CRESCER EM SILÊNCIO

1076 Words
Nicole cresceu sem perceber exatamente quando deixou de ser menina. Não houve um dia específico, nem um acontecimento que pudesse apontar como marco. O crescimento veio em camadas, silencioso, quase invisível. Veio na forma como passou a ouvir mais do que falar. Na maneira como observava antes de agir. No jeito cuidadoso de existir em um lugar onde qualquer descuido podia custar caro. No Morro dos Prazeres, crescer não era uma escolha. Era uma exigência. Ela passou a acordar mais cedo, ajudar mais em casa, estudar com uma disciplina que não combinava com sua idade. Enquanto outras meninas falavam de festas e paixões passageiras, Nicole pensava em provas, documentos, caminhos que ainda não sabia como trilhar. E, ainda assim, havia algo que ela não conseguia controlar. Caio Vinícius continuava ali. Não sempre visível, mas sempre presente. Às vezes bastava ouvir o nome dele em uma conversa distante para o corpo de Nicole reagir. Um alerta interno, quase instintivo. Ela fingia não notar, mas notava tudo. Ele parecia o mesmo de sempre. Frio, firme, intocável. O tipo de homem que não mudava com o tempo — era o tempo que se ajustava a ele. O morro girava ao redor de suas decisões, e isso dava a Caio uma presença que ultrapassava a própria imagem. Nicole o observava à distância, como sempre. Já tinha aprendido a não olhar demais. A não deixar transparecer nada. A esconder o que sentia atrás de uma postura neutra, quase indiferente. Era um treino diário. Ela sabia que amar alguém como Caio Vinícius era perigoso. Não porque ele fosse c***l com ela — nunca foi —, mas porque representava tudo aquilo que ela precisava evitar para sobreviver. Ele era poder. Ela queria saída. Ainda assim, o sentimento não diminuía. Apenas mudava de forma. Tornava-se mais contido, mais consciente. Menos fantasia, mais aceitação amarga. Nicole não sonhava com finais felizes. Não imaginava cenas românticas. Seu amor não tinha espaço para isso. Era feito de realidade crua. De limites claros. De impossibilidades bem definidas. Ela o amava sabendo que não seria correspondida. Amava sabendo que nunca diria nada. Amava sabendo que aquele sentimento não tinha lugar. E isso, paradoxalmente, a tornava mais forte. Com o passar dos meses, Nicole começou a mudar fisicamente. Não de forma exagerada, mas perceptível para quem prestava atenção. O corpo deixava para trás os traços de adolescência. O jeito de andar ficava mais firme. O olhar, mais atento. Caio percebeu. Não de imediato, não como homem que deseja, mas como alguém acostumado a ler ambientes e pessoas. Nicole já não era criança. Não era mais apenas a irmã de Rafael que precisava ser mantida à distância por obrigação. Ela estava se tornando mulher. E isso exigia um cuidado diferente. Caio passou a ser ainda mais rígido com os homens ao redor quando Nicole estava por perto. Não aceitava comentários, olhares prolongados, brincadeiras m*l colocadas. Não precisava explicar. Todos entendiam. Ela era intocável. Nicole sentia isso. Sabia que era protegida por uma regra que não tinha pedido. Sabia que Caio impunha respeito em torno dela sem nunca se aproximar demais. Era uma proteção que isolava. Certa tarde, Nicole voltou da escola mais tarde do que o habitual. A rua estava mais vazia, o céu começava a escurecer. Ela andava rápido, mochila apertada contra o corpo, quando ouviu passos atrás de si. O coração acelerou. Antes que pudesse reagir, uma voz firme soou. — Nicole. Ela virou-se. Caio estava parado a poucos metros. Sozinho. Sem armas à vista. O olhar sério de sempre. — O Rafael pediu pra eu vir ver você — disse ele. — Não era pra você estar sozinha a essa hora. Nicole assentiu, sentindo o rosto esquentar. — Eu me atrasei. — Não se atrasa de novo — respondeu ele. Não foi bronca. Foi ordem. Ela caminhou ao lado dele até perto de casa. O silêncio entre os dois era denso, carregado de coisas não ditas. Nicole sentia o coração bater forte demais, mas mantinha a postura. — Obrigada — disse quando chegaram. Caio assentiu. — Cuida de você. E foi embora. Nicole ficou ali, parada, por alguns segundos. Aquela frase simples ecoou dentro dela com mais força do que deveria. Cuidar de si, naquele contexto, significava manter distância. Significava não criar ilusões. Significava crescer em silêncio. Ela entrou em casa e subiu direto para o quarto. Sentou-se na cama e respirou fundo, tentando acalmar o corpo. Aquela proximidade breve tinha sido suficiente para bagunçar tudo por dentro. Mas também tinha deixado algo claro. Caio Vinícius nunca cruzaria aquela linha. E ela precisava aceitar isso. Nos meses seguintes, Nicole se dedicou ainda mais aos estudos. Passou a frequentar a biblioteca fora do morro sempre que podia. Atravessar o asfalto era, para ela, uma forma de respirar. Do outro lado, o mundo parecia menos apertado. Começou a juntar dinheiro em segredo. Pouco, quase nada. Mas era um começo. Cada nota guardada representava um passo a mais para longe dali. Caio acompanhava tudo à distância. Não interferia. Não perguntava. Mas observava. Sabia que Nicole estava se preparando para sair. E, racionalmente, achava isso certo. Emocionalmente, algo nele resistia. Não porque quisesse prendê-la. Mas porque a ideia de vê-la ir embora carregava um peso que ele não queria analisar. Ela era parte daquele cenário desde sempre. Uma presença silenciosa, constante. Perdê-la mudaria algo que ele não sabia nomear. Certa noite, Caio comentou com Rafael: — Ela não pertence aqui. Rafael concordou. — Nunca pertenceu. Houve um silêncio breve entre os dois. — Você cuida demais dela — Rafael disse depois. Caio respondeu sem pensar: — Alguém tem que cuidar. A frase ficou no ar. Ambos entenderam mais do que foi dito. Nicole, naquela mesma noite, escreveu em seu caderno uma lista de coisas que precisava fazer antes de ir embora. Era prática, objetiva. Não incluía despedidas. Não incluía confissões. Ela sabia que algumas histórias não terminam com palavras. Ela também sabia que crescer em silêncio tinha um custo. Mas, naquele momento, parecia o único caminho possível. Nicole fechou o caderno, apagou a luz e se deitou. O coração estava apertado, mas a mente clara. Ela estava crescendo. E crescer, naquele lugar, significava aprender a amar sem tocar, a desejar sem pedir, e a partir sem olhar para trás. Caio Vinícius ainda não sabia, mas aquela menina que ele protegia à distância estava cada vez mais perto de cruzar uma linha que mudaria a vida dos dois para sempre. . .
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