Archer se aproximou de Taylor, mas ela deu um passo pra trás.
- Fica onde você ta ou eu volto praquele quarto onde eu estava e dou um jeito de fugir daqui.
- Por favor, não tente fazer isso. Você está no coração da floresta, se tentar fugir, vai se perder, sabe disso.
Taylor abaixou a cabeça sabendo que ele tinha razão.
- Me explique como você pode estar vivo. - ergueu o rosto e o encarou.
- Sente-se, por favor, eu juro que não vou te machucar. - Archer respondeu.
Taylor o olhou desconfiada, mas fez o que ele pediu. Sentou-se no sofá e com olhos desconfiados encarou Archer, ele se virou e ficou de costas pra ela e de frente pra lareira.
- Eu conheço sua história. - Taylor começou. - Você chegou na cidade há quatro anos. Um jovem milionário, vindo de uma família que há muitos anos morava aqui e fundou a cidade. Com apenas 25 anos, você era cobiçado por todas as moças, alguns queriam que você se tornasse prefeito daqui um dia. Mas um ano depois, aos 26 anos, você morreu num incêndio que tomou toda a sua mansão.
- Sim, mas eu sobrevivi. - Archer respondeu ainda de costas pra ela.
- Como pode ter sobrevivido? Eu vim pra cá quando soube, a cidade toda parou. Ficamos uma semana de luto em homenagem à você e sua família. O corpo que acharam nos escombros era seu.
- Não, não era.
- Então de quem era? - Taylor piscou confusa.
- Vamos lá outra vez. - Archer suspirou e se virou pra ela. - Venha comigo.
Taylor encarou Archer quando ele passou por ela. Curiosa ela se levantou e o seguiu. Andaram por um corredor iluminado com velas presas às paredes. Quando Archer parou em frente a uma porta de madeira, Taylor parou logo atrás dele. Archer abriu a porta e entrou.
Quando entrou, Taylor viu que estava num tipo de escritório. Na parede na frente dela, haviam duas janelas em formato de arco na parte de cima, ambas iam da metade da parede até o chão. À frente das janelas uma mesa de madeira, com um tinteiro, pena, um peso para papéis e algumas folhas. Do lado direito à mesa havia uma estante com inúmeros livros, do lado esquerdo, perto da porta um sofá de couro marrom. À esquerda do sofá havia um quadro com uma arvore genealógica e à direita, pegando toda a parede, o retrato de um homem e de uma mulher.
O homem usava um colete com um sobretudo preto por cima e um lenço vermelho por cima de uma camisa branca de gole alta. Tinha olhos e cabelos castanhos, os fios longos chegavam na altura dos ombros e a barba era farta. Dava pra notar que ele havia sido um homem rico. A mulher que o acompanhava de braço dado, usava um vestido vermelho de época, seus cabelos eram castanhos, presos num coque elegante. Ela tinha um rosto angelical, que aparentava bondade, enquanto o homem ao seu lado parecia ser justo e digno de respeito.
Taylor observou quando Archer parou ao lado do quadro.
- Você conhece a lenda da maldição do homem lobo não conhece?
- Sim! - Taylor assentiu. - Meus sobrinhos me pedem para conta-la todas as noites.
- Você é a primeira que me diz isso.
- O que? - Taylor piscou confusa.
- Que conta a lenda todas as noite, você a conhece muito bem então.
- Apenas o que todos sabem, que o homem viu sua esposa ser assassinada, pediu a ajuda dos Deus e acabou sendo amaldiçoado por eles, porque matou pessoas que não devia.
- Para que você entenda o que vou lhe dizer, conheça os protagonistas da lenda que você conta todas as noites. - apontou o quadro.
Taylor piscou surpresa e se aproximou do quadro, mesmo intimidada ela parou ao lado de Archer e encarou o rosto daqueles dois.
- Então a história é verdadeira? Essa moça tão bonita foi...
- Agredida, violentada e morta na frente de seu marido. - Archer respondeu sem emoção na voz. - Seu nome era Catherine, o dele Vincent.
- Sempre me perguntei se a história era real e qual poderia ser o nome deles. Sinto muito que eles tenham passado por algo assim. É uma pena terem criado uma maldição em cima de um fato tão triste.
- Não criaram Taylor, a maldição é verdadeira. Tão verdadeira quanto eles e o que aconteceu com eles.
- O que você quer dizer com isso?
- Vincent não aguentou ver sua esposa passar por tudo aquilo, ele implorou aos Deuses por sua ajuda, ele achou que depois que conseguisse se vingar daqueles homens, ele ia se sentir em paz. Mas depois de ver tantos cometendo crimes bárbaros ele não conseguiu se libertar e na forma de um lobo seguiu matando. Não sei se a lenda que você conhece fala a respeito, mas Vincent se transformou num lobo e massacrou aquele grupo que matou Catherine. E continuou matando sem a permissão dos Deuses.
- Por isso ele foi castigado?
- Sim, os Deuses o condenaram a proteger a floresta para que outras pessoas não passassem pelo que ele, Catherine e o cocheiro passaram.
- É até ai que eu sei!
- Acontece que a maldição é muito pior. Ao desobedecer os Deuses, Vincent condenou sete de suas gerações, uma geração para cada Deus a quem ele pediu ajuda.
- Sete Deuses, sete gerações amaldiçoadas.
- Você parece entender de Deuses e lendas. - Archer a encarou admirado.
- Fiz faculdade de Literatura, então gosto de histórias. - sorriu e deu de ombros.
- Que bom, evita de te explicar um par de coisas. Voltando à maldição, Vincent e Catherine, tinham um menino de poucos meses quando morreram, no ano de 1841. Os Deuses amaldiçoaram Alistair primeiro, o filho dos dois e decidiram que nas seis gerações que viriam depois dele, sempre o primeiro filho homem seria amaldiçoado.
- O que aconteceu com Alistair e os outros?
- Alistair foi criado pela irmã de Catherine, longe daqui. Alistair cresceu, se casou e assim que sua esposa lhe deu um filho homem, Alistair morreu. O mesmo aconteceu com o filho de Alistair, depois com seu neto, bisneto. A maldição então foi passando de pai pra filho, de geração pra geração.
- O que você ta me dizendo parece tão surreal.
- Sim, no começo ninguém acreditava na maldição. Depois de Alistair foi preciso mais três gerações para que começassem a acreditar nela. Arthur, o tataraneto de Alistair, prestes a se casar, resolveu voltar para a cidade onde Vincent e Catherine haviam crescido e vivido. Chegando aqui, ele descobriu que a maldição era real e que não importasse o que fizesse, os Deuses manteriam seu castigo e que ele e mais três gerações depois dele seriam condenados. Ele não acreditou, casou-se e morreu após seu primeiro filho, um menino nascer. - Archer apontou na árvore onde o nome de Arthur estava. - Ele era meu bisavô!
Taylor arregalou os olhos, olhou o alto da árvore e leu os nomes.
- Vincent Alistair Collins e Catherine Collins. Pais de Alistair Collins. - ela desceu os olhos até a base da árvore e encontrou o nome Archer Collins ali. - Você...
- Eu sou o sétimo descendente de Vincent Alistair e Catherine Collins. - Archer a encarou. - Sou nonaneto de Vincent e Catherine e heptaneto de Alistair.
- Não, isso é loucura, é loucura demais pra minha cabeça. - Taylor encarou aquela árvore.
- Eu também achei loucura, quando soube da maldição e que eu era o sétimo. Achei que se morresse a maldição acabaria e todos os meus antepassados teriam suas almas libertadas, então ateei fogo na minha casa, eu queria acabar com qualquer vestígio da família Collins.
- Só falta você me dizer agora que os Deuses te salvaram.
- Sim! Um dos empregados acabou morrendo, ninguém sabia que ele trabalhava pra mim, ele não tinha família, então fiz com que todos acreditassem que ele era eu.
- E desde então você vive nesse casarão?
- Sim... Vincent e Catherine moravam aqui.
- Você disse que são sete gerações e você é o último. Então depois de você acaba?
- Eu sou o único que tem a chance de acabar com essa maldição. Segundo os Deuses o sétimo amaldiçoado, teria a chance de libertar a alma de Vincent e os outros, mas se eu falhar, eu me transformarei em um lobo e viverei como um lobo para sempre, não poderei me transformar em um homem.
- Como isso pode ser possível?
Um barulho atrás de Taylor chamou sua atenção, quando ela se virou, seus olhos se arregalaram outra vez. Um lobo adentrou o escritório, um lobo enorme de pelos cinzentos e olhos brancos.
- Oh meu Deus, eu não imaginei, foi ele que vi no cemitério! - ela apontou e se encolheu contra a parede.
- Sim, foi ele quem a trouxe para cá. - Archer respondeu.
- Ele? Como assim ele? - Taylor se virou para Archer, o coração disparado.
O lobo rosnou atraindo a atenção de Taylor. Quando ela o olhou, o lobo ficou de pé e em um segundos se transformou na forma de um homem.
- Oh meu Deus! - ela encarou o quadro, o homem e o quadro de novo. - Isso só pode ser pegadinha.
- Eu também gostaria que fosse. - respondeu o homem que segundos antes era um lobo.
- Você fala! Ele fala. - encarou Archer.
- Segundo meus pais comecei a falar com um ano e meio. Vincent Alistar Collins, prazer. - ele se aproximou e estendeu a mão.
- Se eu te der a mão, eu vou atravessá-la, igual naqueles filmes? - Taylor fez careta.
- Não, eu consigo tocar as pessoas, aquelas que eu permito que me vejam na forma de homem.
- Ah entendi! - Taylor assentiu. - Você é o cara do quadro mesmo ou só alguém muito parecido com ele?
- Não, Taylor, sou eu e minha esposa!
- É... Tipo assim, você teoricamente morreu há 175 anos, como você pode ta na minha frente, sem nem um fio de cabelo branco?
- Vincent foi proibido de sair da floresta, então ele nunca pôde contar à sua família que seu espirito estava aprisionado aqui, entre os dois mundos. - Archer respondeu.
- Quando meu tataraneto, bisavô do Archer voltou para cá, consegui me comunicar, foi então que começaram a acreditar na maldição. Fui designado a esperar meu sétimo descendente e tentar ajuda-lo a quebrar esse ciclo. Se falharmos, a maldição passa para Archer, ele se transformara num lobo para sempre e eu, terei minha alma capturada pelos Deuses e terei que servi-los eternamente, como meu filho e netos.
- Eu acho que entendi esse negócio ai de maldição, mas... O que nós moças temos haver com isso? Porque está trazendo meninas para cá e depois soltando todas elas?
- Por enquanto Taylor o que você precisa saber, é que precisamos de uma presença feminina para quebrar a maldição. Eu e Archer não podemos fazer isso sozinhos.
- O que você fez comigo naquele cemitério? - Taylor encarou Vincent.
- Algumas pessoas nascem um tanto quanto sensitivas, acreditam que coisas que não podemos explicar acontecem... De todas até hoje, você foi a mais sensitiva de quem captei a energia. Manipulei essa energia para nublar seus sentidos para que você desmaiasse e eu pudesse trazê-la para cá.
- Então você acha que eu posso ajudar com essa maldição? - Taylor piscou, tentando não enlouquecer com aquilo tudo.
- Acredito que sim, mas só o tempo vai nos dar certeza.
- Quanto tempo?
- Vinte dias. - Archer respondeu. - Se em 20 dias as coisas não mudarem você volta pra casa.
- Enquanto isso eu vou ter que ficar presa aqui? - Taylor o olhou incrédula.
- Sim, se você sair, todo o processo será perdido. - Archer respondeu.
- Você não pode me manter trancada aqui, eu voltei pra essa cidade pra cuidar da minha irmã, dos meus sobrinhos, precisa me deixar sair daqui. Eu quero ir embora agora!
- Sinto muito, mas não vou poder atender seu pedido. - Archer respondeu com certa ironia.
- Taylor vá para o quarto onde você acordou, me deixe falar a sós com Archer um momento.
- Ta certo Gasparzinho! - Taylor assentiu.
Vincent a encarou estreitando as sobrancelhas.
- Desculpa, não quero deixar seu lado lobo furioso, eu vou subir. - acenou sem jeito e saiu.
Quando ficou sozinho com Vincent, Archer encarou sua árvore genealógica.
- Ela é diferente, vai dar certo dessa vez. Não é justo você ser condenado a algo que eu fiz há tantos anos. - Vincent tocou o ombro de Archer.
- Não é justo você trazer essa jovens para cá, apenas pra tentar me ajudar. Não há o que fazer.
- Acredite em mim, Taylor vai poder nos ajudar. Ela reagiu melhor do que as outras, entendeu exatamente o que ta acontecendo e eu vi seu coração. Ela gosta de histórias, é romântica e boa. É a primeira que encontro e sinto verdadeiramente que vai poder nos ajudar.
- Espero que você não se decepcione. - Archer suspirou.
- Você vai entender o que estou falando na hora certa. - Vincent respondeu e voltou-se para o quadro dele com Catherine. - Na horta certa! - acariciou o rosto da esposa.