Depois do jantar, o silêncio pesado desceu sobre a casa, e logo todos se retiraram para descansar. Eu ainda sentia a dor lancinante da mão fraturada e das feridas nas costas. A prata havia queimado a pele onde as correntes me prenderam, e agora a punição do padrasto se misturava à crueldade de Thayssa.
Cuidei dos meus últimos afazeres, limpando os pratos sujos e guardando tudo, antes de pegar uma pequena lanterna e sair. A algumas centenas de metros da casa, havia uma pequena clareira que escondia a entrada de uma caverna, meu único refúgio. O interior era simples, decorado apenas com um tapete velho, alguns livros surrados e as poucas fotos que eu tinha do meu falecido pai, o único que um dia me tratou com bondade.
Deitei-me no tapete e me enrolei na manta áspera que eu mantinha ali para me aquecer. Finalmente sozinha, permiti que as barreiras caíssem. Chorei: lágrimas de exaustão, de raiva contida e, acima de tudo, de um medo frio e paralisante. Medo de que, no final das contas, eu fosse uma aberração. Medo de que meu destino fosse ser jogada para fora, sozinha e desprotegida. A dor e o cansaço eram exaustivos demais para lutar. Depois de longos minutos, o sono me alcançou.
Acordei com a luz do dia entrando pela a******a da caverna. O pânico me atingiu. Levantei-me rapidamente e corri para casa, desesperada para terminar minhas tarefas antes que eles acordassem. Minha mão quebrada protestava a cada movimento brusco, mas eu ignorei.
Comprei pão na padaria. Assei o bolo de fubá. Preparei o mingau de aveia, que Thayssa fazia questão de comer todas as manhãs. A cozinha estava limpa e cheirosa quando a família desceu para o café. Eu estava uma pilha de nervos, mas havia um brilho de esperança misturado à ansiedade.
Faltava apenas uma noite. Depois da meia-noite, o grande e esperado dia chegaria. Eu conheceria meu lobo pela primeira vez.
Logan sentou-se à mesa, seguido por Darcy e Thayssa. Eu os servi, sentindo meu corpo tenso e rígido, antes de me sentar timidamente.
"Thayssa, minha filha, hoje você receberá seu lobo. Comprei um presente para você usar na cerimônia esta noite."
Darcy pegou uma caixa de joias azul-marinho e a entregou à minha meia-irmã. Thayssa a abriu com um sorriso vitorioso. Dentro, havia um colar perfeitamente trabalhado em ouro, com uma pedra rosa em formato de lua.
"É perfeito! Eu adorei. Obrigada, mãe." Thayssa agradeceu, beijando a bochecha de Darcy.
Logan me encarou por cima da xícara de café, um sorriso de escárnio brincando em seus lábios.
"Anika, está ansiosa para conhecer seu lobo? Se é que ele existe, né?"
"Eu tentarei o meu melhor," murmurei, mantendo os olhos fixos na minha mãe, buscando alguma réstia de apoio, de humanidade. Ela não mostrava nenhuma emoção.
"Não me olhe assim," Darcy retrucou, batendo a mão na mesa com força. "Você acha que eu pedi para dar à luz a uma aberração que só me envergonha? Sem um lobo, você não vale nada."
Naquele instante, a dor e a exaustão se transformaram em uma faísca de coragem e raiva. Minha cabeça ergueu-se, o olhar fixo no dela.
"E você acha que eu pedi para nascer assim? Ou para ter uma mãe que me trata como lixo?"
"Chega!"
Logan se levantou da cadeira com tanta violência que a derrubou. Ele veio em minha direção e deu um tapa no meu rosto com uma força devastadora. O anel de sinete que ele usava cortou minha pele, e a dor explodiu. Caí de lado no chão, sentindo o zumbido no ouvido e o gosto de sangue na boca.
"Anika, para o porão! Agora!"
Ele me puxou pelo braço, arrastando-me pela sala de jantar.
"Por favor, Logan! Aceito qualquer castigo, mas hoje não! É minha última chance! Por favor, não me tranque naquele lugar!"
Implorei, mas ele não me ouviu. Chegando ao porão úmido e escuro, ele me jogou no chão. Em um movimento rápido e brutal, enrolou as correntes de prata em meus pulsos já machucados, e o metal frio e odioso queimou como ácido em todas as minhas feridas abertas.
Eu me contorci, gritando, enquanto ele forçava um punhado de pó de acônito, a erva-matalobos, no meu nariz. O cheiro potente e tóxico invadiu meus pulmões. O mundo começou a girar, a prata me queimava, a droga me asfixiava.
Ele saiu e trancou a porta, deixando-me acorrentada na escuridão, como uma prisioneira.
Gritei e chorei, lutando contra o entorpecimento, mas era inútil. O veneno e a dor me consumiram até que, finalmente, desmaiei no chão de terra batida. O último pensamento foi o prazo: faltavam poucas horas.