Renata
Novamente ouvi uivos no bosque da casa, tem alguma coisa lá fora, mas ninguém fala nada sobre isso, parece que sou a única que escuto.
—esta pensativa.— diz Nicolae bebendo um chocolate quente, hoje está muito frio, até está nevando.
—não é nada, finalmente tive uma folga do trabalho, mas logo hoje tinha que nevar.— falo meio decepcionada pois queria conhecer a cidade.
—vai ter um feriado logo, tenho certeza que o clima vai estar bom para sair.— diz olhando a televisão.
—cade o Andrei?— pergunto pois não vi ele o dia inteiro.
—meu irmão adotivo arrumou um trabalho em uma empresa, vai voltar a noite.— diz Cezar sentando no outro sofá, ele está comendo pipoca.
(...)
Acordo e noto que dormi com a cabeça no colo de Nicolae, percebo que ele está fazendo cafuné em mim, acho que ainda não notaram que eu acordei.
—você não deveria se apegar a essa estrangeira, ela não sabe de nada que acontece aqui. — é a voz do Aurelious, pai deles.
—você sabe que não manda em mim, e eu não me importo com essas regras malditas.— Nicolae parece estar bravo.
—sabe muito bem que quando ela descobrir a verdade irá embora e fingir que nunca esteve aqui.— é a voz da Daciana, esposa do Aurelious.
—quer mesmo falar sobre isso enquanto ela está dormindo no meu colo?— droga, eu tô curiosa.
Depois de alguns minutinhos finjo começar a acordar.
—desculpa por ter dormido no seu colo, o frio me dá sono.— falo corada.
—tudo bem, fico lisonjeado por ter sido seu travesseiro, bela adormecida.— diz com um sorriso e eu começo a rir baixo.
—tem como parar de flertar na nossa frente, irmão? Estamos tentando assistir o filme.— Cezar fala sem olhar para nós.
Depois de uma hora de filme, escuto a porta abrir, Andrei entra em casa ensanguentado, tem feridas em todo seu corpo, parece que um animal muito grande o machucou.
Todos se levantam e vão até ele preocupados, vejo Aurelious apoiar o braço do filho em seu ombro.
—Andrei, quem fez isso com você?— pergunta o pai dele que o coloca no sofá.
—Ra... Raul....— vejo que Andrei fica inconscientemente logo depois de falar.
(...)
Todos os homens saíram e deixaram Andrei no quarto dele se recuperando, não entendo o porquê de não levarem ele para um hospital, se foi uma pessoa, por que não ligaram para a polícia?
—quer ajudar meu irmão a se recuperar mais rápido? Se realmen.....— Aline é interrompida pela mãe.
—não ouse dizer mais nada garota!— Daciana parece brava com a filha adotiva, provavelmente falou o que não deveria, mas no momento minha atenção está em Andrei, estou muito preocupada.
(...)
Estou cuidando do Andrei que continua a dormir, parece que a maioria dos ferimentos dele sumiu ou diminuiu.
Me sento na poltrona e fico alí, estou com muito sono e já é de madrugada, meus olhos estão pesados por causa do cansaço, acabo me rendendo ao sono....
(...)
Acordo com um pouco de dor de cabeça e no pescoço, Andrei não está na cama, me levanto e caio no chão, minha visão está escurecendo.
(...)
Não tenho força para abrir os olhos, mas consigo ouvir uma conversa, tem duas pessoas discutindo.
—olha o que você fez com ela! Bebeu demais, ela nem consegue levantar, se tivesse bebido mais provavelmente ela teria morrido!— pela voz é Nicolae.
—eu não estava consciente, nunca iria machucar ela, sabe disso.— é a voz do Andrei.
—sua falta de controle poderia ter a matado, disso eu sei!— Nicolae está bravo.
—eu estava muito ferido, sabe que eu não tenho falta de controle a anos.— Pela voz do meu amigo, sinto seu arrependimento.
—chega! Ela está viva, e Andrei está bem.— é a voz da Daciana.
—como ela vai para o trabalho fraca desse jeito? Além disso que desculpa vão dar?— Pela pergunta de Nicolae sua preocupação é evidente.
—seu irmão apagou a memória dela sobre a mordida.— Daciana fala calmamente, espera, apagar memória? Como assim?
—você não merece estar perto dela, quantas vezes isso aconteceu e você apagou a memória dela?— Nicolae fala de uma forma brava.
—você sabe que eu não pedi para ser assim— pela voz do Andrei...., isso não foi uma vez só não.
—então isso aconteceu outras vezes!— Nicolae parece muito puto.
—CHEGA!— Daciana parece estar de saco cheio.
Fico em silêncio fingindo que estou dormindo, se isso tudo que ouvi for o que estou pensando então......
Andrei é um vampiro, ele me enganou todos esses anos que nos tivemos de amizade, eu falava sobre vampiros e ele me olhava como se eu fosse uma lunática ou fazia brincadeira sobre isso. O pior não é isso, ele mentiu para mim, me mordeu, me sinto usada e manipulada, quantas vezes ele apagou minha memória e me mordeu? O que eu não lembro?
Eu quero ir embora, ficar longe dele, mas se ele perceber vai apagar minha memória sobre isso.
(...)
Fingir que está tudo bem é horrível, só quero arrumar logo uma casa e ir embora, mas ninguém aqui quer uma estrangeira.
Não consigo mais ficar tranquila desde que descobri aquilo, será que existe muitos outros por aqui? Eu amava vampiros, mas saber que eles existem e que podem se alimentar de pessoas e apagar memórias me assusta demais. Será que meu chefe também é um vampiro? Espero que seja só impressão minha.
—você tem estado muito distraída, realmente precisa arrumar um lugar para ficar?— Lana fala colocando uma caixa de doces em cima da minha mesa, ela está tentando me animar a semana inteira.
—sim, preciso muito.— falo pegando um doce para comer.
—eu tô morando na casa do um primo que é casado com uma romena, claro que estou ajudando com as despesas, eu não acho necessário sair de lá.— Lana fala enquanto come mais doces.
(...)
Não quero voltar para casa, prefiro fazer hora extra, não quero encontrar o Andrei, não sei o que realmente está acontecendo a minha volta, isso me dá muita insegurança.
—seu trabalho extra acabou, já pode ir para casa senhorita.— saio de meus pensamentos quando ouso a voz do Anthony, ele está na minha frente, a empresa está vazia.
—eu não quero voltar...— falo sem perceber, sinto ele tocar em meus cabelos.
—esta com problemas? Pode me dizer, gosto de conversar.— diz pegando uma cadeira e se sentando ao meu lado, isso é estranho, pois ele é meu chefe.
—sei que vai me achar uma louca e provavelmente vai me demitir, mas... acho que meu melhor amigo é um vampiro.— falo, mas ele continua calmo.
—se ele for algum problema com isso?— a pergunta dele é estranha.
—eu não sei se estou louca ou não, mas acho que ele bebeu meu sangue algumas vezes e apagou minha memória, eu sempre amei histórias de vampiros, mas não consigo perdoar ele por mentir para mim.— falo e ele toca em meu rosto.
—você não está louca, aqui na Romênia é fácil encontrar um lobisomem ou um vampiro andando pela rua, mas você nunca vai notar pois somos similares aos humanos— fala olhando para mim, espera, ele disse somos?
—você é humano?— pergunto para tirar essa dúvida.
—sabe a resposta, quando entrou na empresa viu o que não deveria.— diz e eu fico com um pouco de medo.
—você disse que era suco de beterraba na sua camisa.— falo e ele da um sorriso bobo.
—acreditou mesmo nisso?— pergunta olhando meu pescoço.
—sim... Vai me matar? Me morder? Apagar minha memória?— pergunto e ele ri.
—não senhorita, eu só bebo o sangue de quem permite, além disso, percebo que você lidou bem com a verdade, então não preciso apagar sua memória. Vampiros tem regras iguais os humanos, não podemos matar sem ser em legítima defesa. — Meu chefe fala tão calmamente.
—você disse que lobisomens também existem?— pergunto sem acreditar.
—sim, alguns vivem como humanos em fazendas ou sítios, longe das cidades grandes. Naturalmente vampiros são importantes, ricos e com títulos de nobreza, apesar que ser nobre hoje em dia é raro.— enquanto ele fala estou começando a me acalmar.
—pela forma que fala esse mundo parece normal.— falo olhando a hora, vai dar meia noite.
—mas é, pelo menos na Romênia. As pessoas daqui seguem regras e nós também para que tudo fique em equilíbrio, por isso estrangeiros não são aceitos, pois não acreditam e desobedecem as regras, além disso muitos tem preconceito com vocês.— Ele fala enquanto eu fico sem entender o motivo de muitas coisas.
—sua noiva é vamp.....— sou interrompida por ele.
—minha noiva é aquela mulher que você viu na minha sala, ela é humana.— ele fala e eu fico completamente confusa.
—mas porque?— falo sem entender, vampiros não devem ficar com a própria espécie?
—é complicado, a maioria dos vampiros são casados com humanas para reproduzir, filhos de vampiros, vampiros são.— ele fala normalmente, acho que minha mente vai explodir.
—pelo amor de deus, me diz que tudo isso é uma brincadeira e você só foi na onda da minha maluquice.— falo já não aguentando mais isso.
—vou parar de falar já que você está na negação ainda. Por que não quer voltar para sua casa?— diz parecendo curioso.
—esse meu amigo que possivelmente é um vampiro fez a família me aceitar na casa deles.— falo com a mão na testa.
—vou tentar arrumar um lugar para ficar, mas agora deixe eu levar você para casa, ir sozinha é perigoso com aqueles viralatas lá fora.— acho que não tenho muita escolha.
(...)
O carro dele é bem aconchegante, espero que ele realmente não seja um sequestrador ou algo do tipo.
Já estamos chegando, notei que a expressão dele mudou quando chegamos na casa.
—acho que você não deveria só se preocupar com esse seu amigo adotado e sim com a família inteira, odeio eles. Espero que durma bem e não esqueça de fingir demência, adeus senhorita Renata.— Anthony fala quando eu saio do carro, me despeço e entro na casa.
No caminho para a escadaria vejo Andrei e Nicolae esperando, vejo que eles estão sérios, provavelmente preocupados.
—onde estava? Ficamos preocupados.— consigo ver o quanto preocupei Andrei pela voz, mas não me importo.
—você precisa voltar mais cedo, é perigoso a essa hora, me liga da próxima vez que fizer hora extra, ok?— Nicolae fala mexendo no seu cabelo ruivo, acho que está aliviado.
—não se preocupe, meu chefe me trouxe, estou com muito sono, preciso dormir.— falo olhando para Nicolae, ignoro Andrei que parece notar.
—espera Ren.— Andrei segura meu braço, mas eu puxo.
—desculpa Andrei, mas tô com muito sono, a gente conversa amanhã.— falo forçando um sorriso.
Subo as escadas, vou para meu quarto, fecho a porta, tiro minha roupa e deito na cama, não me sinto mais segura aqui, preciso descansar e continuar procurando casas amanhã....