você ao meu lado durante o desfile. Bem, é só isso. Boa noite.