☆ Mason Miller ☆
Observo ela sair de minha sala, um passo após o outro. Desfilando como se o mundo pertencesse a ela, e de certa forma, pertence. O meu mundo pertence a ela. Cada gesto seu, cada movimento, cada curva do corpo dela parece desenhado para me lembrar de que não há nada que eu possa controlar quando ela está perto. E, ainda assim, há algo em cada passo que a torna inalcançável, distante, quase impossível de tocar.
Passo as mãos por meu rosto, sentindo algo crescer aqui dentro. Mágoa, raiva, revolta… um turbilhão de emoções que se misturam e se confundem em um sentimento que eu não saberia decifrar nem se quisesse.
É pesado, sufocante, quase físico, como se algo dentro de mim se rebelasse contra a própria vida. Cada batida do meu coração parece gritar por ela, mesmo quando a razão me diz para parar.
Por que tudo tem que ser dessa forma? Por que Livia tinha que estar tão perto e tão distante ao mesmo tempo? Por que eu tinha de abrir a p***a da boca e falar demais… mais do que eu deveria, eu… merda, eu só quero ela de volta. Só isso. Não importa nada mais.
Eu preciso dela de volta.
Mesmo que os médicos tenham dito que não é possível, que as memórias perdidas não voltariam.
Eu preciso da minha garota de volta.
Já se passaram quase quatro anos, e não há uma noite em que eu não me culpe por tudo que aconteceu. Cada lembrança que surge é como uma lâmina cortando o peito, lembrando-me do que perdi, do que destruí, do que jamais poderei recuperar.
Não há uma noite em que eu não visite nossas memórias, não folheie fotos antigas, não sinta falta daquela forma como ela sorria para mim, daquele sorriso que iluminava meu mundo quando tudo ficava escuro demais.
Livia era e sempre foi minha calmaria no meio do caos. Ela era meu porto seguro, minha luz em meio à escuridão, minha paz. Cada lembrança dela é como uma chama que insiste em me queimar, e eu não consigo apagar.
Mas tudo mudou naquela maldita noite, aquele maldito acidente que quase custou nossas vidas. Ela foi salva, mas a parte de mim que existia dentro dela morreu naquela noite. As memórias nunca voltaram. Os médicos disseram que nunca vão voltar. Que seria perigoso tentar estimular, tentar ajudá-la a recuperá-las.
Que qualquer esforço poderia levá-la a um colapso, ou algo igualmente catastrófico. A linguagem médica é complicada, cheia de termos que eu m*l compreendo, mas tudo que eu sei é simples: eu perdi minha mulher naquela noite.
Sim, minha mulher. Lívia Carter, que se tornaria Livia Miller. Estávamos noivos. Mas tudo isso é uma longa história que pretendo deixar para outro dia, porque agora não é o momento.
Agora, preciso de algo forte para suportar o dia, algo que me permita atravessar cada hora enquanto oro, rezo e imploro mentalmente para qualquer divindade que possa me ouvir. Que me permita, ao menos, ter o prazer de almoçar com ela outra vez, depois de tanto tempo.
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☆ Summer Hawkins ☆
Livia é, e sempre será, a minha metade. Não é apenas o título de "melhor amiga"; ela é a irmã que a vida esqueceu de me dar pelo sangue, mas selou pelo destino.
Crescemos dividindo o peso do mundo e a leveza das risadas, atravessando tempestades que teriam derrubado qualquer um que não tivesse um porto seguro onde ancorar. Vivemos aventuras intensas demais para o senso comum e, em contrapartida, momentos tão mundanos que se tornavam extraordinários apenas por estarmos juntas.
A questão central entre nós é a transparência. Não existem gavetas trancadas ou segredos guardados a sete chaves; fazemos quase tudo em sintonia.
E é exatamente por essa conexão quase visceral, por mapear cada microexpressão daquele rosto, que eu percebo o exato momento em que o peso de uma preocupação nubla o seu olhar.
— Você vai me contar por vontade própria ou prefere que eu use meus métodos de investigação e descubra sozinha? — Minha voz ecoou suave, uma calmaria calculada, segundos antes de eu levar a taça de vinho aos lábios, sentindo o aroma frutado enquanto a observava por cima do cristal.
— Não sei do que você está falando, ruiva — ela rebateu prontamente. A voz dela tentou simular uma despreocupação que não existia.
Livia sempre foi uma mulher incrível, mas uma péssima mentirosa, especialmente para mim.
— Livi, poupe-nos do teatro. Eu sou sua amiga e conheço esse olhar distante, esse jeito de quem está recalculando a rota — disse com serenidade, meus olhos fixos em cada movimento defensivo dela. — E a julgar pela forma como você está distraída com esse garfo, eu arriscaria um palpite: tem a ver com os irmãos Miller. Então vamos lá, maninha, abra o jogo. De qual deles eu vou ter que arrancar as bolas antes do final do expediente?
Ela me encarou por um longo momento, as defesas finalmente cedendo. Piscou algumas vezes, processando minha oferta de castração, e um sorriso gentil e um tanto cansado floresceu em seus
lábios.
— Por enquanto, deixe as bolas deles onde estão — ela disse entre risos contidos, buscando refúgio em sua própria taça. — É só que... o Mason me convidou para almoçar. Isso logo após um pequeno surto possessivo dele ao ouvir o Christopher avisando que passaria no meu apartamento hoje à noite para me buscar.
— E como o seu coração está lidando com esse fogo cruzado? — perguntei. Minha curiosidade era genuína, mas eu já estava fazendo uma anotação mental para, no mínimo, dar um corretivo nos Miller se eles ousassem confundi-la.
— Eu me sinto como um maldito brinquedo que ambos estão disputando para ver quem vai quebrar primeiro — a voz dela vacilou, revelando uma fragilidade que me deixou instantaneamente em alerta.
— O Christopher... ele parece o pacote completo, sabe? O ar de bom moço, gentil, educado, prestativo até demais. Saímos algumas vezes e eu aceitei o próximo convite, mas há algo no meu instinto que me manda recuar. Ninguém é tão perfeito assim, Summer. Foi exatamente assim que começou com o Leonard... e o final daquela história não foi exatamente um conto de fadas.
— Nem me fale o nome desse desgraçado — respondi, sentindo a raiva familiar subir pela minha espinha. — Aquele verme teve a sorte de morrer antes que eu perdesse a paciência, porque eu mesma teria garantido o fim dele. Mas e o Mason? O que o "irmão problema" tem feito?
Livia balançou a cabeça negativamente, mas um brilho diferente, quase
involuntário, surgiu em seu rosto.
— O Mason não usa máscaras. Ele é... intenso. Às vezes, intenso demais para o meu próprio bem. Ele está me implorando por uma noite desde que o Christopher apareceu no radar. — Ela falava com uma calma que contrastava com a natureza caótica do que descrevia. — Ele praticamente me ofereceu o mundo: dinheiro, carros, o que eu quisesse. Eu até brinquei que precisava dessas coisas, e ele não hesitou. Disse que me daria tudo apenas pela chance de ter uma única noite comigo.
— E o que a sua intuição diz sobre isso? — A pergunta foi direta. Notei o canto da boca dela subir em um sorriso sutil e revelador.
— Que é uma loucura completa. — Ela riu, uma risada que beirava o nervosismo. — Não faz sentido ele oferecer tanto para alguém como eu, quando ele tem uma fila de mulheres aos seus pés. O problema é que o Mason é como um ímã maldito; ele me atrai de um jeito que eu não consigo racionalizar. Nas últimas semanas, admito, tem sido difícil ignorar essa força gravitacional, mas...
— Mas...?
— Eu não me sinto pronta, Summer. Não sei se consigo deixar alguém entrar no meu espaço, na minha vida, de novo — ela confessou, desviando o olhar para um ponto indefinido no restaurante, perdendo-se novamente no labirinto de memórias e medos. — Hoje ele mandou cancelar todos os compromissos. Disse que não queria ver ninguém, mas quase implorou para que almoçássemos juntos. Ele está lá agora, esperando.
— Então por que você ainda está aqui? — perguntei, deixando um sorriso encorajador transparecer.
— Você m*l tocou na comida, Livi. Claramente, seu apetite ficou naquele escritório, ou seja lá onde for que você e o Mason tiveram esse embate. Sua mente não está nesta mesa, está com ele. E como sua melhor amiga, é meu dever te expulsar daqui.
Ela estreitou os olhos, negando com a cabeça enquanto meu sorriso se alargava.
— Você é terrível, sabia? — resmungou, embora houvesse gratidão no tom.
— Eu não te julgo. Eu também estou aqui evitando o almoço com o Ethan, mesmo que ele tenha transformado meu escritório em uma floricultura completa de tantos mimos. — revirei os olhos, mas não consegui esconder o divertimento. — De qualquer forma, vá logo. Ele está te esperando e você está perdendo tempo com esse vinho que eu posso muito bem terminar sozinha.
— Terrível — ela repetiu, bufando enquanto tirava algumas notas da bolsa e as deixava sobre a mesa de forma apressada.
— Eu sou prática, você é indecisa. É por isso que somos uma dupla imbatível — respondi com uma piscadela.
Livia se despediu e saiu quase correndo, a pressa denunciando o que o orgulho tentava esconder. Fiquei ali, balançando a cabeça e observando-a desaparecer pela porta.
Um sorriso satisfeito permaneceu em meus lábios. Minha amiga merece o mundo, e se o Mason Miller realmente pretende entregá-lo de bandeja para ela, eu serei a primeira a aplaudir — desde que ele não pise na bola.
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☆ Livia Carter ☆
Eu deveria ter ouvido a Summer? A resposta flutuava entre o "sim" pragmático dela e o "não" receoso do meu instinto. Tudo o que eu sabia, com uma clareza desconcertante, era que eu me encontrava estática em frente à porta do escritório do meu chefe.
Em uma das mãos, eu equilibrava uma sacola com uma torta de chocolate; na outra, eu tentava segurar os restos da minha dignidade e a coragem que teimava em escorrer pelos vãos dos meus dedos.
Enquanto a dúvida me corroía, eu me perguntava se tudo aquilo não passava de um jogo de poder. E se as palavras dele fossem apenas iscas? Se Mason tivesse dito tudo aquilo apenas para testar até onde minha resistência cederia, com que cara eu ficaria ao entrar ali? A humilhação de ser um peão em uma brincadeira de sedução dos Miller era um fantasma que me assombrava.
Respirei fundo, buscando oxigênio para os pulmões apertados, e empurrei a porta. Não bati. Não pedi licença. Se fosse uma armadilha ou um deboche, eu queria encarar de frente, sem formalidades.
Meus protestos internos, no entanto, morreram no exato segundo em que meus pés tocaram o carpete.
O escritório de Mason havia sido transformado. A mesa de carvalho maciço, geralmente coberta por contratos e planilhas frias, agora ostentava a opulência de um restaurante cinco estrelas.
Havia uma sucessão de pratos cobertos, variando de entradas sofisticadas a pratos principais que exalavam aromas inebriantes. No canto, uma garrafa de vinho repousava em um balde de gelo, o suor no metal indicando que tudo estava pronto há algum tempo. As cortinas estavam pesadamente fechadas, e a iluminação, reduzida a pontos estratégicos, banhava o ambiente em uma penumbra íntima e acolhedora.
Tudo ali gritava capricho. Tudo ali dizia que ele não queria apenas almoçar; ele queria criar um universo onde só existíssemos nós dois. Um sorriso involuntário escapou dos meus lábios, desarmando minha guarda.
Meus olhos vasculharam o ambiente em busca do arquiteto daquela cena, apenas para encontrá-lo no sofá. Mason estava sentado com os ombros caídos, o rosto enterrado nas mãos, em uma postura de derrota absoluta.
Não havia sinal do homem arrogante ou do sedutor implacável. Ali estava alguém que parecia ter desistido, alguém cujas expectativas haviam sido estilhaçadas pelo silêncio da minha ausência.
Ver aquela vulnerabilidade nele partiu algo dentro de mim.
Fechei a porta atrás de mim. O baque suave do trinco ecoou no silêncio absoluto.
Caminhei em direção a ele, meus passos abafados, até estar a poucos centímetros de sua figura curvada.
— Mason... — chamei. O nome dele saiu baixo, carregado de uma hesitação que eu não consegui camuflar.
O som da minha voz pareceu arrancá-lo de um transe doloroso. Ele ergueu o rosto bruscamente, e a intensidade com que seus olhos azuis me encontraram quase me fez recuar.
Havia uma tempestade ali: desespero, uma culpa latente, mágoa e, bem no fundo, uma faísca trêmula que se parecia muito com a esperança.
— Livia... — Meu nome escapou de seus lábios como um segredo proibido, um sopro de descrença. — É você mesmo? Ou minha mente resolveu criar uma alucinação c***l para me punir por esperar demais?
Aproimei-me o suficiente para sentir o calor que emanava dele. Em um gesto que ignorou toda a minha lógica e os avisos da Summer, levei minha mão ao rosto dele. Meus dedos tocaram sua pele em um carinho instintivo.
Mason fechou os olhos no mesmo instante, inclinando o rosto contra a minha palma, como se quisesse absorver cada grama daquele toque, como se temesse que, se piscasse, eu desaparecesse no ar.
— Espero que o convite para o almoço ainda esteja de pé — eu disse, minha voz saindo muito mais suave e doce do que eu pretendia. — Eu trouxe torta de chocolate para a sobremesa.
Mason abriu os olhos e me encarou. Ele não apenas olhou para mim; ele me enxergou, atravessando todas as minhas barreiras. O sorriso que surgiu em seus lábios, lento e genuíno, foi o golpe final. Eu estava completamente desmontada.