☆Capítulo 10☆

1619 Words
Alguns dias depois. Livia Carter. O dia havia sido exaustivo. Daqueles que se infiltram nos ossos, que pesam nos ombros e fazem a simples ideia da própria cama parecer uma promessa divina. Eu queria dormir por três dias seguidos, talvez quatro, e acordar apenas quando o mundo estivesse menos disposto a me testar. Mason estava de TPM — como parece estar em quase todos os dias da sua existência. Em um momento sorria como se fosse a pessoa mais agradável do escritório, no outro parecia genuinamente disposto a morder qualquer funcionário que ousasse respirar alto demais perto dele. A empresa se preparava para um grande contrato, e tudo indicava que aquela pressão estava sendo demais para o seu autocontrole já questionável. Ao menos, a ideia de me perseguir havia dado uma pausa. E, sinceramente, eu já tenho problemas suficientes. Não preciso de mais um. Bem… uma pausa apenas no sentido literal. Porque, internamente, Mason é um surto em tempo integral. Ele me pediu perdão por ter invadido meu apartamento alguns dias atrás. Eu disse que o perdoava. Ele me pediu uma chance. Eu disse que não. Até porque — detalhe nada irrelevante — ele está noivo da minha amiga. — “Ah, mas é um noivado falso…” Continua sendo um noivado. A família sabe. A mídia sabe. O maldito país inteiro sabe. E eu não tenho absolutamente nenhuma intenção de me tornar “a outra” em uma história que já nasce errada. E, mesmo que ele estivesse solteiro — o que não está — eu realmente não preciso de mais problemas emocionais para administrar. Isso sem falar nas coisas que ele apronta. Dos cinco últimos dias desta semana — graças a Deus hoje é sexta-feira — em três eu cheguei em casa para encontrar meu apartamento transformado em um jardim botânico clandestino. Na primeira vez foram girassóis. Girassóis por todos os lados. Na mesa, no sofá, no chão, na pia, no banheiro. Eu ainda não sei como ele entrou, considerando que eu havia trocado as fechaduras. E, para completar o cenário de tragédia doméstica, meus gatos estavam fazendo a festa. Na segunda vez, foram rosas. De todas as cores. De todos os tamanhos. Eu fiquei genuinamente dividida entre surtar ou agradecer pelos gestos exagerados de um homem que claramente confunde romantismo com invasão de propriedade. E a terceira vez… foi ontem. Ontem eu cheguei em casa e encontrei meu apartamento coberto de lírios. LÍRIOS. QUE SÃO ALTAMENTE TÓXICOS PARA GATOS. Meu apartamento parecia um campo de batalha. Havia vômito no tapete, no sofá, no corredor. Sombra estava inconsciente. Pantera m*l conseguia parar de vomitar. Passei boa parte da noite em um hospital veterinário, sentada em uma cadeira dura, observando estranhos medicarem as duas criaturas que mais amo neste mundo. Eles haviam comido pétalas. Ou pólen. Ou algo assim. Só sei que, se tivesse demorado mais um pouco, eles não teriam resistido. Enviei a conta inteira para Mason. Agradeci ironicamente pelo presente. E informei, com toda a frieza possível, que meus gatos ainda estavam internados. Ele vai pagar todo o tratamento. Ele passou o dia inteiro se desculpando. Disse que não sabia que lírios eram tóxicos para gatos. Eu já o perdoei? Talvez sim. Sei que ele não fez por m*l. Mas isso não torna o erro menos grave. Então pretendo usar esse voto de silêncio — cuidadosamente cultivado — para finalmente ter algo que anda em falta na minha vida: Um fim de semana de paz. Nem flores. Nem pedidos de desculpa. Nem declarações grandiosas. Só eu, meus gatos sobreviventes… E o direito sagrado de não ser o centro do surto emocional de ninguém. 》☆☆☆《 — Nós precisamos fazer alguma coisa. — a voz de Summer ecoa pela sala, arrastada, carregada daquele tom de tédio quase dramático. — Qualquer coisa. Ou eu vou morrer de tédio. Ela está deitada de ponta-cabeça no meu sofá, os cabelos quase tocando o chão, as pernas jogadas sobre o encosto como se a gravidade fosse apenas uma sugestão. O calor da tarde de sábado nos consome lentamente. Um calor espesso, grudado na pele, que faz até respirar parecer um esforço físico. Em algum lugar do universo, eu me pergunto seriamente se o sol decidiu se vingar da humanidade e nos fritar vivos, um por um. — Eu preciso de um iate no meio do mar… — ela suspira, teatral. — Com homens gostosos me bajulando e uma quantidade obscena de sorvete. Ela sorri abertamente, talvez já imaginando a cena com detalhes demais para um cérebro que deveria estar em repouso. — Você bem que poderia pedir ao nosso chefe para usarmos o iate dele. Meus olhos se arregalam no mesmo instante. Eu a encaro como se, subitamente, duas cabeças extras tivessem brotado em cada lado do pescoço dela. — NEM PENSAR. Minha resposta sai mais alta do que eu pretendia. — Eu me recuso a mandar mensagem para Mason. Muito menos para pedir algo tão… inadequado. — Pede ao irmão dele então. — Summer rebate, abrindo um sorriso claramente maligno. — Afinal, tudo pertence à família Miller, certo? — Engraçado. — cruzo os braços. — E por que você não pede ao Ethan? Até onde eu sei, ele tem aquela piscina divina em casa. — Ele tá fora da cidade. — ela faz um biquinho digno de criança mimada. — Foi a uma convenção médica em Atlanta. Só deve voltar em alguns dias. — Bem, é uma pena. — dou de ombros, fingindo indiferença. — Vamos ter que nos refrescar do nosso jeito. Digo isso já me levantando do sofá, sentindo o estofado quase implorar para que eu não o abandone naquele calor. — Vou pegar sorvete. Quer de morango ou chocolate? — pergunto, já indo em direção à cozinha. — Chocolate só o Ethan. — ela responde sem o menor pudor. Reviro os olhos, rindo sozinha, e sigo pelo corredor. Na cozinha, retiro o pote de sorvete de morango do congelador e encho dois recipientes de forma generosa. Nada de porções civilizadas. Hoje é dia de sobrevivência térmica. Quando volto para a sala, Summer continua exatamente na mesma posição de antes. A única diferença é… o meu celular nas mãos dela. — O que você tá fazendo? — pergunto, pousando o sorvete na mesa de centro e cruzando os braços, já em posição de alerta máximo. — Resolvendo nosso calor. Ela me responde com três palavras. Apenas três palavras. Simples. Curtas. Tranquilas demais. Mas são suficientes para eu saber, com uma clareza assustadora, que Summer havia feito merda. E das grandes. Sem pensar, tomo o celular da mão dela como se minha vida dependesse disso. Dou dois passos para trás, afastando-me do sofá, os dedos já voando pela tela enquanto vasculho cada aplicativo com uma pressa quase desesperada. Levo alguns minutos. Não havia notificação bancária. Nenhuma reserva em lugar inusitado. Nada obsceno. Nada ilegal. Nada… criminoso. Por um breve segundo, eu quase começo a acreditar que talvez — apenas talvez — Summer tivesse sido menos destrutiva do que o habitual. Mas então eu abro o aplicativo de mensagens. E meu coração simplesmente para. Literalmente. Ele falha uma batida. Depois volta a bater tão rápido que tenho a nítida sensação de que pode sair pela minha boca a qualquer momento. A primeira conversa no topo da tela: Mason. Com uma única mensagem recém-enviada: “Me dá vinte minutos.” Sem acreditar, abro a conversa. E quase caio para trás ao ler. 》☆ MENSAGENS ON ☆《 Livia — Tá muito calor. — Estou derretendo aqui no apartamento e pensei… que talvez você quisesse, sei lá… quem sabe… — Aproveitar esse sol em alto-mar e arrumar uma serventia para aquele teu iate que tá parado no porto. 🫦👀🥵 — Sempre quis ver o pôr do sol no meio do mar. 🥰🌅 — O que me diz? 👀🔥 Demônio (Mason) — Tá falando sério? — Meu iate tá disponível, posso te buscar em alguns minutos. — Só vou me trocar e pegar o carro. — Isso é sério mesmo? Ou você só tá brincando comigo? Livia — Totalmente sério, só não demora. Tô morrendo de calor. 🫦🥵 Demônio (Mason) — Deus, eu não acredito que isso tá acontecendo. — Eu vou. Espera, tô já saindo. — Meu Deus, obrigado. 🙏 — Me dá vinte minutos. 》☆ MENSAGENS OFF ☆《 --- Respiro fundo. Uma vez. Duas vezes. Três vezes. Encarnando oficialmente minha melhor versão de pessoa calma — que dura exatos três segundos — eu penso, com uma clareza assustadora: Quem diabos precisa de inimigos quando se tem Summer? — Pode me agradecer depois. — ela diz, se endireitando no sofá como se tivesse acabado de me fazer um favor humanitário. — Te agradecer? — repito, minha voz saindo fina demais, enquanto um riso quase maníaco escapa dos meus lábios. — Summer… eu vou te jogar por essa janela. — Tá, tá, depois você surta. — ela se levanta tranquilamente, alisando a blusa, um sorriso vitorioso cruzando os lábios. — Agora eu vou me arrumar para ir navegar no iate do nosso chefe, e você deveria fazer o mesmo. Ela faz uma pausa estratégica. — De preferência com aquele biquíni preto minúsculo que você comprou… — SUMMER— Eu nem tenho tempo de terminar. Essa louca simplesmente sai do meu apartamento, me deixando sozinha com: Dois gatos traumatizados. Um sorvete derretendo na mesa. Um iate a caminho. E a nítida sensação de que minha vida está prestes a sair completamente dos trilhos. Fico parada no meio da sala, encarando o celular como se ele fosse uma bomba prestes a explodir. E pensando, com um desespero silencioso: Como, em nome de tudo que é sagrado, eu vou me livrar disso?
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