Capítulo 1 — A laje

398 Words
O Jacarezinho cheirava a pólvora e a chuva que não vinha. No alto do morro, a laje de Larissa era o único lugar onde o silêncio ainda tinha dono. Ela tinha vinte e sete anos, pele cor de canela queimada, cabelos crespos soltos ao vento e um olhar de quem já tinha enterrado gente demais. Dona do salão de beleza na esquina da Rua Quatro, era a mulher mais cobiçada do morro — e a mais perigosa. Não porque carregasse arma, mas porque sabia o efeito que causava nos homens e usava isso como uma faca. Foi por isso que Davi "Jaguar" bateu na porta dela sem pedir licença. Ele era branco, de olhos verdes que pareciam vidro quebrado, trinta e quatro anos, corpo marcado por cicatrizes e uma frieza que fazia o morro inteiro tremer. O chefe do Comando do Jacaré não pedia — tomava. E quando a guerra com o Terceiro Comando apertou, foi a laje dela que ele escolheu para a reunião com os homens de confiança. — Aqui não é ponto de encontro — Larissa o encarou, com o queixo erguido. — Vai procurar outro lugar. Jaguar sorriu devagar, um sorriso que não chegava aos olhos. — Eu não vim pedir, morena. Ela sentiu o estômago virar. Não de medo. De outra coisa. Algo que ela não queria nomear. — Então vai embora do mesmo jeito. Ele deu um passo à frente, e o cheiro dele — fumaça, couro e suor — invadiu o espaço dela. Os olhos verdes percorreram o corpo dela sem pressa, como quem avalia uma presa. — Você é a ex do meu braço direito — disse, baixo. — Ramon ainda te quer. — Ramon não decide mais nada sobre mim. Jaguar inclinou a cabeça, e pela primeira vez algo humano passou por aquela frieza. — É. Eu sei. O silêncio entre eles ficou pesado, elétrico. Larissa sabia que deveria mandá-lo embora. Sabia que aquele homem era a morte em forma de gente. Mas quando ele estendeu a mão e tocou o rosto dela — um toque seco, de quem não pede permissão — ela não recuou. — Você não devia ter vindo aqui — sussurrou. — Eu sei — repetiu ele, com os lábios quase nos dela. — Mas vim mesmo assim. E foi ali, na laje, sob o céu que ameaçava tempestade, que a guerra de verdade começou.
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