Capítulo:65_Stella POV.

815 Words
​Acordei com um peso no peito e segui para o campo de treinamento. Desde o dia em que Dario veio conversar comigo, não parei de pensar. Levou tempo, mas finalmente entendi que Anika é apenas mais uma sobrevivente neste mundo c***l, exatamente como eu. Ambas perdemos quem amávamos e sofremos em silêncio por anos. Eu sei que não passei por metade do que ela enfrentou, o que só prova que ela é uma guerreira por ter superado cada cicatriz. ​Quando começamos o treino, percebi que ela não era tão indefesa quanto os meninos pintavam. Anika sabia se mover; seus golpes não eram perfeitos, mas eram o suficiente para mantê-la viva até que o socorro chegasse. Ela é mais rápida que um lobisomem comum e possui uma força latente que ainda não aprendeu a dominar. Nada que um bom treinamento não resolva. ​Durante a prática, os enjoos matinais voltaram com força total. Tive que correr para trás de uma árvore próxima para não vomitar na frente de todos. Enquanto eu estava agachada, sentindo como se fosse colocar as tripas para fora, senti uma mão firme segurando meu cabelo e outra massageando minhas costas. Pelo cheiro amadeirado e marcante, eu sabia: era o Dylan. ​Sempre achei estranho como o cheiro dele era o único que eu conseguia distinguir com tanta clareza entre todos os homens da matilha. Dylan não fez perguntas; apenas ficou ali, ao meu lado, até que eu melhorasse. Por um momento, senti como se ele soubesse... como se soubesse que o filho que carrego é dele. ​Voltamos em silêncio para o campo. Paramos ao ver Damian e Dario agindo como dois idiotas possessivos, rosnando porque Anika estava se despindo na frente do coitado do Gael — que estava pálido de medo dos dois brutamontes. Dei um "chega para lá" nos meus amigos marentos e garanti espaço para Anika se transformar. Fiquei satisfeita ao ver que ela não levou uma surra de primeira na forma de loba. ​Após o treino, voltei para casa com Gael. Ele jurou que não treinaria mais com Anika, pois sentia que os meninos queriam devorá-lo vivo. O que ninguém sabe é que Gael é apaixonado por mim, e existe um segredo entre nós que, se depender de mim, morrerá comigo. Quando descobri a gravidez, achei que ele ficaria furioso, mas desde que meu pai — o maior fofoqueiro da alcateia — contou a ele, Gael tem sido meu maior apoio emocional. ​— Pai, cheguei! — anunciei ao entrar, correndo direto para o banheiro. O cheiro da comida me atingiu como um soco. ​— Se continuar assim, terei que contratar alguém para cozinhar no meu lugar! — meu pai gritou da cozinha, entre risos preocupados. ​Lavei o rosto e me encarei no espelho. Eu estava um caos: olheiras profundas e uma palidez doentia. ​— Nossa, Stella... você está um trapo — sussurrei para o meu reflexo. ​Tentei ir para a cozinha, mas o estômago revirou novamente. Desisti e subi para o quarto, deixando meu pai almoçando com Gael. Momentos depois, meu pai apareceu na porta. ​— Filha, está se sentindo melhor? ​— Desculpa, pai... por não conseguir comer o que você faz com tanto carinho — falei, com a voz embargada. ​— Está tudo bem, estrelinha. É do meu neto que estamos falando. Não me importo de contratar ajuda até que esses enjoos passem — ele disse, sentando-se ao meu lado e acariciando meu cabelo. ​— Pai... você acha que estou certa em esconder a verdade do Dylan? ​Ele suspirou, pensativo. — Serei sincero com você. Acho que esconder isso não é uma boa ideia. Você sabe melhor que ninguém que o primeiro filho é vital para um Alfa. Essa criança será o próximo herdeiro desta alcateia. ​Passei a tarde suspirando de frustração. Comi banana com requeijão — o único desejo que meu estômago aceitou — e tomei uma decisão: contaria para a Anika. Ela demonstrou preocupação comigo durante o treino, e eu não queria mais sustentar mentiras. ​Tomei banho e vesti um vestido branco simples, acima dos joelhos, com detalhes em renda. Enquanto me arrumava, outro dilema surgiu: a paternidade. Eu sabia que, mais cedo ou mais tarde, teria que encarar o Dylan e contar a verdade. ​Caminhei até a mansão e descobri que Anika estava descansando. Subi ao corredor e a encontrei saindo do quarto. Achei que ela me expulsaria aos gritos, mas, ao ver meu estado, ela abriu a porta e me convidou a entrar. ​Conversamos e choramos por meia hora. Pela primeira vez desde que perdi minha irmã, Olívia, eu me permiti ser fraca. Deixei meus medos transparecerem. Anika não me julgou; ela me abraçou. Entendi que ela também carrega feridas profundas e que, ironicamente, o motivo do sofrimento de ambas tinha o mesmo nome: Dylan Lancaster.
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