BICHO SOLTO

1017 Words
C.V aprendeu cedo que a noite diz mais sobre um homem do que o dia. Durante o dia, tudo parecia sob controle. Ordens eram dadas, problemas resolvidos, conflitos abafados antes de crescer. O morro funcionava como um organismo acostumado à presença dele. Cada movimento tinha resposta. Cada silêncio tinha significado. Mas à noite, quando o barulho diminuía e as luzes ficavam espalhadas como feridas abertas na escuridão, era diferente. À noite, sobrava espaço para pensar. E Caio não gostava disso. As mulheres sempre estiveram ali. Nunca faltaram. Vinham por interesse, por curiosidade, por atração ou por simples desejo de estar perto do homem que mandava. Algumas eram diretas. Outras fingiam não ser. Caio nunca perguntava o motivo. Também nunca prometia nada além do momento. Era claro desde o início. Nada de compromisso. Nada de amanhã. Nada de sentimento. Ele não enganava ninguém. Se alguém se iludia, não era por falta de aviso. Caio deixava tudo exposto, quase bruto. Era mais fácil assim. Menos cobrança. Menos risco. As noites seguiam esse padrão. Um corpo ao lado. Um silêncio confortável depois. A mulher indo embora antes de amanhecer ou ficando até perder a graça. Caio não fazia esforço para manter. Também não expulsava. Apenas deixava acontecer. E, quando acabava, voltava a ficar sozinho. Era isso que o morro chamava de liberdade. Bicho solto. Caio aceitava o rótulo sem se incomodar. No fundo, ele acreditava nisso. Achava que não tinha nascido para criar raízes. Que homens como ele não pertenciam a ninguém. Pertencer era abrir brecha. Era oferecer fraqueza de bandeja. E fraqueza ali não durava. Ele já tinha visto de perto o que o apego fazia. Homens fortes se tornarem previsíveis. Chefes perderem o foco por causa de mulher, de filho, de promessa de vida normal. O morro não perdoava esse tipo de distração. Caio nunca quis esse fim. Por isso, quando alguém insinuava algo além, ele cortava rápido. Um olhar frio, uma frase curta, distância imediata. Não gostava de drama. Nem de cobrança emocional. Preferia a solidão dura à confusão dos sentimentos. As noites vazias eram melhores do que noites cheias de expectativa. Ainda assim, havia momentos em que o vazio pesava. Não era tristeza. Caio não se via como um homem triste. Era mais uma sensação de eco, como se tudo aquilo se repetisse demais, sem nunca avançar. O corpo se satisfazia, mas a mente ficava distante. Ele ignorava. Sempre ignorou. Certa madrugada, depois de uma dessas noites, Caio ficou sentado na beira da cama, olhando para o chão. A mulher ainda dormia, o corpo relaxado, alheio. Ele se levantou sem fazer barulho, foi até a janela e acendeu um cigarro. O morro dormia m*l, como sempre. Algumas luzes acesas, passos isolados, vozes distantes. Tudo normal. Ainda assim, algo incomodava. Caio pensou em como aquela vida tinha sido construída com escolhas conscientes. Nada ali era acaso. Ele tinha decidido não amar. Tinha decidido não ficar. Tinha decidido não criar laços. Era um acordo silencioso consigo mesmo. E funcionava. Funcionava até pensar em coisas que não devia. O nome dela vinha, às vezes, sem aviso. Não como desejo explícito, mas como incômodo. Uma lembrança fora de lugar, surgindo em momentos errados. Caio odiava isso. Cortava rápido, como cortava qualquer pensamento que ameaçasse sua estabilidade. — Não — murmurava. — Isso não é pra mim. E seguia. Durante o dia, Caio mantinha a postura firme. Os homens o respeitavam. O morro funcionava. Nada escapava ao controle. Às vezes, alguém comentava sobre suas noites, sobre as mulheres que apareciam e sumiam. — C.V não se apega — diziam. — Bicho solto. Ele ouvia e não corrigia. Era melhor assim. Mas havia uma diferença entre não se apegar e nunca ter pertencido a ninguém. Caio começava a perceber isso em detalhes pequenos, quase insignificantes. No silêncio depois que alguém ia embora. No hábito de dormir sempre do mesmo lado da cama. No fato de nunca haver objetos pessoais de outra pessoa espalhados pela casa. Tudo ali era provisório. E ele gostava disso. Ou acreditava gostar. Nicole, sem saber, atravessava esses pensamentos como uma presença fantasma. Não estava nas noites dele. Não fazia parte daquele cenário. E talvez fosse exatamente isso que a tornava mais perigosa. Ela não pedia nada. Não se aproximava. Não criava expectativa. Era só presença distante. Caio percebia que, ao contrário das outras mulheres, Nicole não tentava ocupar espaço. Não buscava atenção. Não se oferecia. Não exigia. E isso mexia com uma lógica que ele não tinha interesse em revisar. Ele mantinha distância, reforçava regras, se lembrava o tempo todo de quem era e do lugar que ocupava. Ser bicho solto não era só escolha. Era necessidade estratégica. O morro exigia isso. Certa noite, um dos homens comentou, rindo, sobre uma mulher que estava tentando “amarrar” Caio. — Boa sorte — Caio respondeu, seco. — Não nasci pra isso. Riram. O assunto morreu. Mas a frase ficou ecoando. Não nasci pra isso. Ele acreditava de verdade. Acreditava que alguns homens não foram feitos para amar sem destruir. Que o melhor que podia oferecer ao mundo era ordem, controle, proteção dura. Não afeto. Não cuidado emocional. Era assim que justificava a frieza. Era assim que sobrevivia. As noites continuaram iguais. Mulheres diferentes. Mesmas regras. Mesmo vazio administrável. Caio não se via infeliz. Via-se funcional. E, naquele mundo, isso era o mais perto de sucesso que alguém podia chegar. Ainda assim, havia algo que começava a destoar. Uma inquietação pequena, quase imperceptível. Uma sensação de que repetir não era o mesmo que avançar. De que talvez estivesse vivendo em círculo, não em linha reta. Ele ignorava. Ignorar sempre funcionou. Mas o que Caio Vinícius ainda não sabia — ou não queria admitir — era que ser bicho solto tem um custo. E que, quanto mais tempo se corre sozinho, mais difícil se torna parar quando algo realmente importa aparece no caminho. E Nicole, mesmo distante, mesmo fora das noites, mesmo fora das escolhas conscientes dele, já estava ali. Não como mulher. Não como tentação. Mas como rachadura silenciosa na certeza de que ele não tinha nascido para amar.
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