Ninguém no morro sabia que Larissa guardava mais de um segredo.
O primeiro era o amor proibido pelo chefe. O segundo era mais antigo, mais pesado — e morava na boca de Tia Val, a única pessoa viva que conhecia a verdade sobre os irmãos.
— Você não pode se apaixonar por ele — disse Tia Val, naquela tarde, enquanto ajudava Larissa a arrumar o salão. A velha tinha setenta anos, cabelos brancos e olhos que já tinham visto o morro nascer.
— Eu não estou apaixonada — mentiu Larissa.
— Eu conheço esse olhar, menina. É o mesmo olhar da sua mãe quando ela se perdeu pelo pai dele.
Larissa congelou.
— O que você está dizendo?
Tia Val suspirou, e o silêncio dela pesou mais que qualquer palavra. Foi então que a porta do salão se abriu e Nina entrou, aos tropeços, com o rosto marcado de lágrimas.
— O Cobra matou o Jéssica — disse Nina, com a voz quebrada. — A menina dos recados. Ele disse que ela era informante do Terceiro Comando.
Larissa sentiu o mundo girar. Jéssica, quinze anos, os olhos que já tinham visto demais. A menina que entregava os bilhetes, que sorria para todo mundo, que sonhava em sair do morro.
— Isso não pode ser verdade — murmurou.
— É. E o pior: o Jaguar não fez nada. Ele deixou o Cobra fazer isso e não moveu um dedo.
Naquela noite, Larissa olhou para o homem que amava e viu o monstro que ele escondia. E pela primeira vez, se perguntou se o segredo que ela guardava — o segredo que podia derrubar o comando inteiro — não era a única arma capaz de salvar o morro.