Ela entendeu que havia algo mais doloroso do que não ser escolhida.
Era ser deliberadamente ignorada.
Não por descuido.
Não por falta de percepção.
Mas por decisão.
Caio Vinícius não era um homem distraído. Ele via tudo. Percebia movimentos mínimos, mudanças de humor, riscos antes mesmo de acontecerem. Sabia quando alguém mentia só pelo jeito de respirar. Sabia quando o morro estava prestes a explodir antes do primeiro sinal.
E, ainda assim, quando se tratava de Nicole, ele escolhia não olhar.
Ela percebeu isso com clareza numa tarde comum demais para justificar o impacto que teve. Estava descendo a viela com duas amigas, rindo de algo bobo, quando avistou Caio parado mais à frente, conversando com dois homens. Ele estava sério, atento, inteiro naquele mundo que não a incluía.
Nicole sentiu o corpo reagir antes da mente.
O riso morreu no meio do caminho. As mãos ficaram frias. O coração acelerou num ritmo que ela já conhecia bem demais. Tentou seguir normalmente, fingindo que ele não estava ali.
Mas, quando passou por ele, algo dentro dela implorou por um olhar.
Caio não levantou os olhos.
Não foi desatenção. Ele sabia que ela estava ali. O corpo dele se manteve rígido, o olhar fixo à frente, como se Nicole fosse apenas mais uma sombra atravessando o espaço.
Aquilo doeu mais do que qualquer rejeição aberta.
Nicole seguiu andando sem dizer nada, o rosto neutro, a postura firme. Só quando virou a esquina e se afastou o suficiente é que sentiu o peso cair inteiro.
Uma das amigas comentou algo, mas ela não ouviu. O mundo parecia distante demais naquele momento. Tudo o que conseguia pensar era no vazio que aquele não-olhar deixara.
Ela não queria que ele a desejasse.
Não queria que a tocasse.
Queria apenas ser vista.
Mas nem isso lhe era permitido.
Naquela noite, Nicole se trancou no quarto mais cedo. Sentou-se na cama, abraçou os joelhos e deixou o silêncio se acomodar ao redor. Não chorou de imediato. Primeiro veio a raiva — não dele, mas de si mesma.
Raiva por ainda sentir.
Raiva por ainda esperar.
Raiva por permitir que um gesto tão pequeno tivesse tanto poder.
— Você não tem esse direito — murmurou para si mesma. — Nenhum.
Mas o coração não obedecia ordens.
Com o passar dos dias, aquele comportamento se repetiu. Caio falava com todos. Dava ordens. Brincava brevemente com conhecidos. Cumprimentava a mãe de Nicole quando passava por ela. Conversava com Rafael.
E ignorava Nicole.
Não de forma grosseira. Não como quem despreza. Mas como quem estabelece um limite intransponível.
Ela começou a evitar os lugares onde ele costumava estar. Mudou horários, trajetos, hábitos. Não por medo. Por autopreservação.
Mesmo assim, havia momentos inevitáveis.
Como na festa simples organizada por uma vizinha, numa noite quente demais para ficar em casa. O morro estava iluminado, gente rindo, música baixa. Nicole foi contra a própria vontade, apenas para não levantar suspeitas.
Caio estava lá.
Encostado numa parede, uma mulher bonita demais ao seu lado. Confiante. À vontade. Tocava o braço dele sem receio. Falava perto demais.
Nicole sentiu o estômago revirar.
Ela observou à distância, sem querer, sem conseguir evitar. Caio não parecia feliz. Também não parecia incomodado. Apenas aceitava. Como aceitava tudo o que vinha sem exigir sentimento.
A mulher riu alto, se inclinou mais, disse algo no ouvido dele. Caio sorriu de canto, um sorriso breve, quase automático.
Foi ali que Nicole entendeu algo que tentava negar havia tempo demais.
Ele não a ignorava por falta de desejo.
Ele a ignorava porque desejava demais.
E isso era imperdoável naquele mundo.
Ela saiu da festa antes que alguém notasse. Caminhou rápido, o coração disparado, as mãos trêmulas. Não chorou. Ainda não. A dor estava se acumulando, esperando o momento certo para sair.
Caio percebeu a ausência dela só depois.
Não porque procurasse. Mas porque o espaço que Nicole ocupava era silencioso demais para passar despercebido quando faltava. Ele sentiu um incômodo estranho, breve, que empurrou para longe sem pensar.
— Concentra — murmurou para si mesmo.
Era isso que fazia sempre. Cortava pensamentos antes que criassem raiz.
Mas naquela noite, algo ficou.
Nicole passou os dias seguintes mais fechada. Falava menos. Ria menos. O corpo seguia ali, mas a mente parecia sempre em outro lugar. A mãe percebeu. Rafael percebeu.
— Tá tudo bem? — Rafael perguntou certa noite.
— Tá — ela respondeu. — Só cansada.
Não era mentira. Mas não era toda a verdade.
Ela estava cansada de sentir sozinha. Cansada de amar alguém que fingia não vê-la. Cansada de ser forte em silêncio.
Começou a pensar com mais insistência na ideia de ir embora. Não como sonho distante. Como plano real. O morro começava a sufocar de um jeito diferente agora. Não pelo perigo. Pelo sentimento.
Caio, por sua vez, endurecia ainda mais.
Sempre que percebia Nicole por perto, fechava o rosto. Mantinha distância física clara. Nunca ficava sozinho no mesmo espaço que ela. Nunca criava situações ambíguas.
Era uma disciplina rígida. c***l. Necessária.
Ele sabia que aquela menina tinha crescido. Sabia que os olhos dos outros começavam a notar. Sabia que, se falhasse uma única vez, algo irreversível poderia acontecer.
E Caio Vinícius não errava duas vezes.
Mas errar uma única vez…
isso ele ainda não sabia como evitar.
Certa madrugada, Caio subiu à laje sozinho. O morro estava quieto, luzes dispersas no escuro. Ele acendeu um cigarro e ficou ali, pensando mais do que gostaria.
Pensou em Nicole.
Não como objeto de desejo explícito. Mas como presença constante. Como algo que desorganizava sua lógica rígida de controle.
— Você não pode — disse em voz baixa. — Não pode.
Não era conselho. Era ordem.
Enquanto isso, Nicole, deitada no quarto escuro, encarava o teto sem piscar. O peito doía num lugar fundo, silencioso. Não havia lágrimas. Apenas uma certeza amarga se formando.
Ela não poderia continuar ali fingindo que aquilo não a afetava.
Amar Caio Vinícius daquele jeito estava roubando partes dela que não voltariam.
E ele nunca a olharia.
Não porque não quisesse.
Mas porque não podia.
E, naquele instante, Nicole começou a entender que o amor proibido não é aquele que não pode acontecer.
É aquele que acontece inteiro dentro da gente,
enquanto o outro escolhe não ver.