Toda linha existe porque alguém, um dia, decidiu que não podia ser ultrapassada.
No Morro dos Prazeres, essas linhas não eram desenhadas no chão. Eram feitas de acordos silenciosos, de olhares que avisavam, de consequências conhecidas por todos. Caio Vinícius sabia identificar cada uma delas com precisão cirúrgica.
E a linha que envolvia Nicole era a mais clara de todas.
Ela era irmã de Rafael.
Isso bastava.
Rafael não era apenas mais um homem do morro. Era leal. Direto. Alguém que não negociava princípios, mesmo vivendo num lugar onde quase tudo era negociável. Caio confiava nele como confiava em poucos. Não porque Rafael fosse perfeito, mas porque era previsível — e previsibilidade, ali, era ouro.
Os dois tinham crescido próximos, cada um à sua maneira. Não eram amigos de infância no sentido romântico da palavra, mas tinham atravessado coisas juntos. Conflitos, perdas, decisões erradas que precisaram ser corrigidas rápido demais.
Quando Rafael escolheu ficar ao lado de Caio, não foi por ambição. Foi por entendimento. Sabia quem Caio era. Sabia o que representava. E aceitou.
Caio nunca esqueceu isso.
Por isso, desde o primeiro momento em que soube da existência de Nicole, algo se organizou dentro dele sem precisar de reflexão longa. Ela estaria fora de qualquer possibilidade. Não por regra escrita. Por honra.
Honra não era palavra comum naquele mundo, mas Caio ainda acreditava nela. Acreditava do jeito duro, prático, sem discurso. Honra era cumprir o que não precisava ser prometido.
E proteger Nicole fazia parte disso.
A proteção nunca foi afetuosa. Nunca veio com sorriso ou cuidado exagerado. Era uma proteção seca, quase invisível. Olhares cortados antes de se formarem. Comentários interrompidos com uma única palavra. Avisos dados sem explicação.
Todos entendiam.
Nicole era território proibido.
Caio nunca precisou dizer isso em voz alta. Bastava estar presente.
Ela cresceu sob essa proteção sem nunca ter pedido por ela. À medida que o corpo dela mudava, que o olhar amadurecia, Caio ajustava a própria distância. Não se aproximava. Não criava situações ambíguas. Não ficava sozinho com ela.
E isso não era fácil.
Porque, ao contrário do que muitos acreditavam, a distância não vinha da indiferença. Caio não era cego. Via o que estava diante dele. Via a mulher que surgia ali, silenciosa, observadora, diferente das outras.
Via e escolhia não tocar.
Essa escolha exigia vigilância constante.
Havia dias em que ele a via passar e sentia o impulso mínimo — não de posse, não de desejo explícito, mas de atenção. Um segundo a mais de olhar. Um pensamento fora de hora. Ele cortava rápido. Sempre cortava.
— Não — dizia para si mesmo. — Não é isso.
E seguia.
Rafael nunca comentou diretamente sobre isso. Nunca perguntou. Mas sabia. O irmão percebia a proteção, mesmo sem entender completamente o motivo. E respeitava.
Certa vez, num fim de tarde abafado, Rafael e Caio estavam sentados na laje, conversando sobre coisas práticas. Nada pessoal. Nada profundo. O tipo de conversa que os dois sabiam ter.
— Ela anda diferente — Rafael comentou, de repente.
Caio não perguntou quem. Não precisava.
— Crescendo — respondeu.
— É — Rafael concordou. — E não é daqui.
Caio assentiu lentamente.
— Nunca foi.
O silêncio que se seguiu não foi desconfortável. Foi denso. Ambos sabiam o peso daquilo. Crescer ali era sobreviver. Não pertencer era risco e, ao mesmo tempo, possibilidade.
— Você cuida demais — Rafael disse, sem acusação.
Caio demorou a responder.
— Alguém tem que cuidar — falou por fim.
Rafael não insistiu. Sabia quando parar.
Para Caio, cuidar não significava se aproximar. Significava manter intacta a linha que não se cruzava. Quanto mais Nicole crescia, mais rígida essa linha precisava ser.
Ele começou a se antecipar ainda mais. Evitava eventos onde ela estivesse. Mudava horários. Criava barreiras invisíveis. Não queria que o morro confundisse respeito com permissão.
E, principalmente, não queria se confundir.
Nicole sentia isso de forma clara, mesmo sem compreender tudo. Sabia que Caio a mantinha à distância com intenção. Não como desprezo. Como escolha deliberada.
E isso doía.
Doía porque não havia erro a corrigir. Não havia atitude inadequada. Não havia excesso. O afastamento vinha mesmo quando ela fazia tudo certo. Mesmo quando não fazia nada.
Ela entendeu, aos poucos, que não era uma questão de querer ou não querer. Era de não poder.
Essa compreensão não trazia alívio. Apenas outra camada de dor.
Houve um dia específico em que isso ficou impossível de ignorar.
Nicole estava sentada perto da quadra, esperando uma amiga. Caio apareceu do outro lado, acompanhado de dois homens. Conversava sério, concentrado. Ela não olhava diretamente, mas sentia a presença.
Em determinado momento, alguém fez um comentário baixo demais, acompanhado de um riso m*l colocado, direcionado a ela. Não foi algo explícito. Apenas o tipo de insinuação que o morro reconhecia rápido.
Caio reagiu imediatamente.
Não gritou. Não ameaçou. Apenas virou o rosto e encarou o homem por tempo suficiente para que o riso morresse na hora.
— Não — disse, uma única palavra.
O homem abaixou a cabeça. O assunto acabou.
Caio seguiu conversando como se nada tivesse acontecido.
Nicole percebeu tudo.
Sentiu o coração apertar por dois motivos opostos. Proteção e distância. Cuidado e exclusão. Ele a defendia, mas jamais se aproximaria.
Aquilo a feriu mais do que qualquer olhar indevido teria ferido.
À noite, Nicole pensou nisso por horas. Pensou no quanto aquela proteção vinha sempre acompanhada de limite. No quanto Caio se colocava como muro, nunca como ponte.
Ela não queria ser atravessada.
Queria ser vista.
Caio, naquela mesma noite, ficou inquieto. A cena tinha sido simples, mas o efeito demorou a passar. Ele sabia que reagira por instinto. E instintos eram perigosos.
Sentou-se sozinho, respirou fundo, tentou organizar os pensamentos.
— Você não pode falhar — murmurou. — Não aqui.
Ele sabia que falhar não significava apenas cruzar a linha. Significava quebrar um acordo silencioso com Rafael, com o morro e consigo mesmo.
Honra não admite exceções convenientes.
E Caio Vinícius sempre acreditou que o que o separava do caos era justamente isso: a capacidade de dizer não, mesmo quando tudo dentro dele queria dizer outra coisa.
Nicole não fazia parte das escolhas possíveis dele.
Não porque fosse pouco.
Mas porque era demais.
Essa era a verdade que ele não verbalizava.
E, enquanto mantinha essa linha intacta, Caio acreditava estar fazendo a coisa certa. Acreditava que distância era proteção. Que silêncio era cuidado. Que frieza era respeito.
O problema é que nenhuma dessas coisas impede alguém de sentir.
E Nicole sentia.
Sentia a exclusão.
Sentia a honra virar barreira.
Sentia a impossibilidade crescer junto com ela.
A linha que não se cruzava estava ali, firme, sustentada por decisões antigas e valores rígidos.
Mas linhas, quando tensionadas por tempo demais,
não desaparecem.
Elas aguardam.
E, naquele ponto da história, tanto Caio quanto Nicole começavam a sentir que aquela linha —
tão clara, tão definitiva —
estava se tornando o lugar mais perigoso de todos.
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