Eu sou o meio. E o fim

1240 Words
Milena Eles não sabem, mas eu estou vendo tudo, o modo como Bruno me olha quando pensa que estou distraída, o modo como Fábio respira fundo quando estou perto demais, cada gesto contido. Cada silêncio explosivo, cada frase que não dizem, e eu adoro. Quando Bruno descobriu sobre minha noite com Fábio, eu soube antes dele contar a alguém, ele chegou mais cedo do que o habitual. Batida seca na porta, olhos de tempestade contida. — “Foi só uma noite?” — ele perguntou. Respondi com um gole de chá. — “Foi tudo que ele precisava, e tudo que você não teve coragem de tomar.” Ele não gritou, não quebrou nada, mas os olhos…os olhos arderam mais do que qualquer t**a. Fábio, por sua vez, anda inquieto,me toca como se tentasse marcar território, como se eu fosse dele agora, bobo, eles acham que é amor, mas o que eu criei foi algo mais complexo, desejo somado a desafio, ego somado a paixão, perigo somado a ternura, eles me veem como mulher, mas esquecem que eu sou também o espelho onde eles mesmos se revelam,os dois por inteiro, ou nenhum Eles aceitaram, Bruno mordeu o lábio, Fábio franziu o venho mas aceitaram. um fim de semana, sem promessas, sem contratos, sem esconderijos, apenas nós três, em um lugar isolado, com tempo de sobra para o que não pode ser dito em público, não sei se quero o toque deles, ou o poder de vê-los se segurando para não me tocar ao mesmo tempo, talvez ambos, e talvez... só talvez..queira me perder entre os dois pra lembrar que ainda sou humana. Casa de campo — interior do Parana sexta, 21h13 Eu chego antes, roupão branco, lareira acesa, jazz em vinil, Bruno chega primeiro, vinho tinto na mão, barba por fazer, olhos que nunca me deixaram em paz, Fábio chega depois, camisa preta, olhar desconfiado. Mãos no bolso como se escondessem sua raiva. — “Isso aqui é real?” — ele pergunta. — “É agora, e isso basta.” Jantamos, falamos pouco,Bruno me olha nos lábios, Fábio olha Bruno, eu como morango como quem acende uma dinamite com a língua, depois, caminhamos até a varanda, a noite tá fria, mas os três sabem que não é o clima que arrepia,Bruno encosta minha mão, Fábio segura meu pescoço, por um instante... o mundo para, eu recuo. — “Nada ainda, só desejo, só tensão.” Eles obedecem, é nisso que reside o poder, eles me querem, mas eu decido,ja no quarto, Fábio não dorme, sai pela casa, acha que eu não percebo,mas eu vejo tudo,ele fuça no meu escritório,peega um pendrive escondido no fundo falso da gaveta,ele quer saber de onde vem minha fortuna,e vai descobrir, no pendrive , conteúdo: confidencial – Cópias de transferências em bancos no Qatar e Suíça. – Fotografias de reuniões secretas com nomes da ONU. – Conversas em japonês criptografadas com um selo: "** — Kurohebi (Cobra n***a)" – Uma assinatura digital: Yamamoto Kai — nome do antigo líder de um clã que supostamente morreu há 3 anos. Fábio lê, fica pálido, senta na poltrona do meu escritório. — “Ela não só lida com o crime… ela comanda a política do medo.” Na manhã seguinte Fábio não fala comigo no café, Bruno sente a tensão, mas não sabe de onde vem, eu apenas sorrio, cruzo as pernas devagar, como quem sabe demais e revela de menos, no fim da tarde, na sauna da casa, convido os dois, eles vêm, toalhas,suor, olhares,insegurança,me sento entre eles,deixo uma gota de água escorrer entre meus s***s. — “Querem saber a verdade sobre mim?” — “Sim.” — diz Bruno. — “Não.” — responde Fábio. Eu rio, eles se olham, é oficial o jogo virou guerra silenciosa. Noite de sábado, estamos no mesmo quarto, duas taças, uma cama enorme, corpos em silêncio, eles não tocam um ao outro, mas me tocam como se o mundo fosse acabar, e talvez acabe, porque Fábio sabe demais, e Bruno ama demais, e eu ? eu sou a mulher entre o segredo e o desejo, entre a bala e o beijo, entre a verdade que destrói… e a mentira que alimenta, de volta a capital na sala de reuniões, Fábio senta à minha esquerda, Bruno, à direita, ambos tensos. um propõe um novo esquema logístico com criptografia japonesa, o outro sugere rota alternativa pelos portos do sul, enquanto discutem, eu sorrio, Thiago observa tudo sem intender nada, eles estão falando de negócios,mas o que estão disputando… é meu corpo, meu afeto, meu juízo., e eu? eu os estudo. Como um cientista viciado na própria criação , a noite, sozinha no espelho, toco os lábios, ainda sinto o gosto de Fábio, mas na memória, ainda pulsa o beijo de Bruno, eu os desejo, ambos, em intensidades diferentes, em camadas que nem Freud explicaria. Talvez um dia escolha, mas agora? Agora quero o poder de ser o centro, a chama, o altar e o sacrifício. Bruno voltou a me mandar mensagens, coisa de poeta que sangra,Fábio me trouxe flores negras, raras, venenosas, Eu os observo. Enquanto caminho por entre os dois, como quem cruza uma ponte prestes a ruir; Ja é madrugada e da varanda do meu quarto, a cidade dorme, eles não, Bruno me observa da calçada, como se quisesse invadir, Fábio me espera na cozinha, como se quisesse me acalmar, mas eu não sou calma, sou o sussurro antes do grito o g**o antes do caos, a dúvida que os move, e amanhã? talvez os beije ao mesmo tempo, talvez os mande embora, ou talvez…os faça entender que não é amor o que sentem. É rendição, amar uma rainha exige mais do que coragem,um tempo depois ,Bruno estava encostado na porta do meu quarto como se fosse o fim da linha,Fábio tinha saído,era o momento que ele esperava, o momento do ultimato. — “Milena, chega disso, ou eu ou ele, escolhe.” Ele disse isso com a voz embargada, os olhos de alguém que já sangrou por amor — e não quer sangrar de novo, eu o encarei,cruzei as pernas,sentei-me na beira da cama com calma,Respirei fundo,senti o gosto do poder escorrendo pela minha língua. — “Você quer que eu escolha entre dois mundos, Bruno…quando fui eu que construí os dois.” Ele não respondeu, eu me levantei,me aproximei devagar. — “Fábio é lealdade, você é loucura,ele me protegeria do mundo,você… me queimaria por dentro.” Toquei o rosto dele. — “Mas nenhum dos dois está preparado pro que eu quero de verdade.” Ele fechou os olhos. — “O que você quer, Milena?” Sorri,baixei o tom. — “E se não fosse eu que tivesse que escolher? e se vocês escolhessem a mim… juntos?” O silêncio entre nós foi c***l, mas eu vi, no fundo dos olhos dele a faísca, não era repulsa, era medo,medo de me querer tanto a ponto de considerar isso,mais tarde, naquela mesma noite, Fábio voltou,Bruno estava sentado no sofá da sala,meio copo de whisky na mão,punhos cerrados,pálpebras pesadas, Fábio parou, o encarou, silêncio. — “Ela já escolheu?” — ele perguntou. — “Ela nos escolheu.” — Bruno respondeu, com um sorriso amargo. Eu entrei devagar, de robe de seda, cabelos molhados, perfume de pêssego e jasmim,eles me olharam como se eu fosse uma sentença.
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