A morte de Jéssica acendeu o morro.
O Terceiro Comando, que até então atacava a parte baixa, aproveitou o caos para avançar. Em três dias, o Jacarezinho virou um campo de batalha: tiros ecoando entre as casas, toque de recolher imposto, famílias se escondendo atrás das portas.
Jaguar convocou os homens de confiança na laje de Larissa — o único ponto alto que ainda era seguro. Ao redor da mesa estavam Ramon, o braço direito; Cobra, o ambicioso; e Major Ramos, o policial que aparecia quando o sangue engrossava.
Ramon era moreno, de olhos cor de mel, trinta e um anos, corpo de quem já tinha apanhado e batido muito. Desde que descobrira a aproximação entre Larissa e o chefe, ele andava como um animal ferido — e o ódio crescia nele como uma ferida aberta.
— A gente precisa de mais homens na linha do trem — disse Ramon, com a voz tensa.
— A gente precisa de mais bala — cortou Cobra, com um sorriso de serpente.
Jaguar ouviu tudo em silêncio, os olhos verdes varrendo cada um. Depois se levantou, e o morro inteiro pareceu encolher.
— Ninguém sai daqui até a gente decidir quem vai morrer primeiro — disse ele. — E ninguém mente pra mim. Porque eu descubro tudo.
O olhar dele pousou em Ramon por um segundo a mais. E Ramon sentiu, pela primeira vez, que o chefe sabia de alguma coisa que ele não sabia.
Naquela noite, enquanto a guerra comia o morro, Larissa encontrou Tia Val no fundo do salão, chorando sobre uma foto antiga. A foto de um homem — o fundador do Comando do Jacaré. O pai de Jaguar.
— E do Ramon? — perguntou Larissa, baixo.
Tia Val ergueu os olhos marejados.
— Ramon também é filho dele, menina. O Jaguar e o Ramon são irmãos. E ninguém pode saber — porque se o morro descobrir, os dois vão se matar.