AMOR QUE NÃO FOI ESCOLHIDO

1129 Words
Ela não escolheu amar Caio Vinícius. Essa foi a primeira verdade que precisou aceitar. Durante muito tempo, tentou se convencer de que era apenas admiração m*l resolvida. Depois, tentou chamar de fase. Mais tarde, de carência. Nenhuma dessas palavras sustentava o peso do que sentia. O amor estava ali antes que ela tivesse idade para nomeá-lo, antes que tivesse maturidade para evitá-lo. Ele simplesmente aconteceu. E aceitar isso não significava se render. Significava parar de lutar contra algo que já fazia parte dela. Nicole começou a perceber essa aceitação nos detalhes mais simples. No jeito como já não se culpava tanto por sentir. No modo como deixava o pensamento passar sem tentar esmagá-lo. Pensar em Caio ainda doía, mas a dor não vinha mais acompanhada de negação. Ela sabia onde estava. Sabia o que sentia. Sabia o que nunca teria. E isso exigia um tipo diferente de força. Os dias no morro seguiam com a mesma rotina dura de sempre. Barulho cedo, silêncio tenso à noite, gente entrando e saindo das vielas com pressa ou cuidado excessivo. Nicole participava disso tudo como quem vive pela metade. Presente no corpo, ausente na alma. Ela continuava estudando com disciplina. Continuava ajudando a mãe. Continuava sendo a filha responsável, a irmã dedicada. Ninguém percebia o quanto aquilo custava. Às vezes, sentava-se na laje à noite e observava as luzes da cidade ao longe. Gostava daquele momento em que o morro parecia menor, quase distante. Ali, imaginava outras possibilidades. Não finais felizes. Apenas caminhos diferentes. Caio Vinícius fazia parte dessas imaginações não como promessa, mas como ausência. Ela não se via ao lado dele. Não se via sendo escolhida. Via apenas o vazio que ficaria quando finalmente partisse. E isso doía mais do que ficar. Caio, por sua vez, mantinha-se firme em sua postura. Não relaxava. Não permitia falhas. A presença de Nicole exigia dele um controle constante, quase violento. Ele evitava cruzar com ela sempre que possível. Não por desprezo, mas por medo de si mesmo. Caio sabia que aquela linha existia por um motivo. Ela era irmã de Rafael. Era jovem demais. Era boa demais para aquele mundo. E, acima de tudo, era perigosa para o único ponto que ele nunca permitira que fosse tocado: seu autocontrole. Mesmo assim, havia momentos em que a resistência vacilava. Como naquela tarde abafada em que ele a viu sentada na escada, concentrada em um livro, o rosto sério, os cabelos presos de qualquer jeito. Nada nela chamava atenção de forma óbvia. Ainda assim, algo naquele silêncio focado o prendeu por segundos demais. Caio desviou o olhar imediatamente. — Não — murmurou, quase sem som. Seguiu caminho com o peito apertado, irritado consigo mesmo. A disciplina que o mantinha vivo também o isolava. Ele sabia disso. Mas preferia o isolamento à perda de controle. Nicole percebeu o olhar. Não diretamente. Não como quem se sente desejada. Mas como quem sente a mudança no ar. Aquilo foi suficiente para bagunçar tudo outra vez. Ela fechou o livro, respirou fundo e se levantou. Não queria aquele tipo de confirmação. Não queria alimentar nada. Era tarde demais para ilusões. Naquela noite, Nicole teve dificuldade para dormir. Pensava em tudo o que tinha aceitado sem jamais verbalizar. Pensava em como o amor pode existir sem escolha, sem esperança, sem recompensa. — Amar não é sempre querer ficar — murmurou para si mesma. — Às vezes é saber ir embora. A frase ficou ecoando. Nos dias seguintes, Nicole começou a se afastar mais. Não de forma brusca, não chamando atenção. Apenas diminuindo presença. Saía mais cedo, voltava mais tarde, evitava os lugares comuns. Passava mais tempo fora do morro sempre que podia. Caio notou. Não perguntou. Não comentou. Mas sentiu a mudança como se fosse um aviso silencioso. Ela estava se preparando para sair. Essa constatação o atingiu com força inesperada. Não porque quisesse impedir. Mas porque tornava real algo que ele preferia manter abstrato. Nicole fora do morro significava Nicole fora do alcance. Fora da rotina. Fora daquele cenário que ele controlava. E controle sempre foi o que o mantinha inteiro. Certa noite, Rafael comentou casualmente: — A Nicole anda falando em estudar fora. Caio não reagiu de imediato. Continuou olhando à frente, como se não tivesse ouvido. — É — respondeu depois de alguns segundos. — Faz sentido. Rafael o observou com atenção. — Você concorda fácil demais. Caio deu de ombros. — Ela não é daqui. A frase era verdadeira. Mas incompleta. Nicole não era do morro. E também não era dele. Nicole, naquela mesma semana, escreveu no caderno algo que nunca tinha tido coragem de admitir: Eu amo alguém que nunca vai me amar. Não escreveu com raiva. Nem com tristeza extrema. Escreveu como quem aceita um diagnóstico. Um fato imutável. Fechou o caderno e sentiu uma calma estranha. Não era alívio. Era clareza. Amar Caio Vinícius não tinha sido uma escolha. Mas continuar ali, alimentando esse amor em silêncio… isso era. E ela estava cansada. O aniversário de dezoito anos se aproximava como um marco que Nicole sentia no corpo antes mesmo de contar os dias. Dezoito não era apenas um número. Era fronteira. Mudança de lugar no mundo. Fim de uma espera invisível. Ela pensava nisso com frequência, sem ainda saber por quê. Caio também sentia algo se aproximando. Não sabia nomear. Apenas sentia o ar mais pesado, o tempo mais curto. Como se algo estivesse prestes a sair do controle. Ele se tornava mais rígido, mais fechado. Tentava se convencer de que nada estava mudando. Que Nicole apenas crescia e seguiria seu caminho. Mas o corpo não concordava com a lógica. Numa madrugada qualquer, Caio acordou com o nome dela na cabeça. Não em sonho. Em pensamento claro, consciente. Sentou-se na cama, respirou fundo e passou a mão no rosto. — Isso não é amor — disse a si mesmo. — É perigo. Mas o perigo não estava nela. Estava no que ela despertava. Nicole passou a evitar até pensar nele por longos períodos. Não porque tivesse deixado de amar. Mas porque precisava preservar o pouco que ainda tinha de si. Ela sabia que amar sem escolha não é bonito. É exaustivo. É solitário. É injusto. E, ainda assim, fazia parte dela. O amor que não foi escolhido moldou sua forma de sentir, de se calar, de amadurecer cedo demais. Moldou sua força e também suas feridas. Ela não sabia ainda que aquele amor guardado por tanto tempo não desapareceria em silêncio. Sabia apenas que algo dentro dela estava chegando ao limite. E limites, quando ignorados por tempo demais, não pedem licença para se romper. O erro ainda não tinha acontecido. Mas o caminho até ele estava aberto. E nenhum dos dois, mesmo tentando evitar, conseguiria voltar atrás quando o momento chegasse. .
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