Prólogo
°°° Lívia Carter °°°
Fixo meus olhos cansados no monitor à minha frente, sentindo a ardência típica de quem já encarou horas demais de planilhas, relatórios e expectativas alheias. Ao meu lado, Chloe falava sem pausa, como se tivesse engolido um podcast motivacional inteiro no café da manhã. Ela gesticulava, vibrante, descrevendo as mudanças recentes na empresa como quem apresenta um trailer épico sobre ascensão profissional.
— É a nossa chance, Lívia! — exclama, fazendo uma dancinha desajeitada na cadeira que me arranca um meio sorriso, apesar do cansaço. — Já pensou? A gente subindo juntas? Deus, seria perfeito!
Enquanto ela idealiza o próprio futuro brilhante, eu tento concentrar minha mente caótica na pilha de documentos que precisa ser enviada até o fim do expediente. Sexta-feira.
— Eu admiro sua empolgação, Chloe — digo, esfregando as têmporas — mas podemos, por favor, focar nessas tarefas primeiro? Não quero passar minha noite de sexta fazendo hora extra para o senhor Miller. Eu gosto da minha sanidade.
Minha tentativa de colocar ordem na situação só rende mais caos.
— Eu, sinceramente, não me importaria de ficar até tarde com o nosso chefe gostoso — ela diz, sorrindo de um jeito tão malicioso que até o d***o coraria.
Reviro os olhos tão forte que quase vejo meu cérebro.
— Chloe… — uso aquele tom de irmã mais velha exausta, e imediatamente ela faz uma careta. — Estou dizendo isso para o seu bem. Esquece essa obsessão pelo senhor Miller só por hoje. Foco, mulher. Foco.
Chloe era um doce de pessoa, mas vivia no universo alternativo dos romances clichês onde o chefe sexy se apaixona pela funcionária esforçada — quando na vida real o chefe sexy normalmente é só… um problema. Daqueles grandes.
Ela tinha sido contratada havia seis meses. O senhor Miller precisava de uma assistente pessoal — alguém para administrar sua agenda, atender seus caprichos e filtrar seus surtos. Eu achei que, com isso, minha vida ficaria mais leve. Talvez até tivesse tempo para respirar entre uma reunião e outra. Mas não. A vida, essa piadista, deu um jeito de inverter os papéis: Chloe virou secretária, e eu fui jogada para o cargo de assistente pessoal.
Também conhecido como secretária do d***o.
Mason Miller era um cretino de primeira, certificado e autenticamente irritante. Um homem que colecionava defeitos como se fossem troféus. E, nos últimos dois anos, sua principal meta parecia ser torturar minha existência com requinte e elegância corporativa.
— Não pago vocês para conversarem durante o expediente — anuncia uma voz atrás de nós, carregada de sarcasmo o suficiente para gelar qualquer entusiasmo.
Ah, o momento em que o demônio aparece na porta do inferno.
Por um instante, considero seriamente pegar a pilha de papéis e simplesmente tacar na cara dele, dramaticamente, como num filme r**m. Mas aí lembro que tenho contas, dignidade e, principalmente, gatos para alimentar.
Respiro fundo. Engulo todo impulso impulsivo.
— Sim, senhor Miller — respondemos juntas, numa sincronia triste e automática.
Ele sorri. Aquele sorriso descarado, pretensioso, estudado. Seus olhos percorrem a sala, pousam em Chloe, depois em mim, como se estivesse escolhendo qual de nós sacrificaria naquela sexta-feira.
A resposta vem rápida. E dolorosa.
— Senhorita Walter, você tem feito um ótimo trabalho esses dias — elogia Chloe, exibindo um sorriso tão grande que quase machuca. — Tire a tarde de folga. Considere isso uma recompensa pelo seu esforço.
Ah. Claro. Óbvio.
Eu juro que consigo ouvir o destino gargalhando da minha cara.
Mason Miller realmente ama, com dedicação poética, transformar a minha vida em um inferno personalizado. Dar folga à Chloe em plena tarde de sexta-feira só podia significar uma coisa: eu trabalhar até virar pó.
Engulo seco, mantendo minha expressão neutra. Não posso perder esse emprego. Ainda preciso pagar aluguel, água, luz, e os croquetes premium dos meus gatos.
Respirar. Só respirar.
— Agradeço, senhor Miller, mas não posso deixar a Lívia sozinha. Ainda estamos terminando os documentos que o senhor pediu — Chloe diz, meio sem jeito, alternando o olhar entre o carrasco e eu.
— Tenho certeza de que a senhorita Carter não se importaria — ele rebate de imediato, cada palavra pingando sarcasmo. — Ela é experiente. Sem sombra de dúvidas dará conta de tudo.
O olhar dele crava no meu como uma provocação silenciosa.
— Tudo bem por você, Lívia? — Chloe pergunta, com aquela voz insegura de quem está prestes a ser jogada aos lobos.
— Sinceramente? — digo com calma — Não tenho certeza se vou conseguir terminar tudo sozinha.
É a verdade. E a pequena faísca de desafio nos olhos do Mason deixa claro que isso só o diverte mais.
Ele balança a cabeça lentamente, um sorriso preguiçoso surgindo nos lábios.
— Senhorita Walter, sinta-se à vontade para ficar e ajudar a senhorita Carter. Mas, de toda forma, está liberada hoje.
Ele diz isso como quem oferece um presente envenenado e depois vira as costas. Anda alguns passos, e quando penso que finalmente vai entrar em sua caverna de maldade, ele para, vira-se de novo e lança a bomba.
— Ah, e senhorita Carter… os documentos de ontem precisam ser refeitos. Há muitos erros. Preciso deles até o fim do expediente. Tenho certeza de que dará conta.
Meu queixo quase cai no chão. Abro a boca para protestar — talvez gritar, talvez chorar, talvez jogar um grampeador na cabeça dele — mas ele já entrou em sua sala. A porta se fecha com aquele clique que soa como sentença.
E eu me pergunto, seria tão absurdo assim simplesmente… largar tudo e fugir para criar cabras na montanha?
☆☆☆☆☆☆
As horas escorrem como areia fina. Quando finalmente olho para o relógio na tela do computador, sinto meu espírito tentar abandonar meu corpo: 20h37. Nem um minuto a menos.
Meu cérebro está derretendo. Meus olhos ardem. Minha alma, provavelmente, foi vender arte na praia — Coisa que sem duvidas eu estou quase fazendo.
Junto a última folha revisada, organizo tudo de forma impecável e sigo para o escritório dele. Encontro Mason Miller inclinado sobre o computador, a típica expressão concentrada que eu conheço bem: a de um homem prestes a destruir a paz de alguém.
— Aqui estão os documentos solicitados, senhor Miller — digo, colocando a pilha de folhas sobre a mesa.
Ele sorri. Aquele sorriso. O que me dá vontade de chutar uma parede.
— Achei que terminaria bem mais tarde, senhorita Carter, considerando seu histórico de atrasos no trabalho.
A audácia desse homem não tem limites. Ele nem me olha, continua digitando como se estivesse fazendo um favor ao mundo ao existir.
— Para sua infelicidade, senhor Miller, não estava nos meus planos passar minha noite de sexta-feira lhe fazendo companhia — retruco com sarcasmo, oferecendo o meu melhor sorriso falso.
Ele não ergue um único fio de sobrancelha.
— Ótimo, senhorita. Só preciso que revise os documentos e estará liberada.
— Já revisei. Tudo revisado, corrigido e organizado na ordem certa. Se não se importa, tenho uma vida lá fora que pretendo aproveitar.
E aí, sim, ele olha para mim. Aquele sorriso presunçoso reaparece.
— Que pena que não estou disponível esta noite, senhorita Carter. Adoraria acompanhá-la em sua vida empolgante além destas paredes. Mas, infelizmente, terei de recusar seu convite.
Eu quase gargalho.
— Não se preocupe, senhor Miller. Nunca chamaria alguém como você para me acompanhar a lugar nenhum.
Ele solta uma risada baixa, carregada de deboche.
— Nunca diga nunca, senhorita Carter. — E então inclina a cabeça, analisando meu rosto. — E, por favor, não revire os olhos para mim. Ou vou precisar lhe dar um motivo real para fazer isso.
Eu ergo as sobrancelhas, incrédula. É isso mesmo? Ele… flertando? Comigo? O Mason “sou a personificação do caos corporativo” Miller?
Ou eu bebi demais no almoço, ou o universo está tirando com a minha cara.
— Deve parar de usar o que quer que esteja usando, senhor Miller. Está lhe causando alucinações — digo, soltando uma risada curta antes de me virar para ir embora. — Até segunda.
Saio da sala e caminho até minha mesa, recolhendo minhas coisas. O peso do cansaço domina tudo em mim, mas não supera a certeza absoluta de que a única coisa que eu não precisava naquela noite era lidar com o meu chefe e sua tentativa patética — e fracassada — de flertar comigo.