Capítulo:02-Anika Pov

799 Words
Depois do jantar, o silêncio pesado desceu sobre a casa, e logo todos se retiraram para descansar. Eu ainda sentia a dor lancinante da mão fraturada e das feridas nas costas. A prata havia queimado a pele onde as correntes me prenderam, e agora a punição do padrasto se misturava à crueldade de Thayssa. ​Cuidei dos meus últimos afazeres, limpando os pratos sujos e guardando tudo, antes de pegar uma pequena lanterna e sair. A algumas centenas de metros da casa, havia uma pequena clareira que escondia a entrada de uma caverna, meu único refúgio. O interior era simples, decorado apenas com um tapete velho, alguns livros surrados e as poucas fotos que eu tinha do meu falecido pai, o único que um dia me tratou com bondade. ​Deitei-me no tapete e me enrolei na manta áspera que eu mantinha ali para me aquecer. Finalmente sozinha, permiti que as barreiras caíssem. Chorei: lágrimas de exaustão, de raiva contida e, acima de tudo, de um medo frio e paralisante. Medo de que, no final das contas, eu fosse uma aberração. Medo de que meu destino fosse ser jogada para fora, sozinha e desprotegida. A dor e o cansaço eram exaustivos demais para lutar. Depois de longos minutos, o sono me alcançou. ​Acordei com a luz do dia entrando pela a******a da caverna. O pânico me atingiu. Levantei-me rapidamente e corri para casa, desesperada para terminar minhas tarefas antes que eles acordassem. Minha mão quebrada protestava a cada movimento brusco, mas eu ignorei. ​Comprei pão na padaria. Assei o bolo de fubá. Preparei o mingau de aveia, que Thayssa fazia questão de comer todas as manhãs. A cozinha estava limpa e cheirosa quando a família desceu para o café. Eu estava uma pilha de nervos, mas havia um brilho de esperança misturado à ansiedade. ​Faltava apenas uma noite. Depois da meia-noite, o grande e esperado dia chegaria. Eu conheceria meu lobo pela primeira vez. ​Logan sentou-se à mesa, seguido por Darcy e Thayssa. Eu os servi, sentindo meu corpo tenso e rígido, antes de me sentar timidamente. ​"Thayssa, minha filha, hoje você receberá seu lobo. Comprei um presente para você usar na cerimônia esta noite." ​Darcy pegou uma caixa de joias azul-marinho e a entregou à minha meia-irmã. Thayssa a abriu com um sorriso vitorioso. Dentro, havia um colar perfeitamente trabalhado em ouro, com uma pedra rosa em formato de lua. ​"É perfeito! Eu adorei. Obrigada, mãe." Thayssa agradeceu, beijando a bochecha de Darcy. ​Logan me encarou por cima da xícara de café, um sorriso de escárnio brincando em seus lábios. ​"Anika, está ansiosa para conhecer seu lobo? Se é que ele existe, né?" ​"Eu tentarei o meu melhor," murmurei, mantendo os olhos fixos na minha mãe, buscando alguma réstia de apoio, de humanidade. Ela não mostrava nenhuma emoção. ​"Não me olhe assim," Darcy retrucou, batendo a mão na mesa com força. "Você acha que eu pedi para dar à luz a uma aberração que só me envergonha? Sem um lobo, você não vale nada." ​Naquele instante, a dor e a exaustão se transformaram em uma faísca de coragem e raiva. Minha cabeça ergueu-se, o olhar fixo no dela. ​"E você acha que eu pedi para nascer assim? Ou para ter uma mãe que me trata como lixo?" ​"Chega!" ​Logan se levantou da cadeira com tanta violência que a derrubou. Ele veio em minha direção e deu um tapa no meu rosto com uma força devastadora. O anel de sinete que ele usava cortou minha pele, e a dor explodiu. Caí de lado no chão, sentindo o zumbido no ouvido e o gosto de sangue na boca. ​"Anika, para o porão! Agora!" ​Ele me puxou pelo braço, arrastando-me pela sala de jantar. ​"Por favor, Logan! Aceito qualquer castigo, mas hoje não! É minha última chance! Por favor, não me tranque naquele lugar!" ​Implorei, mas ele não me ouviu. Chegando ao porão úmido e escuro, ele me jogou no chão. Em um movimento rápido e brutal, enrolou as correntes de prata em meus pulsos já machucados, e o metal frio e odioso queimou como ácido em todas as minhas feridas abertas. ​Eu me contorci, gritando, enquanto ele forçava um punhado de pó de acônito, a erva-matalobos, no meu nariz. O cheiro potente e tóxico invadiu meus pulmões. O mundo começou a girar, a prata me queimava, a droga me asfixiava. ​Ele saiu e trancou a porta, deixando-me acorrentada na escuridão, como uma prisioneira. ​Gritei e chorei, lutando contra o entorpecimento, mas era inútil. O veneno e a dor me consumiram até que, finalmente, desmaiei no chão de terra batida. O último pensamento foi o prazo: faltavam poucas horas.
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